“Bota o time inteiro de 2019”, foi o que mais se ouviu dos rubro-negros consultados pela editoria de Esportes para a montagem da seleção dos anos 10. Seria mesmo o caminho mais óbvio, após as conquistas da Libertadores e do Brasileirão, da maneira como aconteceram. Mas as seleções de uma década precisam ter um olhar comparativo, observar o tempo de serviço e os resultados e, no fim, lembrar que nenhum resultado será unânime.

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É preciso recordar os times que suaram em condições adversas a fim de que as finanças fossem equilibradas e mesmo assim deram alegrias, como a inesperada Copa do Brasil de 2013. A opinião da lista é que estes eleitos não decepcionariam caso fossem guiados pelo técnico que extraiu o máximo até de jogadores outrora criticados e perseguidos.

Listas como essa também nos levam a confundir o talento de alguns jogadores com o que de fato eles já apresentaram de rubro-negro. Ninguém nega que Ronaldinho Gaúcho foi um gigante do futebol brasileiro. Mas, para fins de uma retrospectiva, só seu desempenho na Gávea interessa.

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Ainda assim, é preciso dar ao time de 2019 o peso que ele tem: os anos 2010 chegam ao fim de forma apoteótica para o Flamengo. Após começar a década com um endividamento três vezes maior do que a sua receita, o clube contrata melhor e colhe agora frutos e títulos.

Não à toa, oito jogadores e o técnico do atual elenco formam o time ideal do período. Cada um dos titulares foi considerado, mas alguns ficaram de fora, especialmente Arrascaeta, que formou um trio de 96 gols com Bruno Henrique e Gabigol, mas perdeu muitos jogos por lesões e convocações já no fim da década. Claro, você tem todo o direito de discordar. Fale com a gente pelo Twitter: @OGlobo_Esportes.

Diego Alves

Goleiro (2017-2019)

A etiqueta de melhor pegador de pênaltis do mundo era a maior credencial de Diego Alves (2017-2019) na volta ao Brasil. Mas ele entregou algo ainda mais importante: a consistência que tanto faltou sob as traves rubro-negras. Ao longo da década, as luvas passaram pelas mãos de Felipe, Paulo Victor e Alex Muralha, sem muita (ou qualquer) firmeza. Houve altos e baixos, mas o goleiro de temperamento forte atingiu o seu melhor desempenho justamente nos épicos títulos da Libertadores e do Brasileirão.

Leonardo Moura

Lateral-direito (2005-2015)

É natural que uma relação de dez anos sofra os desgastes do tempo. Quando Leonardo Moura (2005-2015) se despediu, em março de 2015, boa parte da torcida já queria dispensar o lateral-direito que, aos 36 anos, não chegava à linha de fundo como outrora. Mas foi trabalhador, confiável e deixou marcas que não se apagam: foram 519 partidas do sétimo jogador que mais vestiu rubro-negro na história. Só nesta década, seu currículo inclui uma Copa do Brasil (2013) e dois Cariocas (2011 e 2014).

Rodrigo Caio se reergueu no Flamengo após deixar o São Paulo em baixa Foto: Marcelo Theobald
Rodrigo Caio se reergueu no Flamengo após deixar o São Paulo em baixa Foto: Marcelo Theobald

Rodrigo Caio

Zagueiro (2019)

Não cabem nos dedos de uma mão as vezes em que Rodrigo Caio (2019) precisou ser atendido por um corte, fratura ou choque de cabeça ao longo da temporada — o que certifica sua lealdade como zagueiro. Mas Rodrigo Caio foi muito mais que fair play. Descartado do São Paulo, encontrou em Jorge Jesus o mentor correspondente às suas vocações europeias. É o único integrante da defesa campeã do Brasil e da América desde o início do ano. Na competição com Réver e Wallace, atropelou.

Pablo Marí

Zagueiro (2019)

O Instagram de Pablo Marí (2019) tinha apenas 7 mil seguidores quando seu nome entrou no radar do Flamengo. Afinal, quem era aquele zagueiro de 26 anos cuja carreira fora construída em equipes da Segunda Divisão da Espanha? Jorge Jesus e o scout do Flamengo sabiam bem. E não demorou para que Marí impressionasse com sua antecipação e sua força no jogo aéreo. Em cinco meses, ganhou o Brasileirão, a Libertadores (foi o primeiro espanhol a fazê-lo) — e 1 milhão de seguidores no Instagram.

Filipe Luís

Lateral-esquerdo (2019)

A concorrência não era das mais fortes na lateral esquerda rubro-negra: nos últimos dez anos, viram-se Júnior César, Anderson Pico, André Santos, Renê e Trauco. Só Jorge ganhou o favor amplo da torcida. Mas os méritos de Filipe Luís (2019) não são poucos, como sugerem suas trajetórias no Atlético de Madrid e na seleção. Última adesão do supertime de 2019, Filipe jogou pouco, mas deu ao Flamengo um toque extra de sofisticação na armação de jogo. Se o físico não é o mesmo, a técnica compensou.

Elias conquistou a Copa do Brasil de 2013 no Flamengo Foto: Cezar Loureiro
Elias conquistou a Copa do Brasil de 2013 no Flamengo Foto: Cezar Loureiro

Elias

Meio-campista (2013)

Num passado não muito distante, o meio-campo do Flamengo era um deserto de ideias e Elias (2013), o oásis com nome de profeta. Onipresente, era capaz de desarmar, conduzir a transição ofensiva e infiltrar na área. Um de seus gols entrou para a história, contra o Cruzeiro, na Copa do Brasil de 2013. De quebra, ainda viu o Maracanã gritar o nome de seu filho, que estava no hospital. Em um ano, deu soluções que Willian Arão demorou a encontrar, e deixou um amor que desbanca Cuéllar e Renato Abreu.

Diego

Meio-campista (2016-2019)

Diego (2016-2019) desembarcou no Rio nos braços da torcida. A lua de mel, porém, ficou para trás à medida em que o Flamengo acumulava fracassos em campo. Capitão e liderança técnica, o meia que gerava expectativas altas se tornou o rosto das frustrações. Mas nenhum técnico o desprezou. Quando uma lesão ameaçou o seu ano, o camisa 10 mostrou seu valor: dedicou-se à fisioterapia e voltou a tempo de levantar as taças da Libertadores — com atuação decisiva na final —  e do Brasileirão.

Everton Ribeiro

Meio-campista (2017-2019)

A discrição definitivamente não é um atributo correlato ao rubro-negrismo. Talvez por isso Everton Ribeiro (2017-2019) não seja tratado como a excepcionalidade que é: o jogador do Fla que por mais tempo atuou em alto nível na década. O colunista do GLOBO Carlos Eduardo Mansur, porém, o descreveu acertadamente como uma “fábrica de soluções”. Vencedor de longa data, o miteiro já conquistou, em rubro-negro, uma Libertadores, um Brasileirão e um Carioca. Nunca como coadjuvante.

Bruno Henrique formou a melhor dupla de ataque de 2019 ao lado de Gabigol Foto: CARL DE SOUZA / AFP
Bruno Henrique formou a melhor dupla de ataque de 2019 ao lado de Gabigol Foto: CARL DE SOUZA / AFP

Bruno Henrique

Atacante (2019)

Balançar a rede dos rivais é um atalho para a idolatria, e Bruno Henrique (2019) seguiu esse caminho desenfreadamente. Da estreia com dois gols na virada sobre o Botafogo, foram 11 marcados pelo Rei dos Clássicos em 13 partidas contra o alvinegro, o Fluminense e o Vasco. E o mineiro que completa 28 anos no próximo dia 30 tem outra etiqueta da qual se orgulhar: foi o jogador mais decisivo do ano, desatador de nós na Libertadores e no Brasileirão e o criador do mote outro patamar.

Gabigol

Atacante (2019)

Ontem, hoje, amanhã. No Flamengo, a impressão é a de que todo dia haverá gol do Gabigol (2019): foram 43 na temporada, mais do qualquer outro em um único ano na Gávea no século. Gabriel Barbosa também foi o artilheiro do Brasileirão (25 gols) e da Libertadores (9). E ainda tem a seu favor uma intangível capacidade de identificação, do Gabigolzinho ou Gabigordo, passando por 40 milhões de rubro-negros. Além disso, os dois gols na final contra o River garantem seu lugar privilegiado na história.

Hernane Brocador

Atacante (2012-2014)

Em nenhum par ou ímpar, Hernane (2012-2014) seria escolhido antes de Ronaldinho Gaúcho ou Arrascaeta. Mas, durante o inacreditável 2013 do Flamengo, foi o jogador mais encantado do mundo. Centroavante empurrador, de pouca técnica, foi o maior artilheiro do país em 2013 (36 gols, contra 18 de Arrascaeta no ano de 2019), quando ganhou a Copa do Brasil. A magia brocadora se foi, mas a história de uma década também é feita pelas pessoas comuns. Aquele Hernane representa todas elas.

Jorge Jesus

Técnico (2019)

Deus escreve certo por linhas tortas. E foi assim que colocou Jorge Jesus (2019) no caminho do Flamengo, após a saída de Abel Braga no meio do ano. As taças da Libertadores e do Brasileirão seriam suficientes para justificá-lo nesta lista, mas o português fez muito mais em apenas cinco meses: ofereceu o melhor futebol jogado no país na década e triturou velhas convicções. Num clube que sempre ejetou técnicos, é simbólico que o Maracanã tenha se unido num “olê, olê, olê, olê, Mistêr, Mistêr ”.

Outros jogadores importantes

Rafinha (lateral-direito), Jorge (lateral-esquerdo), Cuéllar (volante), Willian Arão (meia), Renato Abreu (meia), Gerson (meia), Lucas Paquetá (meia), De Arrascaeta (meia), Everton (atacante) e Vinicius Junior (atacante).