Com diplomacia, Klopp revela o peso do Mundial para o Liverpool

DOHA — O futebol repete uma curiosa rotina que cerca a chegada de uma grande personalidade a um determinado ambiente. Em especial, se este ambiente estiver cheio de personagens que se julgam inferiores ao visitante em dada atividade, que enxerguem estar diante de uma sumidade. Toda a audiência passa a buscar nele uma chancela para si própria.

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Foi assim com o Liverpool e, em particular, com Jürgen Klopp no Qatar. A terça-feira marcou a primeira aparição pública e oficial do time que é a grande estrela do Mundial de Clubes. Na ordem internacional do futebol atual, é como se houvesse dois mundos: um mais terreno, acessível a quase todos, em que competem os não europeus; o outro, o mundo dos superclubes do Velho Continente, quase extraterrestres com os quais se busca um mínimo de contato para satisfazer curiosidade, idolatria e outros tipos de sentimentos. No fim das contas, vencê-los é um sonho que muitos consideram quase inatingível. Por vezes, obter uma impressão sobre o seu país, sobre o seu futebol, sobre a sua cultura, já parece uma deferência, uma realização.

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Klopp viveu um pouco disso em sua entrevista coletiva, obrigado a se mostrar respeitoso com o futebol jogado em centros que, obviamente, não despertam sua atenção. E nem por desprezo, mas porque são assuntos absolutamente alheios a uma rotina que já lhe toma todo o tempo disponível.

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Primeiro, um jornalista árabe perguntou sobre o futebol local.

— Não pensamos muito no futebol árabe lá na Europa, para dizer a verdade. Mas veja o Al Sadd, dirigido por Xavi. Eles mostraram que estavam prontos — comentou Klopp.

Em seguida, o tema proposto foi o Flamengo e seu investimento e seu jogo considerado mais moderno do que o praticado no Brasil.

— Não pensei no Flamengo, ainda. Só no Monterrey. Veremos a semifinal, são dois times com potencial de serem finalistas e é normal que sejam — afirmou, acrescentando mais adianta. — O único time que não vi é o Flamengo.

Para os padrões europeus, Klopp e o Liverpool vêm de uma maratona de jogos e de adversários a estudar. Se não há tanto a falar sobre os times, outra alternativa é fazer com que o europeu atribua ao torneio o valor que os outros continentes dão. Uma forma, claro, de chancelar o torneio. E o alemão foi claro, evidenciando o quanto no Brasil se oscila entre extremos: o Mundial não é o primeiro torneio em importância, uma obsessão para o Liverpool; tampouco é verdade que os europeus cheguem para jogar um amistoso.

— Se você me perguntasse há algum tempo sobre jogar um Mundial no meio da temporada, eu honestamente diria "não". Mas esta, agora, é a competição mais importante do mundo para nós porque estamos aqui. Não se viaja esta distância toda para não tentar exibir seu melhor — afirmou Klopp, que  foi perguntado se a torcida inglesa vê este torneio com interesse. — Não sei, estamos aqui.

Curioso é que, para a imprensa inglesa, presente em pequeno número, parte da entrevista disse respeito ao jogo que o Liverpool faz nesta terça-feira, com um time sub-23, pela Copa da Liga inglesa. Klopp verá a semifinal do Mundial e, em seguida, mudará de canal para ver os jovens de seu clube.

— O bom é que teremos algumas horas livres amanhã pela manhã e poderemos ver o jogo — disse o meia James Milner, já que o jogo contra o Aston Villa começa às 22h45m no horário do Qatar.

O fato é que há uma reputação de superclube global a defender sempre que o Liverpool entra em campo. O que torna qualquer compromisso, por mais inconveniente que pareça no calendário, uma obrigação a ser tratada com responsabilidade. Um grande desastre num torneio global é pouco saudável até para as pretensões comerciais de quem arrecada R$ 2,5 bilhões ao ano. E representa o continente que se afirmou como centro do futebol.

Tanto que o Liverpool viajou com todos os seus jogadores, como ano após ano fazem os europeus. Contra o Monterrey, Klopp terá o zagueiro Virgil Van Dijk, que se machucou no jogo com o Watford, pelo Campeonato Inglês. Mas se o melhor defensor do mundo estará em campo, o mesmo não se pode dizer de outro holandês, o meia Wijnaldum, que foi vetado e é dúvida também para uma eventual final, caso os ingleses avancem.

Fonte: O Globo