Se tem uma coisa que o torcedor do Flamengo não quer hoje é discutir tática. A eliminação para o Al Hilal na semifinal do Mundial, um dos maiores vexames da história rubro-negra, seria simples de se explicar se nos apegássemos aos 90 minutos: erros individuais em campo e substituições a explicariam. Mas, se fizermos uma panorama geral, a conta do revés tem de ser dividida em três partes: diretoria, jogadores e treinador.
Diretoria: mudança abrupta custa caro
O discurso de "falta de tempo" utilizado em comum por Vítor Pereira e atletas para justificar tropeços mostra que a direção fez aposta arriscada ao mudar o comando técnico na virada do ano. Independentemente se VP terminará o ano com títulos de peso e o Flamengo jogando futebol insinuante ou não, a ousadia custou caro. O comando do clube errou.
David Luiz e Gabigol lamentam eliminação do Flamengo no Mundial — Foto: REUTERS/Andrew Boyers
Uma das principais lideranças do grupo, Gabigol, mesmo apoiando Vítor Pereira após a eliminação, foi enfático ao dizer que um início de trabalho obviamente necessita de adaptação.
- A responsabilidade é dividida, não é só dele. Tem todos os jogadores, a diretoria e o staff. Claro, como já falei milhares de vezes, que tem influência. É um trabalho novo, com pouco tempo, e é claro que tem influência. Não podemos usar isso como muleta, mas temos que melhorar - afirmou Gabigol após a derrota.
É verdade que o time caiu no fim da última temporada, teve atuações abaixo da média nas decisões da Copa do Brasil e da Libertadores, mas apresentou queda física também.
O Flamengo alega que Dorival Júnior pediu alto e viu em Vítor uma oportunidade de mercado interessante. A questão não é a escolha por VP, mas a mudança abrupta de filosofia que cobrava rápida adaptação de todos, como Gabigol, Filipe Luís e outros atletas já falaram.
Jogadores
Ainda sem química em campo com pouco mais de um mês sob orientação de VP, os jogadores pouco criaram enquanto o jogo estava em 11 contra 11. A verdade é que no primeiro tempo o Flamengo só levou perigo duas vezes, ambas com Pedro. Numa cabeçada e no gol. Insuficiente para um elenco poderoso.
Jogadores do Flamengo lamentam eliminação no Mundial — Foto: REUTERS/Andrew Boyers
Mais graves do que a falta de repertório, porém, foram os erros individuais. O Hilal tem méritos. Cuéllar, Marega, Al-Dawsari e Vietto, por exemplo, são bons exemplos de atletas que jogaram em alto nível. Todos os gols dos árabes, porém, nasceram de graves erros individuais.
O primeiro fica na conta de Matheuzinho. É verdade que Ayrton poderia ter espanado a bola antes, e Santos ter abafado a bola, mas o pênalti cometido pelo lateral foi muito infantil.
O segundo - e golpe mais grave - é de autoria de Gerson, que até agora não entregou no retorno ao Flamengo .
Já estava pendurado na partida ao simular um pênalti na área adversária que lhe custou um exagerado cartão amarelo. Mas, mesmo com o excesso de rigor do árbitro romeno, o agora experiente meio-campista sabe que não poderia chegar por trás em Vietto. Acabou expulso no fim do primeiro tempo e prejudicou o time.
Gerson foi expulso no fim do primeiro tempo — Foto: Reuters
Embora pouco agredisse, o Flamengo controlava o jogo no 11 contra 11 e, ainda que faltassem combinações, a virada parecia factível às vésperas do intervalo. Não aconteceu.
Vítor Pereira
Com 2 a 1 para os árabes, o treinador voltou para o segundo tempo com uma mudança tática: Erick Pulgar substituiu Arrascaeta. Não deu certo. Leo Pereira, machucado, deu lugar também a Fabricio Bruno.
Vitor Pereira tratou a mexida como algo que lhe "custou muito". Não queria tirar um de seus grandes craques, mas tinha de escolher um entre os meias e, como Everton Ribeiro ajuda mais defensivamente, o uruguaio sobrou.
Arrasca não sobrava em intensidade, mas, mesmo ainda longe de seu melhor no aspecto físico, fazia das suas. O primeiro gol de Pedro nasce de uma jogada em que o camisa 14 tira quatro marcadores com rápida movimentação e toque para Everton Ribeiro.
Flamengo x Al Hilal semi Mundial Arrascaeta Al-Bulayhi — Foto: Reuters
Pulgar não entrou bem. Até começou encontrando soluções com toques de primeira para curtos espaços, mas logo passou a cometer erros simples, um deles seria definitivo.
Pois bem, antes do gol da pá de cal, Vitor Pereira acabou com a criatividade do meio-campo. Aos 23, trocou Everton Ribeiro por Cebolinha. Aos 24, Vietto praticamente sepultou as chances de reação em mais um grave erro individual, desta vez de Pulgar.
O Flamengo desanimou, foi colocado na roda e teve de ouvir os gritos de "olé" da torcida saudita. Não encontrou forças para reagir. Perdeu penetração, o meio-campo e o tesão. No fim, um gol de sorte marcado por Pedro deu uma ponta de esperança, mas não passou de um suspiro.
Vítor não ousou um tudo ou nada em nenhum momento, e o time não conseguiu se contagiar mesmo com os insistentes pedidos de "Vamos virar, Mengô", gritados pela maioria dos 42.496 pagantes.
Um Flamengo que sonhava com o topo do mundo pela segunda vez agora se vê pressionado de novo, como no ano passado. O Mundial parecia factível e possivelmente tiraria a responsabilidade dos rubro-negros pelo menos em relação ao primeiro semestre.
A nova derrota traz repetidas lições e reforça dúvidas: o Flamengo terá pulso firme para manter Vítor Pereira em caso de novos insucessos ou possíveis fracassos podem ameaçar o português?
A resposta cabe à diretoria, e os títulos de peso agora só serão disputados no fim do ano. Incertezas e reflexões necessárias martelarão a cabeça do comando rubro-negro depois de uma terça-feira a esquecer para sempre.
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