O excelente treinador Jorge Sampaoli, seguidor de outro gigante, Loco Bielsa, chega ao Flamengo num astral, se não bom, favorável. "Ganhou" a estreia do Brasileiro, vai "estrear" no Maracanã na Libertadores diante de um time bem fraco e acessível, e na Copa do Brasil, se está numa situação incômoda, não seria surpresa se vencesse o Maringá no Rio por 3 a 0 - tipo como fez contra o Coritiba, ainda sem o argentino no banco. Além disso, assume um grupo galáctico que, como nunca antes, é visto com impaciência por parte da torcida e da mídia, que começam a se cansar de culpar treinadores bons (dos que conquistaram, como Dorival Júnior e Rogério, aos estrangeiros que foram iludidos e engolidos pelo caos da má gestão do futebol rubro-negro, como Vítor Pereira, Paulo Souza e Domenec Torrent) pelos fracassos no médio prazo. Resumindo: Sampaoli chega forte. Mas que não se iluda - como os antecessores: tem apenas uma bala de prata para acabar com o lobisomem que o ameaça (também conhecido como demissão). Ou acerta agora, quando tem o campo de visão livre e o alvo na mira, ou vai engrossar a fila das rescisões milionárias.
Explico a bala de prata, onde ela deve ser atirada e qual o resultado:
Sampaoli chega como aquele presidente eleito por ampla maioria, que precisa muitas vezes tomar medidas duras e/ou impopulares, mas que se as toma assim que chega, com respaldo dos números das urnas, terá mais chance de implementá-las do que de mãos dadas com o desgaste e a pressão que não tardam a chegar - ou, no caso da política, refém das chantagens dos "aliados". O argentino precisa, pra ontem, implementar seu estilo, seja ele qual for: se tiver de barrar, barre agora; se tiver de revezar, rodar o elenco, ou alternar esquemas, precisa criar essa cultura em seu primeiro mês no Ninho.
O melhor cenário para que ele implemente seus conceitos para valer - ou no qual a bala de prata tem mais chances de atingir o alvo em cheio - é repetir Jorge Jesus. Não no jogo, porque isso será impossível com um elenco quatro anos mais velho, por mais que as ideias do argentino e do português tenham um ponto de interseção aqui, outro ali. Não. Sampaoli deve engatilhar sua bala de prata pegando a chave do Ninho do Urubu e trancando-o. Ninguém fora jogadores e comissão entra. Nada de Braz, Spindel, organizadas, redes sociais, influenciadores, X-9s. A rota da concentração só tem o caminho de saída: quem não concordar com o treinador, rua... Exatamente como fez Jorge Jesus assim que chegou em 2019.
Fazer tudo isso, mesmo para "locos" como Sampaoli, não é fácil. Como bala de prata só tem uma, ela só vai funcionar se o treinador conseguir resultados imediatos. As quatro taças que o Flamengo perdeu em três meses ratificaram essa regra. Mas não é só no caótico futebol rubro-negro. Jorge Jesus perdeu de cara a Copa do Brasil 2019, tomou 3 a 0 do Bahia no Brasileiro, e perdeu a ida nas oitavas da Libertadores. Venceu na volta, nos pênaltis, na bacia das almas, mas se perdesse talvez fosse enxotado do Flamengo como foi Vitor Pereira. Mesmo o impressionante Abel Ferreira não chegaria onde chegou se logo de cara não tivesse conquistado Copa do Brasil e Libertadores para o Palmeiras.
Sampaoli, além de ser o síndico do Ninho, não pode cair na tentação de pensar em paciência, projeto, adaptação... A fórmula, no Flamengo de hoje, é: decida o que quer, faça o que for necessário para chegar lá, e vença. Ou caia. Eu não gosto, não concordo, tenho dificuldade de entender. Mas é simples assim...