Acima do peso e quase nove meses sem jogar, João Paulo entrou na chácara do Olé Brasil, no Recreio Internacional, em Ribeirão Preto, procurando Fernando Diniz. Naquele momento, ninguém imaginava, mas ele acabara se de se tornar o primeiro jogador a ser comandado pelo jovem técnico e a fazer parte do que hoje todos conhecem como "Dinizismo".

Isso foi em 2009, quando saia de cena um meio-campista limitado, apesar de passagem por grandes equipes, e iniciava a trajetória de Fernando Diniz, então aos 34 anos, como treinador.

Se hoje ele está a dois jogos pelo Fluminense - começando neste sábado (1º), às 20h30, no Maracanã, contra o Flamengo - de conquistar o título do Campeonato Carioca , 14 anos atrás o nome dele animou um grupo de empresários de Ribeirão Preto para um novo projeto.

"Na época, esse grupo adquiriu o Votoraty, de Votorantim [interior de São Paulo], que disputava a Série A3 do Campeonato Paulista [terceiro nível do Estado]. A gente tinha 14 dias para montar um time para jogar a primeira rodada. Mas tudo passava primeiro pela escolha do treinador", disse Beto Rappa, hoje empresário de jogadores e naquele época diretor de futebol do clube.

Rappa tinha 29 anos e também estava iniciando uma trajetória no futebol, embora tivesse trabalhado antes no Paulista de Jundiaí, onde conheceu Diniz ainda em atividade como jogador.

"Quando jogava, ele já estudava, já se preparava e a gente via que ele tinha perfil para virar um grande treinador. Quando me perguntaram no Votoraty qual era a minha indicação para técnico, eu falei o único nome em mente: Fernando Diniz. Aí o Edu Zanello [ex-jogador e então dono do clube] respondeu: 'Então, vai ser ele porque a gente perguntou a mesma coisa para o Vagner Mancini [técnico do Paulista] e ele também indicou o Diniz'. Já está decidido", disse Rappa.

Diniz chegou confiante e com exigências para comandar o Votoraty.

"As pessoas acostumadas com a Série A3 diziam que o ideal era buscar jogador acostumado com a mesma divisão. Mas, conversando com o Diniz, ele falava 'Não, eu quero jogador bom. Não interessa se é da Bezinha [quarto nível do Estado], se está com problema, se está muito tempo sem jogar ou fora de forma, quero jogador bom'. Essa é a base do trabalho dele. Ele sempre acredita que ele vai melhorar a pessoa e, se essa pessoa for um bom jogador, sucesso", disse Rappa.

O zagueiro João Paulo atendia esses critérios. Aos 25 anos, apesar do tempo longo parado, tinha a experiência de ter jogado a Série A2 do Paulista pelo Mirassol, a Série B do Brasileiro pelo Grêmio Prudente e depois o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil pelo Guarani.

"Ele chegou muito fora de forma [risos]. Tinha aquela expectativa que ia chegar o primeiro jogador do nosso time, aí a hora o João Paulo entrou, o Mauricinho, que jogou no Vasco e era o presidente do Votoraty, falou: 'Beto, tem um cara aí fora falando que é jogador, mas acho que ele não é não'. Aí eu fui lá ver e falei: 'Não, é ele mesmo, ele vai dar conta'", disse Rappa.

Já o atacante Neizinho fazia parte do grupo que estava desempregado após deixar o Joinville ainda em 2008. Ele também foi um dos primeiros a integrar o elenco do Votoraty.

"Um amigo falou com o Diniz e me apresentou para ele. Lembro que ele me perguntou como eu jogava: 'Você é meia? Você faz gol?'. Eu respondi que não era muito de fazer gol. Então, ele falou: 'Ah, se não é de fazer gol, então aqui você vai trabalhar para fazer gol'", disse Neizinho.

O elenco também tinha nomes que traziam na bagagem problemas extracampo, como vícios.

"Quando o grupo pegou mais intimidade, alguns jogadores falaram que estavam no mundo das drogas e que saíram por conta do ambiente que encontraram aqui. Também havia muitos jovens sem perspectiva de jogar e que reencontraram a motivação e viraram boas pessoas", disse Rappa.

A mistura acabou virando brincadeira dentro do Votoraty. "Uns chamavam de spa. Outros de hospício. [risos] Mas realmente era um centro de reabilitação de pessoas e jogadores, mas principalmente de pessoas que é a linha que o Fernando Diniz acredita”, acrescentou Rappa.

Roda-gigante

Se Diniz já havia surpreendido pela exigência, pela filosofia de trabalho ao escolher jogadores e pela abordagem direta, os treinos dele acabaram sendo algo ainda mais excêntrico.

"Era cobrança toda hora. Aquele negócio de toque. É tudo treinado. Não tem nada que ele viu em videogame e começou a repetir. Ele ficava e cima dos jogadores. 'Bora, bora, bora! Vamo'. E xinga. Ele colocava muitos quadrados. Quatro ali, cinco ali. Aí colocava aqueles golzinhos. A gente tinha que fazer as tabelinhas. Era obrigado a sair. Aí ele cobrava. 'Corre, toca'", disse Neizinho.

"A gente falava que era uma roda-gigante porque uma hora o zagueiro estava cruzando para o outro zagueiro, enquanto o centroavante estava na área defendendo. Os jogadores iam girando [de posição]. E tinha um treino que ele realmente fazia a roda-gigante para todo mundo pegar na bola e em todos os espaços em campo", relembrou Rappa.

"'Que bagunça é essa?' Quem estava vendo achava que era uma bagunça. Você rodava de posição. Eu vinha buscar bolar [na defesa] e fazia ela rodar. Aí falavam: 'Como esse pequenininho tá na zaga?' Mas não era uma bagunça. Era tudo organizado”, disse Neizinho.

"Era uma novidade pra mim, para os jogadores e até pra o Diniz. Talvez o salão tenha influenciado bastante a forma de ele jogar. Ele sempre fala em fazer um futebol bonito. Fazia treinos longos, de muita repetição, muito conteúdo. Eu lembro que ele falava que a maioria dos treinos dele ele bolava no banho. Tomava banho e pensava o que ele podia fazer de diferente no jogo", disse Rappa.

"Na preleção ele sempre perguntava para alguém o achou do jogo. Uma vez ele perguntou: 'Neizinho, a gente joga igual a quem?'. Aquela era a época do tiki-taka do Barcelona. Aí eu falei: 'Ah, Diniz, eu acho que a gente joga igual ao Barcelona'. Ele arregalou os olhos: 'O quê??? A gente joga igual ao Barcelona? Os caras se movimentam igual nós?'. Eu quis dizer que o toque era parecido. Ele: 'A gente joga diferente. Nosso time é diferente'. Realmente era", disse.

Disciplinador

Os que achavam que Fernando Diniz era um maluco no futebol se enganaram porque o Votoraty surpreendeu. Se no início da A3 a diretoria pensava apenas em evitar o rebaixamento, ao final da primeira fase, com a equipe na liderança com 39 pontos e 40 gols, já pensava em acesso.

"Essa mentalidade de ganhar o Fernando Diniz coloca desde sempre. A estrutura dada pelos patrocinadores foi uma bola estrutura. Pagava pouco, mas pagava em dia. A gente viu o time encantar, e quando o desempenho vem o resultado vem atrás. Foi questão de tempo", disse Rappa.

O Votoraty também se saiu bem na segunda fase (os oito melhores times divididos em dois quadrangulares), somando 10 pontos e marcando oito gols. Na final, decidiu o título com o Grêmio Osasco. Perdeu o primeiro jogo por 1 a 0, mas venceu em Votorantim, no quase centenário estádio Domenico Paolo Metidieri, por 2 a 0 e foi campeão. O primeiro título de Diniz como técnico.

Além do estilo de jogo e do método de trabalho, ficaram nas lembranças de quem fez parte daquele momento o estilo disciplinador de Fernando Diniz.

"Teve um jogo que, na saída do intervalo, um jogador nosso cuspiu em um adversário. Ele estava jogando muito, tinha feito um gol. O estádio tava cheio e era um jogo importante. Na hora que ele cuspiu, teve aquela confusão, os adversários querendo bater nele e foi todo mundo para o vestiário. Aí o Diniz falou: 'Você cuspiu no cara? Então, você está fora. Acabou'. Por quê ele fez isso? Para fazer a coisa certa. Ele cobrava os jogadores para que eles fossem bons exemplos, bons pais, bons filhos, boas pessoas. Não era porque o cara estava bem no jogo que não ia sair após um ato de indisciplina. A torcida ficou brava, xingou o Diniz, mas ele é assim", disse Rappa.

"Um dia antes da final o Rafinha e eu saímos e chegamos tarde. O Diniz é muito verdadeiro e ele exigia ouvir de você o que aconteceu. A gente já sabia que tinha errado. Aí chegamos pro Diniz no outro dia e falamos 'Aconteceu isso, isso e isso'. Pensamos que ele ia dar uma dura, mas ele falou: 'Meu, vocês são complicados, hein? Quero que vocês ganhem o jogo pra gente. Quero gol, quero vitória'. O Rafinha fez dois gols e foi eleito o melhor jogador em campo. De uma situação que ele poderia ter até afastado a gente, ele conseguiu levantar nossa autoestima", disse Neizinho.

Chance de ouro

Depois da Série A3, Fernando Diniz conquistou outros dois títulos. Foi campeão da Copa Paulista de 2009 com o próprio Votoraty. No ano seguinte, venceu o mesmo torneio pelo Paulista.

Trabalhou em outras equipes, com destaque para o Atlético Sorocaba e o Audax, onde foi vice-campeão paulista em 2016 contra o Santos e eleito o melhor técnico do torneio.

Na época, ninguém chamava o trabalho dele de Dinizismo, algo que começou no São Paulo, em 2020. Mas, ao mesmo tempo que se desenvolveu no futebol ouvindo que fazia algo diferente, Diniz também lidou com as críticas pela falta de títulos na elite do futebol brasileiro.

O Campeonato Carioca talvez possa ser um divisor de águas para ele, muito porque enfrentará o time com o maior orçamento do Brasil e apontado como grande favorito.

Para os amigos dos tempos de Votoraty, Diniz já está na história.

"As pessoas que gostam dele vão continuar gostando se ele perder; e as pessoas que não gostam vão achar outra desculpa para não gostar. Ser vice com o Audax é muito mais difícil. Para ele, pelo jeito que ele enxerga as coisas, não vai mudar se ele for campeão ou não. Pode ser que parem um pouco as críticas, mas não acredito que será um divisor águas. A história dele está sendo escrita e escrita de uma forma bonita, e vai continuar sendo escrita independente de ser campeão", finalizou Rappa.