O procurador-geral do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), Ronaldo Piacente, participou do ESPN FC desta quarta-feira (10) para esclarecer fatos do escândalo de apostas revelado pela "Operação Penalidade Máxima II" , do MP-GO (Ministério Público do Estado de Goiás).
Piacente disse que a procuradoria e o STDJ ficaram ''perplexos'' com o esquema.
"A procuradoria e o STDJ recebem de maneira perplexa, ficamos perplexos pela forma como isso se ramificou. Tudo se inicia com os jogos não haviam transmissão. Eram jogos muito pequenos, não havia divulgação. E isso obviamente ficava mais fácil de manipular. Mas foi chegando na Série D, Série C e Série B. A agora ficamos perplexos com a questão de isso chegar na Série A. Isso realmente é preocupante. É a questão da transparência da competição'', declarou.
O procurador prometeu que a justiça será feita e que todos os envolvidos no escândalo serão devidamente punidos.
"Estamos trabalhando arduamente. Tanto que estamos fazendo esse trabalho de colaboração com o MP exatamente para se fazer justiça. É muito triste. Existe uma frase no direito. É menos gravoso você absolver um condenado do que condenar uma pessoa inocente. Mas tudo está sendo analisado. Não vai passar nada em vão. Vamos sim punir. Estamos estudando a questão da suspensão preventiva. E todos os envolvidos vão ser denunciados. E aproveito até para deixar um recado aqui aos atletas: como o Fábio Luciano disse, é um caminho errado'', lamentou.
''Estão pensando em ganhar um valor ilícito, que naquele momento pode parecer alguma coisa, mas isso pode prejudicar a carreira dele, a vida, a família. No mínimo, ele pode levar seis meses de suspensão. Ou pode chegar até a 720 dias de suspensão. Acaba com a carreira do atleta. E fora o nome dele que fica manchado. Eu peço a esses atletas que coloquem a mão na consciência. E tenham certeza que estão se prejudicando. Não tem vantagem nenhuma. Vai deixar de ganhar o reto da vida. Não faz o menor sentido. Não façam isso'', completou.
Piacente informou ainda que até o momento não há nenhum envolvido de casa de apostas no esquema.
''A procuradoria está atenta, mas a relação com a casa de apostas, a princípio, até este momento, não há nenhum envolvimento da casa de apostas. Pelo contrário. Até onde chegou ao meu conhecimento, é que eles realmente nem querem isso. Para eles, é um descrédito. Isso é muito prejudicial a eles (da casa de apostas). Por enquanto, não há envolvimento. Nem deles e nem do clube. E entendo que nem há esse interesse. Pelo que sei até agora, realmente são aquelas pessoas que vão apostar e contrataram um aliciador... e às vezes até o aliciador é quem aposta. E ele vai tentar aliciar aqueles atletas diretamente ou através de algum terceiro'', afirmou.
Por fim, o procurador descartou a possibilida de suspender o Campeonato Brasileiro ou até mesmo alterar a classificação do Brasileirão de 2022, como já tinha sido antecipado pela ESPN .
"Não há, nesse momento, nenhuma possibilidade de paralisação e anulação de partidas. Os campeonatos vão transcorrer normalmente. Os princípios que norteiam a Justiça Fesportiva, exatamente a permanência das competições. E assim vamos manter até que haja alguma prova contundente que possa pedir a paralisação. Neste momento, não há a mínima possibilidade de isso acontecer'', pontuou.
Veja abaixo quais são os jogos que estão sob investigação na Série A
Quais jogadores estão sendo investigados?
-
Eduardo Bauermann (Santos)
-
Gabriel Tota (Ypiranga-RS)
-
Victor Ramos ( Chapecoense )
-
Igor Cariús ( Sport )
-
Paulo Miranda (Náutico)
-
Fernando Neto (São Bernardo)
-
Matheus Gomes (Sergipe)
Quais jogadores também foram citados no processo?
-
Vitor Mendes ( Fluminense )
-
Richard (Cruzeiro)
-
Nino Paraíba (América-MG)
-
Dadá Belmonte (América-MG)
-
Kevin Lomonaco (Red Bull Bragantino)
-
Moraes Jr. (Juventude)
-
Nikolas Farias (Novo Hamburgo)
-
Jarro Pedroso (Inter de Santa Maria)
-
Nathan (Grêmio)
-
Pedrinho (Athletico-PR)
-
Bryan García (Athletico-PR)
Apostadores e membros da organização
-
Bruno Lopez de Moura
-
Ícaro Fernando Calixto dos Santos
-
Luís Felipe Rodrigues de Castro
-
Victor Yamasaki Fernandes
-
Zildo Peixoto Neto
-
Thiago Chambó Andrade
-
Romário Hugo dos Santos
-
William de Oliveira Souza
-
Pedro Gama dos Santos Júnior
O que a " Operação Penalidade Máxima " investiga
A investigação da " Operação Penalidade Máxima " aponta que grupos criminosos convenciam jogadores, com propostas que iam até R$ 100 mil, a cometerem lances específicos em partidas e causassem o lucro de apostadores em sites do ramo.
Um jogador cooptado, por exemplo, teria a "função" de cometer um pênalti, receber um cartão ou até mesmo colaborar para a construção do resultado da partida - normalmente uma derrota de sua equipe.
As primeiras denúncias ouvidas pela operação surgiram no fim de 2022, quando o volante Romário, então jogador do Vila Nova (GO), aceitou R$ 150 mil para cometer um pênalti contra o Sport, em partida válida pela Série B do Brasileiro.
Na ocasião, o atleta embolsou R$ 10 mil imediatamente e só ganharia o restante caso o plano funcionasse. Romário, porém, sequer foi relacionado para a partida, o que estragou a ideia.
A história chegou até Hugo Jorge Bravo, presidente do time goiano e também policial militar, que buscou provas e as entregou ao Ministério Público do estado. A partir daí, criou-se a operação "Penalidade Máxima" para investigar provas e suspeitas sobre o assunto.
Na primeira denúncia, havia a suspeita de manipulação em três jogos da Série B, mas os últimos acontecimentos levaram os investigadores a crer que o problema era de âmbito nacional e havia acontecido em campeonatos estaduais e também na primeira divisão do Brasileiro.
Além de Romário, outros sete jogadores foram denunciados pelo Ministério Público por participarem do esquema de fabricação de resultados: Joseph (Tombense), Mateusinho (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Cuiabá), Gabriel Domingos (Vila Nova), Allan Godói (Sampaio Corrêa), André Queixo (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Ituano), Ygor Catatau (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Sepahan, do Irã) e Paulo Sérgio (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Operário-PR).
Algum jogador de futebol foi preso?
Nenhum jogador preso, só pessoas envolvidas nos pedidos de manipulação. Foram três mandados de prisão em São Paulo, mas só para não atletas.
Foram apreendidas granadas de efeito moral em um mandado de prisão em São Paulo a armas de fogo em outro endereço, também em terras paulistas. Nesse local, houve também um flagrante de armas de fogo sem o devido registro.
Os atletas ou aliciadores podem ser indiciados via Estatuto do Torcedor e também podem responder por crime por lavagem de dinheiro, se for o caso. Segundo o Estatuto do Torcedor, a pena varia de 2 a 6 anos de prisão.
O que os jogadores faziam para manipular as partidas?
Os atletas e envolvidos suspeitos estão sendo investigados por manipulação da seguinte forma: receber cartões amarelo ou vermelho, cometer um pênalti, garantir uma derrota parcial no 1º tempo, número de escanteios, etc.