Ninguém saiu de mãos vazias de um Fla-Flu que tornou difícil decifrar que sabor teve o 0 a 0 para tricolores e rubro-negros. Por um lado, o Flamengo tem a celebrar uma atuação que, em especial no primeiro tempo, apaga a má impressão deixada em Salvador e restaura a sensação de um time em evolução. No entanto, se fez os melhores 45 minutos sob as ordens de Sampaoli, o time não transformou volume em chances e teve problemas para criar em mais um jogo em que o rival teve um jogador expulso.
Já o Fluminense talvez pudesse se preocupar ao se ver desconfortável como raras vezes ficou ao tentar sair de trás. A pressão rubro-negra gerou incômodos. No entanto, também é raro ver este time de Fernando Diniz se ver obrigado a passar tantos minutos resistindo, defendendo a área. E o fez com competência, a ponto de manter a igualdade na eliminatória após atuar quase o segundo tempo inteiro com dez homens. Foi um exercício defensivo bem realizado, uma exibição de dedicação.
Pirani e Wesley disputam em Fluminense x Flamengo pelas oitavas da Copa do Brasil — Foto: André Durão
Outro ponto curioso é como este clássico obriga a repensar antigas verdades absolutas. Encerrado o Estadual, marcado por um passeio tricolor na decisão, havia quase um consenso de que este elenco do Flamengo teria dificuldades para defender o estilo de jogo de Diniz, mais ainda para pressionar. Afinal, não teria vigor. O primeiro tempo desta terça-feira mostra que talvez faltasse ordem, organização para pressionar. Os rubro-negros criaram problemas mesmo com Gabigol, Arrascaeta e Everton Ribeiro em campo.
Também houve uma época em que Fernando Diniz era criticado por, supostamente, ter dificuldade para fazer suas equipes defenderem. Como se o jogo de posse fosse inimigo da competição. E um Fluminense que já perdeu Martinelli e Alexsander em sua caminhada, e durante o Fla-Flu viu Felipe Melo ser expulso, teve enormes doses de sacrifício para sustentar o placar. André e Ganso se destacaram, este último com muitas tarefas defensivas.
Por fim, costuma ser motivo de piada a constatação de que há partidas que podem se tornar mais duras quando se tem um jogador a mais em campo. Claro que o Flamengo tem um dever de casa a fazer após criar poucas oportunidades claras após o cartão vermelho de Felipe Melo. Mas é fato que uma expulsão muda estratégias, intenções. O Fluminense passou a arriscar menos com bola, dedicou-se prioritariamente a proteger a área, defender o gol de Fábio com muitos homens.
Uma das tarefas mais difíceis no futebol é criar chances em espaço reduzido, num jogo que confina jogadores em poucos metros ao redor da área. E este Flamengo de Sampaoli ainda é um time que tenta desenvolver seus mecanismos ofensivos, é um trabalho que tem um mês. O jogo ficou, sim, mais difícil no 11 x 10. Ainda que soe paradoxal.
O Flamengo teve ótimos 30 minutos a partir de uma pressão que tentava anular a capacidade do Fluminense de acumular jogadores em um lado do campo para trocar passes. O time era agressivo e se movia lateralmente para o setor da bola. Além disso, era claramente um Flamengo programado para atacar as costas da linha defensiva tricolor. Quando o rubro-negro atraía o Fluminense para marcar sua saída de bola, imediatamente Santos ou um zagueiro buscava um passe longo. Wesley teve duas boas chances, e Gabigol acertou a trave num lance assim.
É raro ver uma pressão desestruturar tanto o Fluminense. Ainda assim, o primeiro tempo já termina com um ar de igualdade restaurada. Primeiro, os tricolores buscam inversões de jogo para responder à forma de pressionar do Flamengo. Depois, Pirani, que para combater Wesley chegara a virar um quinto homem na linha de defesa de Diniz, passa a se mover às costas da pressão do Flamengo. E, neste aspecto, há fatores positivos para o tricolor se apegar. O jogo se tornou um teste de crença em suas convicções e, de certo modo, foi com suas ferramentas habituais que o time foi se assentando no jogo. Ainda que a sensação de que não é simples substituir com a mesma qualidade os titulares ausentes no meio-campo tenha sido reforçada.
Acima de tudo, era um Fla-Flu de treinadores valentes. Sampaoli, por apostar no risco de pressionar um time que sai jogando tão bem quanto o Fluminense de Diniz. Este último, por dobrar a aposta em suas ideias e desafogar o jogo.
O início do segundo tempo, antes de a expulsão de Felipe Melo condicionar a partida, tinha uma tentativa tricolor de ficar com a bola. Até Arrascaeta achar mais um passe longo para Gabigol sofrer a falta. O cartão vermelho foi justo, mas também é fato que o Flamengo cometeu 14 faltas no primeiro tempo sem ser punido. Sempre que sua pressão era batida, a falta interrompia a saída de jogo do Fluminense.
Com bola, era um Flamengo que tentava finalizar rapidamente os ataques. Quando não acontecia, via o Fluminense defender bem atrás. Neste cenário, Sampaoli fazia Fabrício Bruno e Léo Pereira iniciarem as jogadas, com o ótimo Pulgar e Thiago Maia mais à frente. Éverton Ribeiro, Arrascaeta e Gérson formavam um trio de meias por trás de Gabigol, num desenho bem ofensivo em que Wesley abria campo na direita e Ayrton na esquerda. Embora, neste setor, houvesse grandes variações com Gérson ou até Arrascaeta buscando o setor lateral.
O desenho foi mantido no segundo tempo, mas a boa defesa da área do Fluminense expôs uma dificuldade que o rubro-negro já exibira em outros jogos. No dia 1º de julho, o reencontro será como uma continuação do primeiro jogo. Diniz, até lá, pensará em como lidar com a tentativa de pressão do Flamengo. Sampaoli, por sua vez, irá tratar de repetir o volume e adicionar contundência.