Um bom argumento contra a ideia que campeonatos por pontos corridos não têm final é o conceito de jogos-chave.
O ex-técnico Muricy Ramalho, tricampeão brasileiro com o São Paulo , defensor da tese, costuma dizer que alguns confrontos dentro de uma campanha funcionam como decisões. Seja pela importância na pontuação, para afirmação da confiança ou desmoralização de um rival direto.
Na campanha do Flamengo campeão brasileiro de 2019, existiram partidas que ajudam a explicar a conquista. Mas não é só dentro do campo que um título se constrói.
Chegadas, partidas, dispensas e contusões muitas vezes são pontos de virada ao longo de um torneio. E, claro, acontecimentos de campeonatos disputados concomitantemente ao Brasileiro também influenciam o ritmo do time em cada rodada.
Veja quais foram os sete momentos-chave do Rubro-negro na conquista do Campeonato Brasileiro:
1 - A queda de Abel Braga
Mesmo com a vitória de virada sobre o Athletico-PR, por 3 a 2, o Maracanã não poupou Abel Braga, em 26 de maio. Faltavam ainda quatro jogos para a pausa da Copa América e o Flamengo penava para engrenar, enquanto o líder Palmeiras nadava de braçada.
A torcida não se conformava com o esquema e o futebol burocático da equipe que tinha a possibilidade de ter em campo Arrascaeta, Diego, Bruno Henrique, Gabigol e Everton Ribeiro e, mesmo assim, não demonstrava bom futebol. Pressionado e ciente de que a diretoria conversava em paralelo com Jorge Jesus, o técnico Abel Braga pediu demissão quatro dias depois, no dia 29.
2 - A(s) estreia(s) de Jorge Jesus e a contusão de Diego
A contratação de Jorge Jesus foi anunciada pelo Flamengo em 1º de junho, dois dias depois da saída de Abel - o que evidencia que de fato a negociação com o português já vinha acontecendo.
A chegada durante a pausa também permitia ao português aclimatar-se melhor ao novo país e ao novo emprego, enquanto a seleção brasileira jogava o Sul-Americano.
Jesus estreou quatro vezes pelo clube: no amistoso contra o Madureira, na Copa do Brasil, no Brasileiro e na Libertadores.
A primeiríssima partida foi no CT do clube. No dia em que o Brasil conheceu o estilo frenético do técnico e o famoso meme "Tá mal, Arão!".
Na Copa do Brasil, no primeiro jogo pra valer, veio um empate com o Athletico-PR em Curitiba, em 1 a 1. Pelo Brasileiro, um novo 1 a 1, com o Corinthians, fora de casa, veio na sequência. Mas a estreia que deu mesmo o cartão de visitas do técnico foi pela Libertadores.
O Fla perdera por 2 a 0 do Emelec no Equador e precisava de um placar igual para levar o jogo para os pênaltis. Conseguiu e venceu na disputa, o que encheu a equipe de moral e iniciou o caso de amor do técnico com a torcida.
Nessa partida, Diego se lesionou, abrindo caminho para Jesus montar com Arão, Gerson e Arrascaeta, seu trio de meio-campo que viria a ser um dos pontos altos do time.
3 - A derrota para o Bahia
Naquela tarde quente de Salvador, em 4 de agosto, o Flamengo foi engolido pelo Bahia de Roger Machado. O 3 a 0 contra poderia ter sido um placar ainda maior.
Naquele dia, Jesus ligou um sinal de alerta: o time precisava de mais compactação, para evitar contra-ataques que expusessem seus laterais, como aconteceu com o estreante Filipe Luis. Mas também iniciou-se ali a série invicta que levaria o time à conquista - e que ainda não se encerrou.
4 - O 3 a 0 sobre o Palmeiras
A vitória sobre o Palmeiras, e 1º de setembro, foi a primeira das finais que o time teve no Brasileiro. E foi vencida com mérito.
Os dois de Gabigol, com Arrascaeta completando a trinca, foram simbólicos. O atual campeão brasileiro e líder por muito tempo da competição, com larga vantagem, passava ali o bastão para a equipe carioca.
Se para o Palmeiras, que já ficava ali seis pontos atrás do Fla, o resultado trouxe revolução - Felipão caiu depois desse jogo -, para o Flamengo foi o jogo da consolidação.
5 - As goleadas sobre Grêmio e Corinthians
O Flamengo da Libertadores se alimentava do sucesso do time no Brasileiro e vice-versa. Num intervalo de dez dias, o time da Gávea eliminou o Grêmio de Renato Gaúcho com um desmoralizante 5 a 0, no Maracanã, e goleou o Corinthians por 4 a 1, também no seu estádio.
Se o 3 a 0 no Palmeiras despachara o seu principal rival da disputa no Nacional, os 5 a 0 sobre o Grêmio demonstravam que, no Continental, também seria muito difícil segurar a equipe. Mais do que isso: carimbava, de vez, o time de Jesus como o melhor do país.
A goleada sobre o Corinthians, que derrubou Fabio Carille, foi só para mostrar ao outro time que dividira a hegemônia no Brasileiro com os alviverdes nos últimos quatro anos - duas conqusitas para cada - que o domínio paulista chegara ao fim.
6 - O empate contra o maior rival
Em jogo adiantado da 34ª rodada, Flamengo e Vasco fizeram um duelo de grande nível, com os ingredientes que só os grandes rivais têm, em 13 de novembro.
Duas vezes atrás no marcador, o time de Jorge Jesus soube contornar um Vasco inspirado e pilhado por Vanderlei Luxemburgo para garantir um precioso ponto com um 4 a 4.
Naquela noite de Maracanã pulsante, o time mais uma vez mostrou entrosamento, empolgação e muita força. A busca pelo empate valeu também a manutenção da série invicta da equipe no campeonato.
E acabou sendo o jogo do título...
7 - Duas vezes Grêmio (de novo)
Quis o destino que o Grêmio, o antagonista da maior vitória do time no ano, na Libertadores, fosse o último adversário do Fla antes da final do Sul-Americano.
Mesmo na sua Arena, o Grêmio foi mais uma vez derrotado pelo time de Jorge Jesus. A partir dali, o Palmeiras não poderia mais perder pontos, se quisesse manter o título. E, mesmo assim, teria que torcer por tropeços dos cariocas.
Mais uma vez o Grêmio, daria uma força para o Rubro-negro.
No domingo, 24, o mesmo Grêmio que perdera duas vezes para o Flamengo foi ao Allianz Parque e, com um gol nos minutos finais, fechou a conta da conquista flamenguista. O troféu do Brasileiro de 2019, assim como a Libertadores, teria a Gávea como morada.