Ex-fã da La U, líder de torcida do Flamengo no Chile aprova Sampaoli: "Pira a mente do jogador"

Se hoje em dia torcedores mais antigos do Flamengo brincam com jovens exigentes tratando-os como "geração 2019", o clube tem em Buenos Aires, palco da partida contra o Racing, nesta quinta-feira, um rubro-negro raiz. Ou um "rojinegro de raíces" em espanhol . O chileno Francisco Muñoz, mais conhecido como Pancho Fla , viu o vermelho e preto dominar seu coração num ano de recolocação nos cenários nacional e internacional.

Conheceu o Flamengo in loco em 21 de setembro de 2016, em jogo contra o Palestino, no Estádio Monumental David Arellano, pela Copa Sul-Americana. Os rubro-negros venceram por 1 a 0, com gol de Emerson Sheik, mas acabariam eliminados sete dias depois em Cariacica, onde os chilenos ganharam por 2 a 1. A primeira decepção faria Pancho Fla desistir de sua nova paixão? Nunca. Dois meses e seis dias depois estava no Maracanã pela primeira vez para assistir à vitória por 2 a 0 sobre o Santos, com gols de Guerrero e Diego. A partir daí fundou a torcida Fla-Chile.

- Foi a primeira vez que eu fui a um estádio ver o Flamengo com um grupo de amigos. Isso porque temos no Chile um time amador chamado (Deportivo) Flamengo . Eu sou sócio do Deportivo Flamengo e treinador de uma das categorias do clube. Por isso, fomos por curiosidade assistir ao jogo com o Palestino. Depois desse dia, não parou a paixão. Dois ou três meses depois fui ao Maracanã conhecer, e aí o amor explodiu. Não pude parar mais (risos). Desde 2016 viajo com o Flamengo , ao Rio e para fora. Mas prefiro ir como visitante porque o Flamengo precisa mais de mim fora de casa do que no Maracanã.

Curioso é que Francisco Pancho já foi fanático por outro clube. Era integrante da organizada "Los de Abajo", da Universidad de Chile. Como as brigas entre as facções dos maiores clubes chilenos cresceram, afastou-se para priorizar a família. Ao escolher o Flamengo , ganhou inúmeros amigos que enxerga como a extensão de seus familiares.

- O que me conquistou foi a torcida do Flamengo . Muito pela maneira como torce e como desfruta com o Flamengo , que é paixão. No Chile é muito frio, temos torcidas boas como a do Colo Colo e da La U, mas aqui com o Flamengo é diferente. Você vê paixão, amizade. Tenho amigos de sete anos do Flamengo com quem falo todo dia por Whatsapp. Flamengo tem muita amizade.

Um dos membros de sua "família brasileira" é o carioca João Lacave, com quem está dividindo um apartamento em Buenos Aires nos últimos dias para assistir à partida contra o Racing, nesta quinta-feira, às 19h, no El Cilindro. João brinca com a origem da amizade, nascida na final da Libertadores de 2022, contra o Athletico-PR, em Guayaquil:

- Tem uma coisa que eu não esperava era conhecer um chileno flamenguista em Guayaquil (risos).

Com o Flamengo , além de incontáveis idas ao Maracanã, Pancho Fla viajou por todo quase todo o continente. Esteve nas três finais de Libertadores, em Lima, Montevidéu e Guayaquil. Antes de empilhar taças, assistiu à final da Copa do Brasil de 2017 e a jogos contra Santa Fé-COL, Emelec-EQU, Vélez Sarsfield-ARG e River Plate-ARG. Conviveu com frustrações, mas manteve-se incondicionalmente rubro-negro até provar o sabor das muitas conquistar de 2019 em diante.

Hoje Francisco Muñoz garante que é apenas Flamengo , tanto que jamais havia feito tatuagens alusivas à Universidad de Chile. Já referentes ao Rubro-Negro ele tem duas, uma na panturrilha direita, com o escudo oficial e o do remo, e outra na esquerda, em que está no Maracanã ao lado da filha.

Francisco Pancho Muñoz e João Lacave mostram a bandeira da Fla-Chile — Foto: Fred Gomes
1 de 4 Francisco Pancho Muñoz e João Lacave mostram a bandeira da Fla-Chile — Foto: Fred Gomes

Francisco Pancho Muñoz e João Lacave mostram a bandeira da Fla-Chile — Foto: Fred Gomes

Sampaolismo à flor da pele com ídolo e em virada histórica

Se hoje Francisco, de 35 anos, é Flamengo e nada mais, em outro momento de sua vida pôde se entusiasmar com dois trabalhos marcantes de Jorge Sampaoli. O primeiro e mais revolucionário foi à frente da Universidad de Chile, de 2011 a 2012. O outro com a seleção chilena, campeã da Copa América de 2015. Pancho lembra que o início foi conturbado, com direito a barração do maior ídolo do time na época, o atacante Diego Rivarola.

- Ele deixou uma muito boa impressão na torcida da Universidad de Chile. Mas o começo lá foi até pior do que no Flamengo . Depois que os jogadores entenderam o sistema dele, o time não parou. Foi campeão da Sul-Americana sem perder nenhum jogo. Jogava muito em alta intensidade, ia e voltava o tempo todo. Ele precisa que o time entenda o jogo dele. A mudança que se vê agora é o goleiro Santos jogando entre os zagueiros.

- Johny Herrera foi o goleiro campeão da Sul-Americana. No início, ele não jogava nada com o pé, mas teve que aprender. Sampaoli tem um princípio: "você não corre, você não joga". Ele sempre falou isso. Na La U, o Diego Rivarola era o maior ídolo, mas não corria. Em dois jogos, ele o sacou. E o Rivarola teve que correr para recuperar a camisa. Depois disso Rivarola disse que graças ao Sampaoli voltou a ser jogador profissional.

Francisco Pancho, no meio, levou bandeira da Fla Chile ao Monumental de Nuñez, em 2018, contra o River — Foto: Arquivo Pessoal
2 de 4 Francisco Pancho, no meio, levou bandeira da Fla Chile ao Monumental de Nuñez, em 2018, contra o River — Foto: Arquivo Pessoal

Francisco Pancho, no meio, levou bandeira da Fla Chile ao Monumental de Nuñez, em 2018, contra o River — Foto: Arquivo Pessoal

No livro "Jorge Sampaoli - nada es imposible, el camino de un luchador" , o biógrafo Pablo Esquível cita uma vitória por 2 a 1 sobre o Colo, com gol marcado aos 45 do segundo tempo numa cabeçada de Rivarola, como a virada do treinador argentino à frente da La U.

"Sampaoli pira a mente do jogador"

O ano de 2011 é, de longe, o mais marcante da história da Universidad de Chile. Conquistou três títulos, o Apertura, o Clausura e a Sul-Americana de maneira invicta. Além disso, marcou 127 gols em 63 jogos. Mas a temporada seguinte ainda reservaria uma virada épica. Nas oitavas de final da Libertadores 2012, a La U perdeu por 4 a 1 para o Deportivo Quito no jogo de ida, no Equador, e começou ser tratada como carta fora do baralho para aquela competição.

Sampaoli, com sua eletricidade inconfundível, deu de ombros para a goleada e desde que pisou em Santiago insistiu no discurso de que seus jogadores conseguiriam a classificação. Pancho Fla se diverte ao relembrar do quanto o argentino repetiu a todos de que a U de Chile passaria.

- Todo mundo falava que a U de Chile estava eliminada. Sampaoli chegou a Santiago e disse: "U de Chile vai virar". Próximo dia disse de novo que ia virar. "Vai virar, vai virar, vai virar... (risos)". Falou tanto que ia virar que os jogadores inconscientemente botaram na cabeça que iriam virar. Com 40 minutos, já estava 4 a 0 (na verdade o quarto foi feito no início do segundo tempo). Quem fez os gols? Mena, que é lateral. Díaz, que é zagueiro. U de Chile ganhou de 6 a 0 e avançou.

- Ele tem algo mental muito forte e precisa que o jogador deixe ocupar a mente dele. Ele pira a mente do jogador. Ele vê um jogador ruim, e ele diz: "Ele está bom, ele está bom, ele está bom". Até que o jogador passa a ser bom.
Francisco Pancho, à esquerda, na final da Libertadores de 2023, entre Flamengo e Athletico — Foto: Arquivo Pessoal
3 de 4 Francisco Pancho, à esquerda, na final da Libertadores de 2023, entre Flamengo e Athletico — Foto: Arquivo Pessoal

Francisco Pancho, à esquerda, na final da Libertadores de 2023, entre Flamengo e Athletico — Foto: Arquivo Pessoal

Ainda na biografia escrita por Pablo Esquível, o autor cita o quanto Sampaoli valoriza o "amadorismo" e o "amor pelo escudo". Pancho Fla acredita que o treinador está dando choque no elenco do Flamengo a fim de torná-lo mais vibrante e raçudo dentro dos jogos.

- Sampaoli é muito maluco (risos). Eu gosto. O jogador precisa sentir amor pelo clube. Você vê agora: o Flamengo estava com sete no placar, e o Sampaoli corria, corria e gritava. Ele quer entrar em campo para tocar na bola. Gosta de jogador que mostra amor ao clube, ele não gosta de jogador de braços cruzados, mesmo que faça 10 gols. Gosta que o jogador grite, que vá ao chão. Gosta de jogador de raça, e é o que o Flamengo precisa.

Pulgar como zagueiro não é surpresa para Pancho

Quando ainda torcia pela La U e acompanhava mais o Campeonato Chileno, Pancho viu Pulgar surgir como um bom zagueiro com as camisas de Antofagasta e Universidad Católica. Anos depois, o compatriota ainda não vingou no Flamengo , mas o torcedor é otimista e vê nele possibilidades de se destacar mais até do que Vidal, um dos grandes ídolos de seu povo.

- Eu disse ao João (Lacave, amigo dele): acho que Pulgar vai começar a jogar de zagueiro. O flamenguista conhece o Pulgar de meio-campista, mas no Chile jogou de zagueiro, na Fiorentina jogou de zagueiro. Depois foi para o meio na própria Fiorentina e no Galatasaray. É um bom jogador. A minha percepção é que o Vidal foi muito maior, mas para o Flamengo o Pulgar pode jogar muito mais. É mais físico, cabeceia bem, é grande e joga com raça. Mas é muito calado e tímido. Falta mais confiança como jogador do Flamengo , mas acho que vai dar certo.

Esperança com Sampaoli e Vidal

Se Francisco já tinha um sentimento de pertencimento com todas as amizades feitas através do Flamengo , a presença de três figuras tão ligadas ao Chile o aproximam ainda mais do clube.

- Agora estou muito em casa. O Flamengo teve Isla, Fierro e Maldonado, jogadores que jogaram muito. Sampaoli vai dar certo, é um treinador bom, tem que dar tempo a ele. E Vidal agora vai mostrar que tem raça para ajudar o Flamengo .

Francisco Pancho na Gávea ao lado de Adílio, um dos grandes ídolos do Flamengo — Foto: Arquivo Pessoal
4 de 4 Francisco Pancho na Gávea ao lado de Adílio, um dos grandes ídolos do Flamengo — Foto: Arquivo Pessoal

Francisco Pancho na Gávea ao lado de Adílio, um dos grandes ídolos do Flamengo — Foto: Arquivo Pessoal

Depois de longa análise sobre Sampaoli no Chile, Pancho finaliza o papo afirmando que, apesar da oscilação e de duas vitórias e duas derrotas nos quatro primeiros jogos, o trabalho vai render frutos. Tem convicção nisso por ver evolução e um jogo mais ofensivo por parte do Flamengo .

- O Flamengo não pode dar muito tempo se não der liga e ficar jogando mal, mas depois que saiu Vítor Pereira, todos os jogos foram bons. Atacou muito, mas está faltando definição. Desde que Vítor foi embora, mudou e começou a jogar bem.

Conhecedor do estilo ofensivo de Jorge Sampoli, Francisco Pancho, rojinegro de corazón , aposta em 3 a 1 para o Flamengo contra o Racing nesta quinta-feira, às 19h (de Brasília), no Estádio El Cilindro.

Se Francisco cravar, o Flamengo fica muito bem no Grupo A da Libertadores. Assume a liderança no saldo de gols e fica a seis pontos da classificação com duas partidas no Rio de Janeiro por jogar.

Independentemente do resultado e onde jogue o Flamengo , certeza é que, como diz o canto da torcida inspirada na música castelhana "Pasos al costado", Pancho Fla continuará seguindo o clube a todo lado e a loucura que sente pelo clube nunca se acabará.

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Fonte: Globo Esporte