Para o primeiro treinador de Vinicius Jr. , a postura firme do atacante do Real Madrid para responder aos atos racistas sofridos na Espanha não é surpresa.

Carlos Eduardo Abrantes Beraldini, o Cacau , disse à ESPN nesta segunda-feira (22) que desde cedo o atleta revelado pelo Flamengo teve de lidar com dificuldades, mas sempre encarou tudo com uma força mental tão precoce quanto o talento para o futebol.

Vinicius tinha seis anos quando chegou à escolinha do Flamengo em São Gonçalo (RJ). Cacau era o treinador e notou logo de primeira que estava diante de alguém diferenciado. Dentro de campo, era muito mais rápido que os demais e sempre jogou com garotos mais velhos. Fora do futebol, o garoto era maduro e disposto a qualquer sacrifício para treinar.

Anos mais tarde, quando já estava na base do Flamengo, Vini percorria 150 km diariamente para ir e voltar de casa para os treinos no Ninho do Urubu.

"Desde criança ele já assumia responsabilidades de um homem e sei do quanto ele é preparado e forte mentalmente para ajudar na luta contra o racismo", disse Cacau. "Ele vem de uma família humilde, mas muito batalhadora. Acho que isso o moldou com muita personalidade e força. A sua família é fundamental nesse processo", acrescentou.

Mesmo com pouca idade, Vinicius Jr. foi desafiado a treinar e jogar com garotos até dois ou três anos mais velho. A diferença na força física e as faltas faziam o garoto a se desafiar. Embora não se recorde de episódios de racismo contra o garoto naquela época, Cacau tem na memória passagens marcantes sobre a superação e o talento do garoto.

"Teve um campeonato disputado na Gávea em que a reação dos torcedores adversários foi engraçada. Falavam que para acompanhar o Vini, só se fosse de moto, porque era muito rápido", contou Cacau. "Ele sempre foi muito focado no processo de formação", afirmou.

O garoto deixou a causa dos pais aos 14 anos para morar com o tio, Ulisses, no Rio, para ficar mais perto do Ninho do Urubu. Já aos 18, Vini deixou o Brasil para morar na Espanha e defender o Real Madrid. Até hoje, continua em contato com Cacau e até visitou o técnico durante as últimas férias.

O "descobridor" de Vinícius Júnior torce para que o ex-pupilo consiga superar o mais recente desafio: enfrentar os casos de racismo na Espanha. "É revoltante ver tudo que acontece hoje. É uma situação muito grave", comentou.