Zico e comemoração de gols foram sinônimo durante os mais de 20 anos de carreira profissional do maior ídolo da história do Flamengo . Uma das unidades da "Escola de Futebol Zico 10" testemunhou a celebração de um gol que foi a vitória da inclusão . Felipe, de 12 anos e que se locomove com o auxílio de um andador, foi o craque da vez no sábado .
No fim de semana, a unidade Laguna, uma das 46 franquias da Escola Zico 10, recebeu torneio interno cujo tema era o Campeonato Carioca. Para não causar eventuais incômodos em meninos e meninas com a possibilidade de vestir a camisa de um rival, a organização incluiu somente equipes pequenas.
Felipe foi o camisa 8 do Volta Redonda e, diante do goleiro do América, mostrou seu faro artilheiro. Apoiado no andador, bateu de pé direito e não deu chances ao adversário. A bola vencer a linha do gol foi o sinal para um abraço coletivo. O juiz do jogo sorriu e cerrou os punhos, sem pudor de comemorar.
Crianças menores e maiores, entre elas meninos e meninas vestidos de América ou Volta Redonda, correram para o abraço em Felipe, produzindo uma das cenas mais bonitas do torneio organizado por Thiago Coimbra, ex-jogador do Flamengo , filho de Zico e presidente do Centro de Futebol Zico (CFZ).
Felipe, com auxílio de um andador, faz o gol do Volta Redonda. Sem chances para o goleiro do América — Foto: Sport On Rio
- Felipe é um menino que se locomove com andador, já é um aluno antigo, entrou lá no Laguna. Os professores o abraçaram bastante. Se identificou muito com os professores que ficam lá na base, o Matheus e o Klinsmann. Temos um carinho enorme por ele, é um garoto muito carismático.
- Desde que se matriculou no Zico 10 do Laguna, que é a nossa filial, em todos os torneios internos ele esteve presente. E é uma emoção muito grande porque envolve não só a questão profissional. Nós que temos filhos sabemos o quanto é a bonito o suporte desses pais com esse menino. A alegria dele passa muito para nós, e ver o quanto ele é feliz é algo que contagia toda a equipe. Nos motiva ainda mais ao saber que o menino, com essa dificuldade, está lá jogando e se divertindo com seus pais também felizes - celebrou Thiago Coimbra.
Árbitro do jogo não disfarça e celebra o gol de Felipe, camisa 8 do Volta Redonds — Foto: Sport On Rio
Felipe é abraçado por todos após marcar gol em torneio da Escola Zico 10 — Foto: Sport On Rio
Se Felipe foi literalmente abraçado por todos com o golaço marcado no sábado, o acolhimento não é de hoje. Vanessa Stephan, mãe do garoto, lembra que não encontrava uma opção para o filho desenvolver uma paixão criada ainda aos 5 anos, quando se misturava a outras crianças no Aterro do Flamengo .
- Felipe descobriu a paixão aos 5 anos. Pelo fato de usar o andador, ele consegue chutar a bola. Foi o esporte que o encantou. Felipe sempre foi esse menino alegre, a gente morava no Flamengo , e ele ia no Aterro e jogava com meninos de 10 anos quando tinha 6 (risos).Quando nos mudamos para a Barra, estávamos em busca de uma escola de futebol adaptado. Lá na Inglaterra, tem um time maravilhoso, e nós não encontramos nada parecido no Brasil. E pensamos: "Como que o Felipe vai encontrar crianças sempre dispostas a brincarem e com um adulto para mediar?".
Abraçado pela "Escola Zico 10", Felipe, apesar de goleador, é um marcador implacável de São Pedro. Em toda véspera de aula, ele começa a torcer contra a chuva para não perder o momento de lazer com os amigos.
- Nos mudamos para o Laguna (condomínio na Barra), tinha uma propaganda do Zico, e no primeiro dia que chegamos lá com o Felipe ele foi super bem recebido. Disseram que não ia ter problema e que o Felipe ia se encaixar no grupo. Assim foi. Hoje o futebol no Zico é a paixão do Felipe. Chega um dia antes e ele fala: "Amanhã não vai chover, vai ter aula". A gente encontrou no Zico a válvula de escape do Felipe para o futebol. A gente entende que, pelas limitações dele, o Felipe não vai conseguir jogar num time de futebol normal, teria que ser no futebol adaptado. Como é um esporte de lazer, o Felipe está amando, e a gente fica muito feliz de ver o Felipe feliz - completou Vanessa.
Felipe cumprimenta adversário durante torneio da Escola Zico 10 — Foto: Sport On Rio
Em um sábado de craque, Felipe viveu seu dia de Zico, que nos anos 80 arrastava até torcedores adversários para admirar seu futebol no Maracanã. Só quem não gosta de futebol perdeu a oportunidade de abraçar o protagonista do fim de semana. Até mesmo o árbitro permitiu-se vestir a camisa da inclusão e deu cartão verde para o início de uma grande celebração.
Confira outros tópicos do papo com Thiago Coimbra, presidente do CFZ e gestor da Escola Zico 10
Inclusão
- A gente fica muito feliz porque, desde que meu pai inaugurou o CFZ, teve sempre o viés da socialização da criança e da inclusão. Quando a gente fala em inclusão envolve várias questões. Sempre mesclamos. A gente tentava fazer aula feminina às vezes e não conseguia. Então você misturava meninas e meninos. Socializar é você usar essa ferramenta do futebol para pode fazer amizade e ter um aprendizado de vida também.
Legado de Zico
- Desde o começo da escolinha, muito antes de eu assumir, meu pai sempre abraçou as crianças que por ventura tivessem alguma dificuldade ou deficiência e que estivessem aptas para jogar futebol. Hoje temos crianças autistas e com algum tipo de deficiência. Sempre fez parte da metodologia do Centro de Futebol Zico.
Convite a outras crianças com limitações
- É uma alegria muito grande. Queremos fazer mais e ter mais crianças que estejam minimamente aptos para fazer futebol porque a gente tenta preparar nossos professores dentro das capacitações e metodologias que temos. E os professores, graças a Deus, estão muito capacitados para isso.