Mesmo que tenha vencido novamente o Vasco e irá para sua quarta final de Campeonato Carioca seguida, a versão 2022 do Flamengo ainda não é capaz de deixar nem o mais otimista torcedor seguro. Não é pelo resultado, muito menos pela forma como o time se organiza. É pela sensação de que a equipe oscila mais do que o normal e esperado.
A percepção se dá pelo desempenho contra adversários de maior nível. Contra o Fluminense, um primeiro tempo seguido de uma etapa ruim. Contra o Atlético-MG, um início avassalador e erros na etapa final. Nesse segundo duelo contra o Vasco, um sinal amarelo foi ligado: os problemas defensivos de cobertura da defesa.
Paulo Sousa durante o Flamengo x Vasco — Foto: Marcelo Cortes/Flamengo
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Antes de mais nada: é preciso reconhecer o mérito de Zé Ricardo
O Vasco criou cinco chances de gol no primeiro tempo. Todas em jogadas semelhantes, com a zaga e os laterais desprotegidos e a dupla de volantes, formada por Arão e João Gomes, muito longe da defesa. O truque foi deixar Raniel, Pec e Figueiredo mais à frente, jogando no setor entre a linha de defesa do Fla e o meio-campo. Nenê, que fez excelente partida, buscava a bola de trás e confundia os volantes do Fla. Nesse momento se abria um espaço muito bem aproveitado pelo Vasco.
Agora, vamos entender como o Flamengo se defende
O Fla joga num 4-2-3-1. Com a bola, o desenho é bem nítido e forma uma linha de três atrás. Mas na defesa, o Flamengo se defende com quatro defensores bem alinhados e dois pontas retornando, formando uma segunda linha com os volantes. Contra o Vasco, Pedro e Arrascaeta ficavam mais à frente e quem fazia esse retorno junto aos meiocampistas foi Gabigol e Lázaro.
Só que esse quarteto ofensivo não foi bem ao tentar roubar a bola lá na frente. Eles subiam, tentavam encurtar o espaço e não deixar o Vasco jogar. Só foram pouco intensos. Veja na imagem um exemplo: Gabigol e Lázaro meio que "se desligam", e Nenê consegue conduzir a bola nas costas de Gabigol.
Pressão de Gabigol não anula a jogada do Vasco — Foto: Reprodução
No futebol, tudo está conectado. É como o filme "Efeito Borboleta": um erro lá na frente provoca uma consequência, que muda todo o futuro. A consquência da falta de pressão na frente era que Arão e Gomes tinham que subir muitos metros pra longe da defesa. Eles faziam isso para cobrir o ataque e tentar adicionar mais gente nesse momento de pressão.
O problema é que eles deixavam a defesa sem cobertura. E aí Fabrício Bruno e David Luiz se viam no mano a mano com Raniel e Pec. Estar no mano a mano aumenta a chande de erro e drible. Nesse lance, Rodinei avança pela direita para marcar Nenê, já que Gabigol deixou. Quando o passe sai, a defesa do Fla está muito exposta e os dois volantes ainda estão longe, com Arão ainda voltando.
Defesa do Flamengo fica exposta à Raniel — Foto: Reprodução
Reorganizar as coberturas pode ser uma solução
Outro exemplo: o quarteto do Fla está bem compactado. Arrascaeta até sinaliza para Lázaro subir e pressionar o zagueiro. Mas eles novamente deixam o passe sair. Se a pressão na frente tem como objetivo causar desconforto e evitar uma saída do adversário, o quarteto ofensivo precisa sufocar ao máximo, até parar na chamada falta tática.
Quarteto ofensivo não anula a jogada e volantes do Fla ficam sobrecarregados — Foto: Reprodução
Vai conseguir todas? Não vai! O jogo é essencialmente uma coleção de erros. É para estar protegido quando o adversário sair de trás que os defensores se organizam para cobrir a pressão. E o Flamengo se organizou mal nesse jogo contra o Vasco.
Paulo Sousa gosta que ao menos três jogadores fiquem sempre atrás, fazendo essa cobertura. Dois mais abertos e David Luiz centralizado. Podem ser três beques de ofício ou Filipe Luís mais recuado. Abaixo, um exemplo da cobertura mal-feita: como os volantes estão distantes, Filipe Luís salta e pressiona a bola. O zagueiro central deveria fazer isso e os zagueiros laterais acompanham os pontas. David Luiz está muito longe, o que sobrecarrega Fabrício Bruno na cobertura.
Defesa do Flamengo fora do lugar — Foto: Reprodução
Vendo o lance, o Vasco tem quatro atacantes contra quatro defensores do Fla. É uma igualdade numérica. Mas Nenê consegue dar o passe para Pec, que tem um espaço imenso para conduzir. Há uma vantagem posicional do Vasco.
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Paulo Sousa viu tudo isso e deu a explicação na coletiva:
Veja como novamente tudo se conecta. Não é apenas Willian Arão ou Gomes que esteve mal, mas todo o time. Se Arrascaeta não faz a recomposição, Gomes fica exposto e sobra para Fabrício Bruno. Mesma coisa pelo lado esquerdo. Pedro, por exemplo, muitas vezes não se reposicionou para recompor e pressionar a bola. São precisos pequenos ajustes de posicionamento e principalmente timing.
Além da fome de gols e títulos que o treinador português já cobrou, agora uma nova questão se abre: tornar o Flamengo mais seguro e melhorar as coberturas na defesa para não sofrer tanto na final do Campeonato Carioca, contra Fluminense ou Botafogo.