Aos trancos e barrancos, sem ego e "desafiando" a torcida: Vítor Pereira supera Fernando Diniz e deixa Flamengo próximo do título

A decisão do campeonato carioca apresenta um duelo particular, restrito ao banco de reservas. Enquanto Vítor Pereira precisa do título para tentar ganhar dez por cento de simpatia nos corações rubro-negros, após seguidas e doloridas derrotas no começo da temporada, seu colega de trabalho Fernando Diniz busca consagrar um trabalho sólido, por vezes encantador, através do vil metal de uma taça erguida aos céus -- o que não é comum em sua carreira.

No primeiro encontro pela decisão estadual, o técnico português triunfou de forma incontestável, no placar e na proposta de jogo. Não que o Flamengo, da noite para o dia, tenha se transformado em um Bacalhau Mecânico, bem pelo contrário. Aos trancos e barrancos, desafiando a torcida e flertando com um fado, Vítor Pereira mandou a campo um Flamengo descaracterizado em relação às recentes célebres formações, com uma missão: vencer o campeonato carioca.

Com Gabriel e Éverton Ribeiro no banco de reservas, apostava seu par de dois em jogadores abertos que pudessem abastecer Pedro, investindo em ligações diretas e bolas esticadas que desafiavam doze séculos de escola futebolística flamenguista. Assumia, assim, que o Fluminense era um adversário a ser anulado. E o fez de maneira eficiente, ou pelo menos não desastrosa: o primeiro tempo acabou sem gols e com notável equilíbrio. Por vezes o Flamengo até parecia um bando, uma matilha, um estouro de boiada. Mas era um bando com uma ideia.

E, quando o Flamengo tem ao menos uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, acontece de ser implacável. Logo aos cinco minutos do segundo tempo, após uma trama diabólica envolvendo Pedro e Cebolinha, surgiu das profundezas da banda canhota o maior lateral-esquerdo do futebol mundial que entrou em campo na noite de sábado: Ayrton Lucas concluiu finalizou a jogada com veterana perícia. E pouco depois faria jogada maracanesca para cruzar e assistir Pedro assinalar o 2 a 0, que não é irreversível mas abre todos os caminhos.

Entre o primeiro e o segundo gol, Fernando Diniz havia se perdido entre pensamentos e escorregões narcisistas. Ignorou que outros noventa minutos estão marcados para semana que vem e, quando perdia pelo placar mínimo, resolveu ser mais dinizista do que ele mesmo, no caso o próprio Fernando Diniz, e jogar apenas com um zagueiro, recuando um volante, desdobrando um atacante e sacando do bolso do abrigo um coelho que já entrou em campo desnorteado. Viu seu Fluminense naufragar, Samuel Xavier ser expulso e ele mesmo receber vermelho.

Há todo um segundo tempo de final pela frente, mas Vítor Pereira parece ter entendido muito melhor as urgências necessárias para um clássico desse tamanho do que Fernando Diniz. Um encontro de tamanha magnitude exige certos sacrifícios -- de ideias e também de ego. Do contrário, torna-se muito atrativa a maior armadilha do futebol moderno: colocar o conceito acima da conquista. Obviamente, são coisas incomparáveis. Um sempre deve servir ao outro.

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Fonte: Globo Esporte