Em entrevista ao “Aqui com Benja”, no Fox Sports , o treinador português André Villas-Boas, do Olympique de Marselha , analisou o sucesso de Jorge Jesus no Brasil e o quanto isso foi importante a passagem dele por aqui para abrir o mercado aos estrangeiros.
“Ele é um fora de série no aspecto tático, na organização de suas equipes. É uma pessoa muito dedicada e, além disso, tem uma visão muito forte sobre os princípios do jogo e o modelo de jogo que ele quer implementar. E como tem ideias muito fixas e uma capacidade de ensinar muito boa, muito próxima aos seus jogadores, ele teve um impacto brutal no Brasil. Sem dúvida abriu o mercado dos treinadores portugueses no Brasil”, disse Villas-Boas, na entrevista exibida na noite do último sábado (14).
Jesus teve uma passagem de pouco mais de um ano pelo Flamengo, onde conquistou cinco dos sete títulos que disputou, entre os quais a Copa Libertadores e o Campeonato Brasileiro , e perdeu apenas quatro das 56 partidas que fez.
Depois dele o Flamengo trouxe o espanhol Domènec Torrent (já demitido) e o Palmeiras buscou o português Abel Ferreira para tentar os títulos da temporada. Mas é importante lembrar os trabalhos de Jorge Sampaoli no Atlético-MG , do argentino Eduardo Coudet (que agora está no Celta) no Internacional e do português Jesualdo Ferreira (demitido em julho) no Santos .
Villas-Boas opinou por que pode estar havendo uma onda de estrangeiros no Brasil.
“Por aquilo que vi e conheço do futebol sul-americano me parece que a grande diferença está na intensidade como se treina, se ocupa espaços e se joga. Talvez por questões de temperatura e má qualidade dos campos, mas é uma intensidade menor que na Europa”.
O curioso da entrevista dele é que o português, que chamou o Flamengo de uma equipe excepcional, misturando “a dose certa de talento e experiência”, admitiu que foi frustrado por Jesus. O motivo foi o lateral esquerdo Filipe Luís.
“Por acaso eu o queria e fiquei muito chateado porque quando liguei para ele ir ao Olympique de Marseille ele disse que já era tarde, já tinha um acordo com o Flamengo”, revelou o treinador.
Voltando ao assunto dos técnicos, André Villas-Boas fez uma análise mais profunda do sucesso português no Brasil e porque os profissionais desse país tornaram-se tão valorizados no mercado.
“A explosão do José Mourinho fez com que o jovem português em vez de querer ser jogador passasse a pensar em se desenvolver como treinador. O impacto midiático, o sucesso que Mourinho teve, e antes a referência era Arthur Jorge pelo trabalho no final dos anos 80 e início dos anos 90, deu-se uma explosão enorme e criou-se esse interesse”, disse.
E ele admitiu que por muito pouco ele não foi o primeiro técnico de Portugal a marcar a volta de profissionais daquele país no nosso futebol (como ocorreu nos anos 40, 50 e 60).
"Eu queria muito ter sido o primeiro. Sempre tive dois grandes objetivos que eram treinar no futebol brasileiro e treinar no futebol japonês. Mas tenho hoje muitos compatriotas bons treinadores [no Brasil] e que isso deixe um impacto no futebol brasileiro", disse para relembrar o convite que recebeu do São Paulo e que tinha tudo certo para ser fechado em janeiro de 2013.
"Terminei o contrato com o Chelsea em março [de 2012] e minha ideia era criar uma capacidade entre os novos talentos que estavam surgindo no futebol brasileiro. Fiquei uma semana e meia no Brasil e recebo uma chamada do então vice-presidente do São Paulo. Marcamos de encontrar na casa do Adalberto [Baptista, então diretor do clube]. Falamos muito e chegamos a um acordo total sobre as mudanças que eu queria implementar no São Paulo", contou.
"Ia mudar a forma de comunicar, método de treino, infraestrutura, estruturas do clube", disse Villas-Boas, que viu o plano ir por água abaixo porque o São Paulo necessitou antecipar a vinda dele em 2012, algo que ele não aceitou. Quem veio foi Ney Franco, campeão da Copa Sul-Americana.
"Para isso acontecer, eu precisava começar no início do estadual em janeiro de 2013. Esse sonho acabou por não se realizar”, disse Villas-Boas.