Foi aos 30 minutos do primeiro tempo desta semifinal de Flamengo e Grêmio no Maracanã. William Arão recebeu a bola, foi pressionado por Everton e protegeu. Levou uma, duas, três carimbadas no tornozelo e não soltou a bola. Nem se incomodou. Até houve aquele princípio de cenas lamentáveis depois do cartão amarelo para Cebolinha, mas Arão permaneceu impávido.
Lembre a cena abaixo
Num Flamengo cheio de grandes jogadores - e que tem hoje Gerson, companheiro de meio de Arão, com chances de pintar numa lista de Tite -, foi o lance deste jogador que me veio à cabeça no fim da histórica goleada de 5 a 0 do time carioca sobre o Grêmio.
Arão recebeu muitas críticas – para mim muitas vezes injustas – em quatro anos de Flamengo, mas sempre foi jogador de muito mais qualidades do que defeitos. E parece o caso de atleta com esforço e dedicação fora do habitual em busca da evolução – conta a seu favor a contribuição de Jorge Jesus, que, desculpem mais um trocadilho com o técnico, parece ter encontrado novo caminho para Arão.
(Enquanto escrevia isso, saiu a entrevista de Enzo Peres, do River Plate, que Jesus recuou e convenceu a jogar de primeiro volante ainda no Benfica. Leia aqui )
Por que a primeira vez que Arão me chamou a atenção foi dentro da área, pelo Botafogo, quando num clássico entrou pela área na diagonal, dominou com a direita e finalizou – sem deixar a bola quicar - com a esquerda (2 a 1 para o Fluminense, dia 11 de abril de 2015) para o gol.
Arão domina com a perna direita na frente de Cavalieiri. Com a esquerda, marcou para o Botafogo — Foto: Reprodução
Pelo Flamengo, Arão chegou até a ser improvisado como zagueiro por necessidade. Na maior parte do tempo foi jogador de meio de campo, com auxílios importantes aos zagueiros, laterais e meias pela direita – com tabelas e infiltrações, além de boas participações em bolas aéreas.
É verdade que o toque de bola elegante muitas vezes vinha ao lado de autoconfiança exagerada e consequente displicência – daquela que no menor erro vira perigo para o próprio patrimônio. Concentrado, sempre foi jogador de bom para ótimo nível, ainda mais no futebol brasileiro.
Com alguma experiência de quem cobriu por três anos o dia a dia do Flamengo, não é difícil de entender que os dirigentes rubro-negros nunca facilitaram eventuais negócios e empréstimos de Arão no mercado interno. A despeito de críticas e vaias que vinham das arquibancadas, sabiam o valor do jogador.
Outro ponto fundamental deste Arão dentro do Flamengo de Jesus é que desmonta a ideia pré-concebida (infelizmente muito bem propagada) de que o “primeiro volante” precisa ser um Cuéllar, para ficar em tempos recentes, ou em Leandro Ávila, para ficar num exemplo bem acabado e eficiente de jogador de sucesso também na Gávea – em tempo, o colombiano, jogador superior na saída de bola a maioria dos volantes dentro do Brasil, evoluiu dentro do Flamengo.
Arão comete poucas faltas, segue com boa entrega em desarmes e rebatidas e ainda chega na frente algumas – hoje, poucas - vezes, é verdade. Veja abaixo como foi sua participação no primeiro tempo desta semifinal, como foi forte e presente na marcação e na distribuição de passes .
Rebatidas e desarmes de Arão no primeiro tempo: em momento crítico da partida, boa contribuição com a marcação no time de Jesus — Foto: Estatísticas Conmebol
Distribuição de passes de Arão na primeira etapa. Em vermelho, os erros do jogador — Foto: Estatísticas Conmebol
Movimentação de Willian Arão, cobrindo lado a lado na defesa, durante a partida contra o Grêmio — Foto: Estatísticas Conmebol
Não sei se Arão vai se firmar nesta posição - nem sei se é o desejo dele e de Jesus, que, como noticiamos, tem à vista Rodrigo Dourado, do Internacional -, mas os grandes que vi nesta função no futebol brasileiro – dos baixos dos meus 37 anos – sempre foram com esse estilo. Toque de bola inteligente e poder de marcação, encaixados como luva num time bem arrumado. Não acompanhei Falcão e Cerezo, muito menos Zito, mas foi um privilégio assistir Mazinho, Vampeta e Rincón, que era meia ofensivo e Luxemburgo recuou.
Dois desses (Vampeta e Rincón), mais Ricardinho e Marcelinho Carioca formaram o melhor meio de campo que me lembro no Brasil. E como a memória me trai, recorri ao site “Meu Timão” para lembrar que eles pouco atuaram juntos naquele ano de 1998. Luxemburgo muitas vezes colocava Marcelinho no ataque e escalava o volantão Gilmar Fubá no meio de campo. Jesus vez ou outra entra com Piris, que tem pouca intimidade com a bola, mas vou torcer para que jogadores como Arão ganhem espaço.