É dia de Bahia x Palmeiras em Salvador. Horas antes de a bola rolar, um grupo veste camisas coloridas do clube da casa e anda tranquilamente pelos arredores da Arena Fonte Nova. Sem serem importunados, membros da torcida organizada LGBTricolor penduram uma bandeira colorida em um dos portões enquanto aguardam outros torcedores para entrar no estádio.

Foi um dos exemplos de acolhimento que a ESPN presenciou ao acompanhar a rotina de diferentes grupos de torcedores e torcedoras lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais/transgênero e queer nas semanas que antecederam o Dia Internacional do Orgulho LGBTQ+, celebrado nesta quarta-feira, 28 de junho.

Não foi o único, é verdade, mas tampouco é possível dizer que essa é a regra para essas torcidas que, como tantas outras, só querem poder estar juntas no estádio para demonstrar o amor que têm pelo seu clube. Para muitos desses grupos, a realidade no futebol é a mesma que ainda existe também fora dele: LGBTfobia, intolerância e discriminação.

Se é possível comemorar a evolução no tratamento a esse público em algumas torcidas pelo Brasil, outros coletivos ainda enfrentam resistência e precisam vencer rivais como o medo, a violência e a falta de apoios dos próprios times para estarem ao lado dos seus.

Bahia e um exemplo para comemorar como gol nos acréscimos

Quando Thaciano deu a vitória ao Bahia por 1 a 0 sobre o Palmeiras na 11ª rodada do Campeonato Brasileiro , já aos 48 minutos do segundo tempo, os membros da LGBTricolor explodiram de alegria com todos os demais torcedores tricolores presentes na Fonte Nova. Não houve diferença que pudesse sobrepôr o sentimento mais importante na arquibancada: o amor pelo time de coração.

"(A relação) é bem tranquila. Muita gente nem percebe a gente, outros vêm cumprimentar. Tem quem não gosta, mas não vem incomodar a gente. Acho que tem uma ideia que as pessoas compraram que é de que é um respeito, a convivência. Nós temos esse direito e ponto", contou Onã Rudá, fundador do grupo e também do Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQs, que congrega outros movimentos de torcedores e torcedoras LGBTQ+ pelo país.

Para ele, essa harmonia tem influência do próprio Bahia, que entendeu a importância de ter uma política para acolher esses torcedores, em uma postura que fosse além de apenas uma questão de marketing.

"Acho que o Bahia se convenceu da necessidade. E aí tudo é uma estratégia que a gente vai articulando no dia a dia, que envolve dirigentes, funcionários, atletas, pessoas influentes no clube. Essa ideia fez com que a gente tivesse hoje no Bahia uma rede de proteção dessa temática", explicou.

Dentro da Fonte Nova, por exemplo, a LGBTricolor hasteou sua bandeira em um mastro e balançou sua representatividade durante o jogo. Não houve ameaças, olhares tortos de descontentamento ou qualquer caso de LGBTfobia. Motivo para ser celebrado, claro, mas o coletivo sabe que ainda é preciso ir além.

"A gente tem avançado muito com os processos de inclusão na Fonte Nova, mas queremos ampliar isso para jogos fora de casa. Temos segurança de organizar nossa galera e curtir arquibancada de estádio, mas ainda temos dificuldade em avançar na saída da cidade de Salvador", contou Antonio Ramos Vieira, outro membro da LGBTricolor.

"Acho que esse é um dos nossos próximos passos. Organizar a nossa galera com segurança e levar também a LGBTricolor para fora de Salvador e da Bahia", concluiu ele.

Torcedor 'camuflado', ameaças de morte e medo

Foram dez coletivos de torcedores e torcedoras LGBTQ+ entrevistados pela reportagem. Oito citaram medo de estarem presentes no estádio de forma caracterizada.

Foi o caso das Marias de Minas, que relataram dificuldade de se reunir em Belo Horizonte para assistir aos jogos do Cruzeiro dentro do estádio, mesmo tendo apoio do clube.

Yuri Senna, fundador do coletivo e cruzeirense fanático desde pequeno, conta que já sofreu até ameaça de morte após ser abraçado por seu namorado no Mineirão.

"Fizeram vídeos da gente no estádio que viralizaram nas redes sociais com tons de ameaça, de chacota, de gente recriminando a nossa presença e até falando que se voltássemos lá, iam matar a gente porque aquilo não era torcedor do Cruzeiro", disse.

Em São Paulo, a realidade é parecida dentro de torcidas de Palmeiras e Corinthians . "Em dez anos, nós fomos ameaçados, perseguidos. Há uma mudança, mas mínima. Ainda há gritos homofóbicos no estádio. Nós recebemos ameaças virtuais, descobriram endereço, local de trabalho de integrantes do coletivo. Pessoalmente, fomos ameaçados."

A declaração é de Thaís Nozue, cofundadora do coletivo "Palmeiras Livre". Para ela, hoje, é praticamente impossível conseguir ocupar um espaço em partidas do clube sem que exista represálias ou temor.

"É um ambiente machista, misógino, calcado em ideias da sociedade. O futebol não é um movimento à parte. Como ele é construído por essas pessoas. Isso reflete no ambiente do futebol masculino. A raiz da LGBTfobia é a mesma. É o machismo. A masculinidade frágil", destacou Thaís.

O ambiente de medo é destacado também por Vinícius Rocha*, da Porco íris, que pediu para usar um nome fictício nesta reportagem. Em depoimento, o torcedor contou que o grupo recebe diversas ameaças virtuais e vai "camuflado" a partidas do Palmeiras.

"Nós ocupamos alguns lugares, mas não falamos publicamente por uma questão de segurança. Desde a fundação do coletivo, a gente recebe muitas ameaças. Encaminhamos algumas ao Ministério Público. Não levamos nada que seja do coletivo, observamos bem onde as pessoas estão, o que falar... É tudo muito discreto para evitar ofensas, agressões ou algo pior. A gente toma muito cuidado", explicou.

Yago Gomes, membro da Fiel LGBT, conta que, por causa das ameaças que recebem, os participantes preferem não arriscar nem em vestir a camisa personalizada do coletivo nos jogos do Corinthians.

"A gente recebe alguns tipos de ameaças, às vezes nem são coisas relevantes, mas preferimos não colocar nossas vidas em risco e nem incentivamos que as pessoas coloquem as delas. Recebemos ameaças e, no meio virtual, qualquer um pode falar o que quiser, mas não sabemos a intenção de quem estará no estádio. Uma parte da torcida abraça a nossa ideia, mas outra parte ainda é contra."

Já em Belém, no Pará, a Papão Livre, coletivo LGBT que reúne torcedores do Paysandu, foi criada justamente a partir de um ato de discriminação e violência sofrido no Mangueirão, em maio de 2017.

"Em um jogo na Copa do Brasil, contra o Santos , a gente resolveu abrir uma bandeira LGBT, em respeito as pessoas que são LGBT e vão para os estádios, mas infelizmente não podem ser quem ser por conta da LGBTfobia. A partir daí a gente passou a sofrer muita perseguição. Fomos ameaçados", diz Gleyson Oliveira, membro do coletivo.

De lá para cá, a Papão Livre foi reconhecida pelo Paysandu e até promoveu ações conjuntas com o clube, mas ainda assim não se sente segura para se reunir dentro do estádio como um coletivo.

"A gente ainda não consegue se sentir a vontade dentro do estádio para levar uma bandeira. Ainda falta muito para chegar nesse patamar. Mas através disso nasceu a Papão Livre, que hoje está com 25 pessoas dentro da torcida. A gente não se reúne dentro do estádio como coletivo. A gente vai como torcedor, como sócio torcedor que somos. Mas a gente não tem essa, digamos, certa coragem para estar dentro do estádio como coletivo, organizado, com bandeira e tudo. Falta muita coisa para isso", completou.

O Vasco e o pioneirismo em questões sociais

Entre os exemplos positivos que o futebol dá para a sociedade, o Vasco segue o Bahia: levanta a bandeira da diversidade e lidera a luta contra a homofobia e a transfobia no esporte.

Foi o que a ESPN pode observar ao acompanhar o coletivo Vasco LGBT nas arquibancadas de São Januário na derrota por 1 a 0 para o Goiás , também pela 11° rodada do Campeonato Brasileiro.

Para Roberto Vianna, membro do grupo, o histórico do clube, de pioneirismo em questões sociais, reflete hoje no combate à LGBTfobia.

"O Vasco já tem uma história pioneira no futebol na luta contra o racismo, sempre defendeu o mais pobre, o mais necessitado, os pretos. Quando surgiu a questão da homofobia, que teve decisão do Supremo (Tribunal Federal), da União Civil, essa questão toda, o Vasco se ligou nesse ponto e pegou também (o assunto) como uma causa social, porque o Vasco é pioneiro em defender as causas sociais."

O apoio efetivo à causa LGBTQ+ começou em 2021, quando o Vasco reconheceu oficialmente seu coletivo e promoveu diversas ações, dentre elas a que mais fez sucesso: o lançamento de um uniforme inédito, com a faixa diagonal que cruza a camisa nas cores do arco-íris. E não parou por aí.

Dentro de campo, Germán Cano levantou a bandeirinha de escanteio, também nas cores do arco-íris, ao comemorar seu gol contra o Brusque, em São Januário, pela Série B . O gesto, um tanto quanto simbólico, mas muito representativo, foi o estopim para que os torcedores também abraçassem a iniciativa.

"A gente se sente muito acolhido. Até porque na última vez, as próprias torcidas organizadas no Vasco fizeram um manifesto apoiando a gente. Fizeram um movimento pedindo para não ter mais cantos homofóbicos. Tinham alguns cantos que hoje em dia as letras das músicas foram modificadas para não continuar tendo partes homofóbicas", contou Roberto.

Tais ações do Vasco, de sua torcida e o gesto histórico de Cano foram reconhecidos no mundo todo e servem de exemplos até para os rivais.

''Eu costumo falar assim, o pessoal até ri. Eu sou botafoguense de coração, roxo. Mas, a gente tem muito a seguir a exemplo da torcida do Vasco. É uma maravilha. É maravilhoso. O clube apoia, o clube incentiva, o clube abraçou a torcida LGBT deles. Se o Botafogo fizesse pelo menos 10%, a gente ficaria feliz'', disse Cristian Ariano, fundador da Ninguém Cala Esse Nosso Amor, coletivo do Botafogo.

Clubes: aliados ou 'adversários'?

Muito provavelmente seu time do coração, seja lá qual for, fará uma postagem alusiva ao Dia do Orgulho LGBTQ+ neste 28 de junho. Uma posição importante, claro, mas a falta de ações concretas dos clubes no apoio de seus torcedores e torcedoras desses grupos foi um ponto comum de quase todos os coletivos entrevistados pela ESPN .

"Não adianta você simplesmente colocar no telão do estádio se o clube não põe em prática. O Corinthians só faz alguma coisa em datas. Temos o Dia do Orgulho e o Mês do Orgulho. O clube faz um post e fica por isso mesmo", diz Yago Gomes, da Fiel LGBT.

"O que eles fazem basicamente são publicações, que são importantes, são sempre importantes para mostrar algum posicionamento, mas isso acaba sendo aquém do que poderia ser feito. Principalmente para uma torcida que é muito grande", pondera Maurício Tosta, da Fla Gay, do Flamengo .

"Eu ainda vejo que é uma questão de medo de punições financeiras. Olha, não vamos falar isso senão a gente perde dinheiro. Não necessariamente por uma questão de respeito ao outro, a vida do outro. A gente não tem uma relação com o Palmeiras", diz Thais Nozue, da Palmeiras Livre.

"A gente achou que teríamos efetivamente o apoio do Botafogo e não tivemos. A gente não tem nada colorido a não ser a nossa torcida. A gente só ver o clube publicar uma 'artezinha' nas datas especiais. Ação efetivamente mesmo a gente não tem", declarou Cristian Ariano.

As exceções nesse aspecto, ao menos, não se restringem a Bahia e Vasco. O Cruzeiro também foi elogiado por sua postura com as Marias de Minas.

"Hoje a nossa interação com o Cruzeiro é muito tranquila. A gente consegue dialogar com o clube, propor ações, fazer ações em conjunto, trocamos muita ajuda nessa troca de contatos", disse Yuri Senna, que ajudou a promover o 1º Seminário de combate a LGBTQIA+fobia no futebol mineiro, em uma parceria da torcida com o Mineirão e com o clube celeste.

Futebol feminino vira 'alternativa' para coletivos

Se o ambiente do futebol masculino é descrito como tóxico para a maioria desses coletivos, a modalidade feminina tem sido uma espécie de "refúgio" e local de liberdade para manifestação dos grupos.

"É completamente diferente. As jogadoras vêm até nós, tiram foto. No jogo da final (do Campeonato Paulista de 2022) contra o Santos, tinha uma pessoa fazendo xingamentos misóginos, e a própria torcida pediu para parar. É um desrespeito com todo mundo ali. É um outro ambiente. É muito mais acolhedor. A gente vai sem medo. Penduramos nossa bandeira no Allianz", contou Thaís, da Palmeiras Livre.

"O futebol feminino é muito mais aberto, muito mais receptivo. A gente percebe demonstrações de afeto entre torcedoras lésbicas e bissexuais. Os jogos são com menos torcidas, algumas pessoas com posicionamentos mais progressistas. Por isso que a gente percebe que o ambiente do futebol feminino é mais seguro. A gente percebe uma liberdade maior", disse Vinícius, da Porco íris.

"O próprio futebol feminino era um tabu para algumas pessoas e o que representamos também é um tabu para outras. Querendo ou não, o feminino se torna um lugar mais acolhedor, porque são duas minorias dentro do esporte que sabem e que passam por algum tipo de preconceito. O ambiente dentro dos jogos do futebol feminino é menos hostil que o masculino por essas questões", opina Yago, da Fiel LGBT.

Um sonho para o futuro

Para a grande maioria dos torcedores, ir ao estádio assistir seu time do coração é apenas uma questão de comprar o ingresso. Para nem todos os grupos LGBTQ+ é assim hoje. Ser reconhecido por aqueles que tem a mesma paixão que você no estádio, como acontece com as torcidas de Bahia ou Vasco, deveria ser o usual, só que essa realidade ainda parece distante para a maioria dos coletivos.

Mas é possível imaginar um futebol livre da LGBTfobia ou qualquer outro tipo de preconceito no Brasil?

"Eu costumo brincar que o sonho da Marias de Minas é não existir mais, porque significa que não vamos precisar combater a LGBTfobia no futebol. Esses projetos e movimentos sociais como um todo nascem porque enxergamos a falha do poder público na atuação daquela dor", declarou Yuri.

"Mas se é um futuro que ainda a Marias de Minas precise estar, que seja um futuro que a gente consiga trabalhar com ações que vão gerar transformação e que não fiquemos só fazendo post de redes sociais e só falando do mês da causa, do orgulho e de combate à LGBTfobia, que seja um assunto recorrente, que consigamos naturalizar a presença das pessoas LGBTQ+ no futebol, que a gente consiga ao máximo atingir todas as atmosferas e as camadas do futebol, seja ela torcida, clube, administrativo, jogadores, futebol feminino, atletas da base, que a gente consiga atingir todo mundo para fazer esse papel de conscientização e educação", completou o cruzeirense.

"O nosso maior desejo é ocupar uma parte do Allianz (Parque) e ser respeitado. Sem medo e sem violência. Estamos com uma ação para junho, estaremos nos estádios e vamos mostrar a nossa estadia ali", contou Thaís, do Palmeiras Livre. "Queremos acolher mais pessoas e mostrar que podemos torcer sem medo. Vamos filmar e mostrar que estamos lá para quebrar esse tabu de que LGBT não gosta de futebol ou só pode torcer para time x ou y. Esse é nosso desejo, mostrar quem somos sem medo."

A ação citada por Thaís aconteceu no último domingo, dia em que o Palmeiras jogou no Allianz Parque tanto com o time feminino (derrota para o São Paulo por 3 a 1), quando masculino (1 a 0 para o Botafogo ). O coletivo assistiu às partidas junto da arquibancada e estendeu sua bandeira.

"A gente quer somar. A gente quer construir. Acham a gente está querendo privilegio, que a gente quer vantagem. Não é. É apenas o mesmo direito do outro. Poder sair. Frequentar os mesmos espaços. Beijar na boca. Andar de mão dada. Ter família. Ser reconhecido. Conseguir um emprego digno. Terminar os estudos. A gente não quer nada diferente de ninguém", afirmou o botafoguense Cristian Ariano.

"Eu espero que a Vozão Pride no futuro seja necessária só para a gente continuar contribuindo com a comunidade, especialmente com pessoas em situação de rua, sem abrigo. E para que a gente seja visto como uma família na arquibancada. Uma família que recebe todos e todes, que a gente não exista mais para ter ficar denunciando ou ter que ficar alarmando a situação de LGBTfobia para que não existam mais essas situações de LGBTfobia", afirmou Ana Beatriz Monteiro, da Vozão Pride, coletivo LGBT do Ceará .

"Eu não quero ser lembrado como LGBT somente nas datas alusivas. Eu fiz um vídeo muito importante para o Paysandu sobre o orgulho ser Paysandu e o orgulho de ser LGBT. Eu acho que falta um pouco mais de conversa. A minha ideia é que futuramente a gente possa sentar e conversar sobre a ideia da construção de uma camisa em alusão ao orgulho LGBT. Como fez o Vasco, a exemplo do que fez o Bahia, a exemplo do que fizeram outros coletivos aí", pontou Gleyson Oliveira, da Papão Livre.

"A nossa luta é para que haja essa inclusão, para que haja segurança para as pessoas serem quem elas são e não terem medo de se expressar", disse Yago Gomes, da Fiel LGBT.

* Colaborou Luiza Boareto