Paulo Victor; Wellington Silva, Renato Santos, Marcos González e Ramon; Amaral e Cáceres; Adryan (Wellington Bruno), Mattheus e Nixon (Paulo Sérgio); Vagner Love.
Essa foi a escalação que o técnico Dorival Jr usou no jogo contra o Botafogo , pela 38ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2012.
Foi o último jogo do Flamengo naquele ano, que terminou com o Rubro-Negro em uma nada honrosa 11ª colocação do Brasileiro, a 27 pontos do campeão Fluminense .
Fast forward para sete anos depois.
Diego Alves; Rafinha, Rodrigo Caio, Pablo Marí e Filipe Luís; William Arão, Gerson (Diego), Everton Ribeiro e Arrascaeta (Piris da Motta); Bruno Henrique (Vitinho) e Gabigol.
Essa foi a escalação que o treinador português Jorge Jesus colocou em campo no Maracanã na goleada por 5 a 0 sobre o Grêmio , que recolocou o Fla na final da Libertadores após um hiato de 38 anos.
Uma equipe recheada de craques de nível internacional e com passagem por seleção brasileira.
Um elenco caro, mas extremamente competitivo, e que no momento lidera também o Brasileirão com 13 pontos de vantagem para o 2º colocado a cinco jogos do fim - ou seja, virtualmente campeão.
Neste sábado, o Fla entra em campo contra o River Plate , às 17h (de Brasília), no Estádio Monumental de Lima, no Peru, não só em busca de seu 2º título de Libertadores na história.
No duelo contra o temível clube argentino, que é o atual campeão continental, o clube da Gávea tenta consagrar o incrível processo de reconstrução esportiva e estrutural pelo qual o clube passou nos últimos sete anos.
Na capital peruana, o time rubro-negro quer provar que, quando as coisas são feitas da forma correta no futebol, os frutos são colhidos a longo prazo, apesar de alguns percalços no caminho.
A ERA EDUARDO BANDEIRA DE MELLO
Em 3 de dezembro de 2012, dois dias depois do jogo contra o Botafogo citado no início desta matéria, o Flamengo teve eleições presidenciais.
No pleito, o empresário Eduardo Bandeira de Mello, que contava com o apoio de Zico, foi eleito com larga vantagem sobre seus concorrentes: a então mandatária Patrícia Amorim e o opositor Jorge Rodrigues.
Com experiência de quase três décadas trabalhando para o BNDES (Bando Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Bandeira colocou uma grande meta para sua administração: reestruturar a dívida do clube e recolocar o Flamengo no patamar de grandeza de outras épocas.
Para isso, montou um especializada em finanças, com nomes como Luiz Eduardo Baptista, o "Bap", como vice-presidente de planejamento e marketing , e Carlos Langoni, ex-Banco Central, para o Comitê de Finanças e Reestruturação da Dívida.
Além deles, Rodolfo Landim (vice de patrimônio), Alexandre Póvoa (vice de esportes olímpicos), Gustavo Oliveira (vice de comunicação), Rodrigo Tostes (vice de finanças) e Cláudio Pracownik (vice de administração e TI) também fizeram parte da diretoria inicial da "era Bandeira de Mello".
A gestão do empresário durou seis anos, indo até dezembro de 2018. Neste período, muitos obstáculos apareceram pelo caminho, houve rusgas entre os membros da direção e muitas trocas de cargos foram feitas. Mas o objetivo final foi alcançado.
Em seis anos, com uma política de gastos e controle de dívida extremamente responsável, além de investimentos certeiros no departamento de futebol, no programa de sócio-torcedor e na busca de melhores contratos de patrocínio, o Fla reestruturou sua área fiscal e foi se transformando, ano após ano, em uma potência financeira.
Ao mesmo tempo, a equipe fez excelentes vendas de jogadores das categorias de base, como Vinicius Jr. e Lucas Paquetá, negociados por valores milionários com Real Madrid e Milan, respectivamente.
Para ilustrar com números: a temporada 2012, última sem Bandeira, fechou com faturamento de R$ 212 milhões, apenas o 6º maior do Brasil, e um déficit de R$ 60,5 milhões.
Já em 2018, último ano do ex-presidente, a receita foi de R$ 543 milhões, a 2ª maior do país, e o balanço fechou com superávit de R$ 45,8 milhões, também o 2º melhor resultado de toda a Série A.
No aspecto esportivo, porém, a "era Bandeira" foi marcada por insucessos.
Durante os seis anos de gestão, foram apenas três títulos: uma Copa do Brasil, e na época em que o torneio ainda não tinha as premiações milionárias de hoje em dia, e dois Campeonatos Cariocas.
Para piorar, a torcida ainda sofreu com as provocações de adversários, que criaram a expressão do "cheirinho de título", ironizando o fato de que o Fla ficou perto de algumas conquistas, como os Brasileiros de 2016 e 2018, a Copa do Brasil de 2017 e a Copa Sul-Americana de 2017, mas viu seus rivais levarem a melhor.
Além disso, seguidos insucessos na Libertadores, inclusive com eliminação ainda na fase de grupos, deixavam os fanáticos cada vez mais ressabiados.
Ao final de sua gestão, porém, Bandeira sinalizou que não se arrependia de nada do que foi feito e sinalizou que, após a reestruturação financeira promovida por sua diretoria, os frutos seriam colhidos num futuro breve.
"Quando a gente chegou, o Flamengo brigava para não cair todo ano. Agora, nós estamos sempre disputando nas cabeças", disse.
Ao final de seu trabalho, Bandeira entregou o Flamengo com receita crescente, dívida totalmente controlada e ainda R$ 100 milhões disponíveis para investimentos em reforços.
O insucesso esportivo, porém, acabaria sendo decisivo na próxima eleição...
A ERA LANDIM
Em 9 de dezembro de 2018, o opositor (e ex-aliado) Rodolfo Landim, ganhou a eleição presidencial sobre Ricardo Lomba, que era o candidato apoiado por Bandeira.
De cara, ele anunciou a chegada do técnico Abel Braga e fez pesados investimentos em contratações.
Vieram em definitivo nomes como Arrascaeta (R$ 63,7 milhões), Vitinho (R$ 43 milhões), Bruno Henrique (R$ 23 milhões), Piris da Motta (R$ 26 milhões) e Rodrigo Caio (R$ 22 milhões).
Gabigol chegou com o salário de R$ 1 milhão por mês, um dos maiores do Brasil, enquanto os laterais Rafinha e Filipe Luís teoricamente reforçaram o Fla "de graça", mas recebendo uma boa quantia em luvas, que serão diluídas ao longo do contrato.
E os investimentos deram certo. Após a saída de Abel Braga, com quem a equipe não engrenava, e a chegada de Jorge Jesus, o time rapidamente se entrosou e passou a jogar um futebol ofensivo e letal, goleando adversários em série e chegando à liderança do Brasileirão e à final da Libertadores.
Por conta dessas contratações, o Fla aumentou seu endividamento em R$ 80 milhões, e até planeja desacelerar os gastos para voltar a controlar as contas em 2020. Todavia, o presidente do clube, Rodolfo Landim, afirma que a estratégia de sua diretoria deu certo, apesar dos "investimentos de risco".
"Nós fizemos investimentos pesados e foram investimentos de risco. Na verdade, nós fizemos contratações, e o pagamento desses jogadores a gente vai fazer ao longo de dois ou três anos. Se a gente errasse nas contratações, seria um grande problema, porque nós certamente teríamos que vender esses jogadores e contratar outros, caso eles não tivessem dado certo. Então, o principal risco foi esse", disse, em entrevista à ESPN , em Lima.
"Mas, de resto, o equacionamento em função das receitas previstas está feito. Nos próximos dois, três anos, são jogadores que estão aí contratados até o final de 2021, pelo menos. A gente esperava um certo aumento de receita pela melhoria de desempenho, e isso está ocorrendo", acrescentou.
"Nós conseguimos melhorar o sócio-torcedor, ampliar a receita de bilheteria, já estamos tendo propostas de patrocínio para o clube em valores maiores. É aquele ciclo virtuoso que a gente acreditava que podia criar tendo um Flamengo na mão, com essa torcida maravilhosa. E, de fato, é o que está acontecendo", complementou.
Vale lembrar que, nos primeiros nove meses de 2019, a receita acumulada do Rubro-Negro foi de R$ 652 milhões, podendo atingir um valor estratosférico ao final da temporada, caso venham ainda os prêmios pelos títulos nacional, continental e, quem sabe, mundial.
No fim das contas, Landim pode até ficar com os louros da vitória se empilhar as taças da Libertadores e do Brasileiro, mas a torcida do Flamengo mostrou reconhecer a importância de Bandeira de Mello no processo.
Na última sexta-feira, o ex-presidente, que não foi convidado pela diretoria atual para a decisão da Libertadores, chegou a Lima como torcedor comum e foi ovacionado por fanáticos rubro-negros ao passear por um shopping da cidade.
"P* que o pariu, é o melhor presidente do Brasil, Bandeira!", gritaram.
Sem querer aparecer, ele disse apenas uma frase em resposta.
"Me sinto muito bem (por ser festejado), porque faço parte dessa torcida. É uma manifestação de carinho que me deixa muito feliz", afirmou, antes de sumir em meio à multidão.