Entre Messis, Dembelé e Drogba, Série C do Rio vive dos sonhos que não acabam no futebol

Trinta anos depois de montar o Palmeiras bicampeão brasileiro, José Carlos Brunoro desce da tribuna no intervalo de partida de Bangu, no estádio de Moça Bonita. Revoltado com a arbitragem, o atual diretor de futebol do Zinza FC não se aguentou e trocou ofensas com o delegado da Ferj no empate contra o Paraty.

Era só mais uma rodada da Série C do Campeonato Carioca, a quinta divisão da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ) . Série que tem dois Messis, um Drogba, Dembelé, Huck, Puyol, Kanté e Casemiro, entre outros apelidos de peso na última divisão do futebol estadual .

Drogba, a 2 no calção, e Jorge (9, de branco) durante partida do Paraíba do Sul contra o Itaboraí Profute em Xerém pela série C carioca — Foto: André Durão
1 de 19 Drogba, a 2 no calção, e Jorge (9, de branco) durante partida do Paraíba do Sul contra o Itaboraí Profute em Xerém pela série C carioca — Foto: André Durão

Drogba, a 2 no calção, e Jorge (9, de branco) durante partida do Paraíba do Sul contra o Itaboraí Profute em Xerém pela série C carioca — Foto: André Durão

Pequeno torcedor na série C do Rio, em Xerém — Foto: André Durão
2 de 19 Pequeno torcedor na série C do Rio, em Xerém — Foto: André Durão

Pequeno torcedor na série C do Rio, em Xerém — Foto: André Durão

Quando é notícia, a competição chama atenção pelo São Cristóvão, que deu volta olímpica no estádio Ronaldo Nazário em espécie de primeiro turno. Ou pelas suspeitas de manipulação no futebol, que culminou no afastamento de três clubes nessa segunda pela Ferj . Num fio que ainda vai se desenrolar em tribunais desportivos e investigações policiais iminentes.

A fase inicial tem 121 partidas previstas - termina neste fim de semana, mas 32 ao todo não vão acontecer. Ao menos sete times foram excluídos ou não disputaram jogos agendados - não só pelas suspeitas de manipulação, mas também por não cumprirem requisitos mínimos, como a regularização de 11 atletas profissionais, por não contratar ambulância obrigatória para o jogo de futebol no estádio ou por não quitarem o borderô dos jogos, que geralmente varia de R$ 5 mil a R$ 9 mil por jogo . Sempre de prejuízo aos clubes, é claro.

Súmula de jogo cancelado na Série C. Relação de jogadores não foi entregue. Brasileirinho terminou afastado pela Ferj — Foto: Reprodução
3 de 19 Súmula de jogo cancelado na Série C. Relação de jogadores não foi entregue. Brasileirinho terminou afastado pela Ferj — Foto: Reprodução

Súmula de jogo cancelado na Série C. Relação de jogadores não foi entregue. Brasileirinho terminou afastado pela Ferj — Foto: Reprodução

Estádio Romário de Souza Faria, o Marrentão, num dos jogos da Série C — Foto: Andre Durão
4 de 19 Estádio Romário de Souza Faria, o Marrentão, num dos jogos da Série C — Foto: Andre Durão

Estádio Romário de Souza Faria, o Marrentão, num dos jogos da Série C — Foto: Andre Durão

— Para se inscrever na CBF, custa mais ou menos R$ 600 mil. Na Ferj, da primeira vez, R$ 200 mil. É muita coisa. Não sei se precisaria cobrar isso. Mas em parte eles têm razão. Se o cara vai gastar R$ 600 mil, ele não vai largar a competição — avalia Brunoro, que montou sua equipe com o apoio do presidente Renato Villarinho, que foi seu jogador de vôlei na Pirelli nos anos 1980.

José Carlos Brunoro discute com dirigente da Ferj: ele é diretor do Zinza FC — Foto: André Durão
5 de 19 José Carlos Brunoro discute com dirigente da Ferj: ele é diretor do Zinza FC — Foto: André Durão

José Carlos Brunoro discute com dirigente da Ferj: ele é diretor do Zinza FC — Foto: André Durão

Presidente do Zinza, Brunoro e Djalminha na rua Figueira de Melo, na partida entre São Cristóvão e Zinza FC — Foto: Raphael Zarko
6 de 19 Presidente do Zinza, Brunoro e Djalminha na rua Figueira de Melo, na partida entre São Cristóvão e Zinza FC — Foto: Raphael Zarko

Presidente do Zinza, Brunoro e Djalminha na rua Figueira de Melo, na partida entre São Cristóvão e Zinza FC — Foto: Raphael Zarko

A última rodada de classificação, com quatro avançando de cada fase, vai definir os últimos a avançar na competição. Apenas dois times sobem. Além do São Cristóvão, estão garantidos na fase final Itaboraí Profute, Zinza, Juventus, Uni Souza e Campos.

O ge acompanhou in loco nas últimas semanas algumas partidas da competição. Com público bem reduzido, em estádios acanhados - levantamento do site Acesso Carioca apontou 119 torcedores em média por jogo numa das rodadas de maior movimento.

Gilcimar, Messi e Dembelé na Série C do Rio: jogadores do Paraty — Foto: André Durão
7 de 19 Gilcimar, Messi e Dembelé na Série C do Rio: jogadores do Paraty — Foto: André Durão

Gilcimar, Messi e Dembelé na Série C do Rio: jogadores do Paraty — Foto: André Durão

A reportagem conversou com dirigentes envolvidos na competição e entrevistou sete atletas - leia mais abaixo breve depoimento de cada um . Numa competição sub-23, com exceção de cinco permitidos por equipe acima da idade - um deles é Bruno, ex-goleiro do Flamengo, que defende o Atlético Carioca -, são jovens, a maioria negros e moradores da Baixada Fluminense que conciliam a atividade com outra profissão. Mas nunca deixam de sonhar.

Bruno defende o Atlético Carioca na Série C. Desde 2019, saiu da prisão em regime semiaberto. Hoje, vive em liberdade condicional — Foto: Clever Felix/Atlético Carioca
8 de 19 Bruno defende o Atlético Carioca na Série C. Desde 2019, saiu da prisão em regime semiaberto. Hoje, vive em liberdade condicional — Foto: Clever Felix/Atlético Carioca

Bruno defende o Atlético Carioca na Série C. Desde 2019, saiu da prisão em regime semiaberto. Hoje, vive em liberdade condicional — Foto: Clever Felix/Atlético Carioca

— Se pegar os jovens que ainda podem chegar a time grande, os médios de idade, os veteranos que de repente não chegaram e ainda podem ter nova chance... Mas sempre é um sonho. Um sonho de alcançarem algum lugar — define Brunoro, hoje com 73 anos, mas plenamente dedicado ao time da marca de roupa Zinzane. Um projeto ambicioso inspirado no Red Bull Bragantino

Se não faltam problemas e está sempre no ar suspeitas de ilegalidades sobre apostas, sobra também esperança. Lelê é o caso mais recente de jogador revelado na Série C estadual que conseguiu dar salto na carreira. Mas Chay, ex-Botafogo, hoje no Ceará, e Edu, ex-Cruzeiro, são outros exemplos.

— A nossa intenção é promover também a carreira desses meninos. O Dembelé mesmo está com pré-contrato para Portugal. Tem clube de olho nele. E a coisa acontece. Aconteceu com o Lelê aqui na Série C e ele foi embora. Olha onde ele está! Existe a perspectiva de muita coisa boa com esses garotos com nomes de craques — conta Alan Ducasble, presidente do Paraty.

O regulamento da competição prevê a inscrição de até seis jogadores não profissionais (amadores), que muitas vezes recebem baixas ajudas de custo. Para jogadores sob contratos curtos - a competição termina em agosto -, a regra é ao menos um salário-mínimo (R$ 1.320,00). Mas há exceções, é claro, com jogadores recebendo acima desse "teto". Também não é raro relatos de jogadores serem enganados e não receberem seus salários ou ajuda de custo.

O ge apresenta abaixo depoimentos de alguns desses sonhadores da bola. Parecidos e tão distantes um dos outros. Retrato de uma competição quase invisível que tenta seguir o lema "Nada nos para", do campo do Marrentão, em Xerém, a poucos metros do centro de treinamento do Fluminense, clube que tanto revela e tanto muda a reallidade de tantos garotos com o futebol.

Jogadores do Paraíba do Sul rezam no vestiário na série C do Rio — Foto: André Durão
9 de 19 Jogadores do Paraíba do Sul rezam no vestiário na série C do Rio — Foto: André Durão

Jogadores do Paraíba do Sul rezam no vestiário na série C do Rio — Foto: André Durão

Gilcimar, o amante da bola

"Eu me chamo Gilcimar Chaves Caetano. Sou atacante de área, antigo pivô, mas a gente consegue jogar um pouquinho fora da área. A gente não tem muita dificuldade não (risos). Estou com 42 anos. Sou um dos mais cascudos aí. Jogo no Paraty.

Eu tinha encerrado a carreira em 2019. Meu último clube foi o Macaé. E eu voltei a convite do doutor Alan (presidente do Paraty). Estava no Petrópolis na comissão técnica e aí eu decidi aceitar esse desafio. Porque a gente ama, a gente respira futebol. Não pensei duas vezes. Vi a oportunidade de voltar a jogar, de viver uma experiência que parece antiga, mas, ao mesmo tempo, é nova. Por ser o mais velho, você tem que passar algumas coisas para os mais novos. Então isso é algo me motiva muito e eu estou muito entusiasmado, muito motivado para deixar um legado para essa garotada mais nova aí. Para a gente poder passar pela vida de alguém e não deixar cicatriz, mas deixar uma marca positiva.

Sou nascido em Belford Roxo, sou cria de Belford Roxo. Joguei pouco base. Eu gostava muito de baile funk na época (risada). E aí nós tínhamos um time chamado Chapa Alto Funkeiro, fomos jogando futebol, as coisas foram acontecendo. Devido eu ter um porte físico avantajado, alguns empresários foram ver os jogos do meu time para ver outro jogador, chegaram lá e se interessaram por mim e aí as coisas começaram a acontecer. Fui para o Itaperuna, São Cristóvão, Madureira e segui minha carreira.

Joguei primeira, joguei segunda e tô jogando essa Quintona aí (risos). A Série C é a primeira vez. A gente encontra um pouco de dificuldade. A gente vem de uma outra realidade. A estrutura é um pouco meio... dificultosa, mas isso que te dá mais motivação a continuar, cara. A gente é que nem camaleão, se adapta ao ambiente.

Aqui a gente tem uma garotada muito boa. Obediente. Tem um futuro brilhante. A gente vai ver já, já no cenário nacional, jogando nas elites do futebol brasileiro, até fora do país. Vão pegar uma casca, vão maturar, que é normal. Essa própria divisão ela dá essa experiência para o atleta poder ir desenvolvendo para quando chegar lá em cima já chegar maturado, sentindo um pouquinho das pressões. Então já vão chegar lá em cima forjado.

Voltar a atuar em campo, para mim, foi mais gritante. Acelerou meu sangue, meu batimento. Mas é só essa competição e depois eu encerro oficialmente e vamos seguir novos caminhos. (Os gritos contra ele pela forma física) Ah, pô, se você já jogou no Maracanã com trinta mil, já joguei em monte de estádio, vou ficar me preocupando com papo que meia dúzia fala? Isso é normal. Você tem que pegar isso como eu elogio. Porque você pega jogadores aí mais novos que não jogaram o tanto que eu joguei. Isso não me fere nem me deixa chateado não. Sou um cara bem maduro em relação a isso. Mas sempre fui um cara bem forte. Meu biotipo sempre foi um cara forte. Então isso aí pra mim é algo que a gente mata no peito e bola pra frente.

São 22 anos de carreira e eu rodei um cadinho. Joguei em Goiânia, joguei no Vila Nova, no ABC de Natal, Ipatinga, no Audax de São Paulo. Joguei em Dubai, na China, na Polônia. Rapaz, sou grato a Deus e ao futebol pela oportunidade que o futebol me deu. Joguei na maioria dos clubes do Rio. E graças a Deus fui sempre bem aceito nos clubes onde passei. Sempre deixei um legado. Sou muito feliz com o futebol e estou feliz hoje de estar aqui no Paraty.

Gilcimar na Série C do Rio: jogador do Paraty — Foto: André Durão
10 de 19 Gilcimar na Série C do Rio: jogador do Paraty — Foto: André Durão

Gilcimar na Série C do Rio: jogador do Paraty — Foto: André Durão

Até falei para a minha esposa esses dias: “você casou foi com um jogador de futebol”. Eu amo futebol. Eu amo viver do futebol. Mesmo sabendo que quando você para é difícil as pessoas abrirem a porta para você. Então você tem que se capacitar, você tem que procurar se adaptar ao novo sistema que o futebol requer hoje. Mas eu sou muito feliz com o futebol e feliz por dar uma entrevista para vocês hoje porque o futebol te proporciona viver isso: ser lembrado.

Eu sou realizado. Porque todo menino quando começa jogar futebol no campo de várzea, qual que é o sonho dele? Jogar no Maracanã. Eu joguei no Maracanã. Fiz gol no Maracanã. Então sou realizado. O futebol me deu casa, me deu carro, me deu oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas.

Fiz contra o Fluminense no Maracanã em 2014 pelo Boavista. Cruzamento do Carlos Alberto, entrei de cabeça e fiz. Teve também contra o Flamengo no Engenhão. Meu amigo Edson leva a bola no fundo, cruza e eu dou um carrinho. Não tenho do que reclamar, está marcado. Fui o primeiro do meu bairro da minha cidade a jogar no Maracanã e fazer gol. Sou um cara predestinado. Deus me escolheu para estar lá.

Eu tenho duas filhas lindas: Tifany e Estefani. E a minha esposa Eliane. São as minhas razões de viver. Eu até disse no vestiário que Deus me proporcionou a oportunidade da minha filha mais nova me ver jogar. Vai ter a oportunidade antes de eu encerrar, de levar ela no estádio. Sou grato. A Estefani viu, viajou para fora, já foi no Maracanã me ver. Mas a Tifany nasceu agora, tem quatro anos, não me viu. Agora vai ter a oportunidade de ver o paizão dela, o vovô (risada) encerrando a carreira".

Jorge, do lava jato para as redes

"Meu nome é Jorge Luiz da Silva Mariz. Meu apelido é Jorginho. Sou atacante do Itaboraí Profute, ponta esquerda, jogo também pela ponta direita, mas gosto de entrar sempre no facão. De vez em quando, caio no centroavante. Eu não fico parado. Fico me mexendo ali. Tenho 22 anos, fiz agora no dia 29 de maio. Sou de Mesquita, perto de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro.

Eu comecei a jogar com 16 anos no Itaboraí Profute. Fui fazendo teste e passei. Já subi para o profissional com 16 anos. Dali, eu fui, viajei, fui para Londrina, depois Espírito Santo, São Paulo, Minas Gerais, em Santa Catarina, fui para a Bolívia também. Agora voltei para poder jogar esse Campeonato Carioca Série C.

Eu conheci o Lelê na época que ele estava jogando aqui, eu era reserva dele. Tenho 1,66m. Hoje (no jogo), fiz o gol que pode garantir a nossa classificação. O Lelê falou comigo, me deu os parabéns. Falou para continuar assim, jogando desse jeito, indo para cima que coisas boas virão.

Jorginho dispara em ação pelo Itaboraí Profute na série C do Rio: ele recebeu cumprimento de Lelê pelo gol e pela partida — Foto: André Durão
11 de 19 Jorginho dispara em ação pelo Itaboraí Profute na série C do Rio: ele recebeu cumprimento de Lelê pelo gol e pela partida — Foto: André Durão

Jorginho dispara em ação pelo Itaboraí Profute na série C do Rio: ele recebeu cumprimento de Lelê pelo gol e pela partida — Foto: André Durão

É como o treinador fala sempre, quando a gente está reunido lá, ele sempre fala que é para a gente se inspirar nele. Que ele saiu daqui e foi para um lugar... o topo da tabela. Para a gente continuar assim que vão sair muitos jogadores daqui do nosso time.

Temos que dar o máximo para poder sair para uma coisa melhor, entendeu? Aqui é a quinta divisão, é a última. Não tem como tu sair daqui e descer mais. Então, tem que ter o pensamento de se levantar, de subir, de crescer, de sempre se doar em campo, dar o melhor para poder conseguir algum objetivo.

Eu sempre trabalhei. Eu nunca deixei de trabalhar. Eu vou para o treino, chego do treino, eu tenho o meu lava jato, que eu abro. Chego do treino, vou trabalhar, nunca fico parado em casa. Depois vou descansar para no outro dia treinar de novo. Minha vida é assim: treino, trabalho, jogo. E é assim até eu conseguir o objetivo que eu quero, que é pegar um time de Série A, que é pegar uma primeira divisão.

O lava jato é meu. Eu administro sozinho. Nunca gostei de ficar parado, de ficar dependendo dos outros, até porque eu não tenho empresário, não tenho nada. Então, eu mesmo corro atrás do meu. Até para ter o que eu quero. Eu moro com meus pais, com meus três irmãos. Um é do quartel e as outras são duas irmãs. Meu pai jogou. Meu tio já foi jogador profissional. Já viajou para Portugal, outros clubes por aí. Todo mundo da família joga uma bolinha (risos).

Já fiquei seis meses na Bolívia. Meu treinador do Itaboraí Profute me levou para um projeto com alguns jogadores brasileiros. Eu fui nessa barca também. Fique lá, passei Natal, Ano Novo lá. Éramos sete brasileiros. Aí a gente jogou torneio internacional na Bolívia contra equipes grandes como The Strongest, a seleção boliviana também. Lá estava com cinco jogos e oito gols. A gente chegou até a semifinal do torneio internacional. Aí acabou esse torneio, a gente veio embora.

Morei na cidade chamada Entre Ríos. Era um pouquinho alto, mas não chegava a ser muito não. Mas era um pouquinho (risos). Senti um pouquinho no início, mas depois pegou ritmo e fomos embora (risos). Morar fora ao mesmo tempo era uma coisa boa porque já estou acostumado. Porque desde os dezessete anos estou viajando para lá, para cá. Então já estava acostumado já e foi mais de boa. Negócio foi que fui para muito longe, mas foi tranquilo. Mas lá era só futebol. Viagem assim é só futebol. Negócio de trabalho e treino é só aqui que tenho os meus negócios, entendeu?

(Tem salário mínimo?) É meio complicado um pouco, mas é trabalhar para conseguir ir para um lugar melhor.

Meu ídolo? Eu gosto mais do Vinícius Júnior por causa do estilo de jogo, de ir para dentro e me espelho mais nele hoje em dia. Fico vendo os vídeos dele. Sempre pego nisso de pegar e ir para cima.

Eu miro ter algo melhor para mim. Tirar minha família de lá da comunidade. Botar numa Barra... ter minha casa própria, entendeu? Ter o meu conforto, esses negócios assim. Ter algo melhor para a minha vida."
Lelê, de folga, foi prestigiar o antigo companheiro de Itaboraí — Foto: Reprodução
12 de 19 Lelê, de folga, foi prestigiar o antigo companheiro de Itaboraí — Foto: Reprodução

Lelê, de folga, foi prestigiar o antigo companheiro de Itaboraí — Foto: Reprodução

Drogba, do olho no açougue para xerifão

"Meu nome é Alexandro Saraiva Braz da Silva e meu apelido é Drogba. Porque quando eu comecei mesmo a jogar, lá em 2018, 2019, pelo Esporte Clube São José, de Miracema, eu jogava em outras funções também. De meia ou de atacante. E estava sempre fazendo gol. Por causa disso, ele mesmo me apelidou de Drogba. Agora, como fiquei dois anos parado, estava faltando jogador do setor de marcação, aí eu pulei para lá para a zaga.

Eu tenho 27 anos, sou nascido e criado em Juiz de Fora. Sou jogador do Paraíba do Sul.

Para jogar, já passei um tempo em Bicas (MG), passei algum tempo aqui no Rio de Janeiro. Antes da pandemia, eu estava vindo numa campanha muito boa, jogando na minha função, que é a lateral esquerda. Eu estava combinando de ir embora, de ir para a Croácia. Só que, infelizmente, no dia que eu ia conversar com o rapaz que ia me levar embora, deu lockdown. Aí meio que parei de jogar. Aí fiquei só mesmo na comunidade lá.

Minha função mesmo é lateral-esquerdo. Me coloca lá para você ver (sorri). Mas eles gostam de me aproveitar ou no ataque ou na defesa por causa da minha altura. Minha altura é 1,87m.

Antes de eu voltar a jogar, eu estava trabalhando na gerência de um açougue. Aí abri mão para poder voltar. Consegui conciliar um pouco, só que depois começou o campeonato e tinha que viajar, aí tive que sair.

Drogba toca a bola na partida entre Paraíba do Sul e Itaboraí Profute pela série C  — Foto: André Durão
13 de 19 Drogba toca a bola na partida entre Paraíba do Sul e Itaboraí Profute pela série C — Foto: André Durão

Drogba toca a bola na partida entre Paraíba do Sul e Itaboraí Profute pela série C — Foto: André Durão

Moro com a minha mãe, meu irmão e o namorado da minha mãe. Eles gostam de me ver em campo. Quando tem transmissão eles acompanham de lá. Mas acho que voltei mais por causa deles do que por minha causa. Porque eles são meus fãs também (risos). E a família incentiva a gente querendo ou não. E por eles ganho força para vir jogar.

Eu tenho Ensino Médio completo, fiz dois cursos de administração profissionalizante, preparatório e também já fiz curso de jardinagem, essas coisas assim também. Mas só por hobby.

Aqui, no time, a gente está crescendo junto, caminhando junto, basicamente já sei o que falar com cada um. Uma coisa que tenho de bom, que acho que é meu, é que sou muito observador. Aí eu sei basicamente o que vou falar com cada um ali. A gente é basicamente uma família, é um pelo outro. A gente discute, a gente briga, isso é do futebol. Isso que está trazendo nosso time aqui para dentro do campo, a gente corre o tanto que a gente corre. Infelizmente, tem partidas aí que o dia é escuro, mas é assim mesmo. Futebol é isso.

O meu ídolo de infância, por obra do acaso, era justamente o Drogba. Para você ter noção, quando eu era pequenininho, quando ia jogar bola na rua, colocava a camisa do Costa do Marfim por baixo com o nome dele. Na lateral eu gosto muito do Marcelo. E também do Roberto Carlos.

Eu sou evangélico. Terça e sexta vou na igreja. Com 13 anos de idade eu fui num evento no carnaval de igreja e lá conheci um pouquinho da história. Do que era, como era e o porquê, o motivo. A fé nos ajuda a se libertar de coisas que a gente não consegue particularmente sozinho. Meu tio, por exemplo, que é uma inspiração para mim na fé. Ele saiu das drogas por causa disso. Então para mim aquilo ali é motivo para eu poder não brigar com alguém na rua, por exemplo. Parar e pensar.

Meu tio foi meu maior exemplo quando comecei a ir pequenininho. A vida dele mudou radicalmente. Isso aí não é coisa que a gente vê assim em qualquer lugar né.

Aqui, cada um carrega o sonho não só dele, mas de alguém. Alguém sempre torce pela gente. Mas minha maior inspiração é a minha mãe Kelly. Ela é meu motivo para tudo na vida. Não tenho nada que me motive que não seja ela, qualquer outra coisa que eu tiver ao redor aqui, quando eu lembro da minha mãe eu falo: "não, eu tenho que fazer mais, é ela", não tem como. Aquela mulher mora no meu coração ali e não paga aluguel.

Eu encaro meu sonho como objetivo de vida né. A gente precisa encontrar possibilidades de evoluir. Estou procurando passar aquilo que aprendo para que as pessoas que estão ao meu lado amanhã estejam melhores. Só o crescimento pessoal vai abrir portas para futuramente me colocar num lugar muito maior do que estou hoje. E o meu sonho é chegar no mais alto que eu conseguir. Às vezes não vou chegar num lugar gigante, mas o mais alto que eu conseguir chegar, esse é o meu sonho.

Quem dirá que eu não posso chegar lá? Se eu tenho futebol para isso, se eu tenho qualidade para poder estar lá?"

Vitinho, líder e fisioterapeuta

Victor Hugo, o Vitinho, zagueiro do São Cristóvão na Série C do Rio de Janeiro — Foto: Clever Felix/LDG News
14 de 19 Victor Hugo, o Vitinho, zagueiro do São Cristóvão na Série C do Rio de Janeiro — Foto: Clever Felix/LDG News

Victor Hugo, o Vitinho, zagueiro do São Cristóvão na Série C do Rio de Janeiro — Foto: Clever Felix/LDG News

"Meu nome é Victor Hugo Rosa, me chamam de Vitinho ou de Victor Hugo. Tenho 29 anos e sou morador a vida toda de Belford Roxo, no Rio de Janeiro. Sou jogador do São Cristóvão.

No futebol eu jogo de zagueiro, de volante, de lateral-direito. E atualmente eu sou fisioterapeuta, sou formado em fisioterapia já há cinco anos. Mas no clube só ajudo de vez em quando, porque a gente sabe das dificuldades dos times da Série C e a gente mete a mão na massa de vez em quando.

Viu o golaço de Vitinho? Assista abaixo

Sempre tive na minha cabeça que a vida do jogador de futebol é finita, a gente tem pouco tempo de trabalho, nosso corpo perece muito rápido. Então sempre procurei estudar, me aperfeiçoar. A fisioterapia foi caminho que eu segui, hoje é minha principal fonte de renda. Pode parecer que não, mas o futebol hoje é a minha segunda fonte de renda.

É a minha segunda vez na Série C, a primeira vez foi ano passado com o Belford Roxo. Infelizmente, o futebol estadual, até mesmo na Série A, ele vem perdendo a força com o passar dos anos. Imagina a Série C? A Série C é uma divisão onde o time que se estrutura um pouco melhor consegue avançar de divisão, consegue ser campeão. Mas é uma divisão, por conta de transmissão, da falta de marketing, da falta de infraestrutura que todos clubes têm, que fica meio esquecida no cenário carioca.

Sempre joguei futebol, mas nunca pensei em ser jogador de futebol profissional. Tinha outros planos, tinha planos de estudar, planos de seguir carreira militar. Com 17 anos apareceu a oportunidade de jogar no Bonsucesso e já me profissionalizei. Passei por alguns clubes, fui para o Fluminense na base, retornei para o Bonsucesso, depois fui para a Portuguesa e rolaram alguns empréstimos para o Boa Esporte, para o América. Depois joguei uma temporada no Olaria e vou para a Cabofriense, no ano da pandemia em 2020.

Quando tudo ficou parado eu decidi parar realmente com a carreira no futebol, investir mais na fisioterapia, que está dando certo para mim. Em 2021 veio o primeiro convite não deu certo. Em 2022, eu meio que despendurei as chuteiras e voltei a jogar.

Eu sempre fui criado por duas mulheres, minha mãe e minha falecida avó. Era mais difícil procurar um clube para fazer peneira, sempre dependendo de terceiros. Por mais que todo mundo falasse que eu tinha certa qualidade, que eu não devia só ficar jogando várzea, era mais difícil. A minha figura paterna era meu tio. Ele faleceu quando eu tinha 12 anos. Sempre gostei de jogar, mas eu entendi que não é só questão de qualidade. Você precisa ter algo por trás, você precisa ter pessoa que te agencie, precisa ter contato certo, precisa estar no momento certo, na hora certa.

Vitinho, de 29 anos, divide os últimos momentos na carreira com atendimento de fisioterapia — Foto: Raphael Zarko
15 de 19 Vitinho, de 29 anos, divide os últimos momentos na carreira com atendimento de fisioterapia — Foto: Raphael Zarko

Vitinho, de 29 anos, divide os últimos momentos na carreira com atendimento de fisioterapia — Foto: Raphael Zarko

Sendo morador de comunidade, criado por duas mulheres, seria bem mais difícil, mas graças a Deus as coisas aconteceram de maneira bem diferente do que se esperava e consegui aproveitar essa carreira por esses 10 anos já, estou nessa por 10 anos.

Com 17 anos você só pensa em se divertir. Você pensa em entrar, fazer o melhor, brincar. Só que as coisas começaram a ficar sérias a partir do momento em que o Bonsucesso começa a jogar numa série A e eu estou jogando em São Januário, no Maracanã e você começa a entender que é um trabalho mais sério. Então é claro, todo jogador de futebol pensa em jogar num time grande, pensa em sair do país, pensa em ganhar dinheiro para tirar a família de certas necessidades. Então eu sempre tive esse sonho, sendo que sempre intercalando com os estudos. Eu fui bolsista, fiz vestibular, consegui bolsa de 100%.

Minha mãe fala que é azarada. Na verdade todas as vezes que ela veio no estádio ou empatei ou perdi, então ela fica em casa. O meu pai me acompanhava mais. Ele sempre estava nos jogos vendo. Agora, com 70 anos, ele está mais devagar, então prefere também ver de casa. Curiosamente, por conta do futebol, no Bonsucesso, passei a ter mais contato com meu pai.

Apesar de ser novo na época, eu sempre gostei do Nesta, sempre gostei do Gattuso. Assim pela perfomance física o Roberto Carlos, o Cafu, são jogadores que eu via e entendia o que era ser atleta profissional. Então era nesses caras que eu me inspirava mais.

Eu lembro de um episódio de Bonsucesso e Vasco em São Januário, estava 1 a 1, acho que foi em 2014. Tinha 21 anos e no último lance uma falta para o Vasco ali na meia-lua. O Rodrigo, zagueiro do Vasco, capitão, parou a bola e estou parado na frente dele.

Aí o juiz vira para ele, dá dois tapinhas nas costas dele: "Vamos, meu capita, arrebenta que esse é o gol da vitória!" Eu olho para o juiz... "cara, como assim? O gol da vitória?" Aí o Rodrigo dá dois tapas no meu peito, "garoto, sai, sai, que vou fazer o gol". Graças a Deus não fez. No contra-ataque, eu corro na marca do pênalti para virar o jogo e isolo a bola. E todo mundo fala até hoje que eu isolei a bola porque eu sou vascaíno (sorri).

Aqui são quatro meses de contrato. Desde a época de Portuguesa, onde comecei a estudar, eu sempre converso com os mais novos, falo que essa vida é finita. Tem muito moleque bom, de qualidade, que não merece estar aqui, jogando a série C. Só que as pessoas precisam se concentrar também no pós, começar de agora. Começar a focar em coisas que realmente interessam.

A gente sabe, é a idade, todo mundo já passou por isso, todo mundo já passou pela fase do oba-oba. Então não só eu como os mais experientes, a gente tenta conversar com a molecada para que eles foquem e principalmente para que eles se divirtam, mas que não percam o foco no pós. No que eles vão fazer se não der certo.

Eu sempre falo você precisa ter o plano A, o plano B e o plano C. Se os três não derem certo, a gente parte para o desespero e procura o D, mas tem que ter plano na vida. Tudo faz parte do plano.

Todos os meus dias são bem intensos. Eu treino de manhã, depois vou atender, às vezes a gente treina na Maré, então vou para a Maré, Recreio, Bangu, Belford Roxo, Nova Iguaçu, Belford Roxo de novo. Então o dia todo fico em cima de uma moto, pedindo para papai do céu proteger a gente, porque a gente sabe que a moto é bem mais perigoso. E essa correria, saindo de casa todo dia 7 da manhã e chegando em casa 10 da noite. Tentando me alimentar, tentando ter uma qualidade de vida e um dia após o outro.

Minha mãe se chama Maria Célia e minha avó era Olga. Minha mãe se separou do meu pai quando tinha um ano de idade e é aquele tipo clássico de mulher guerreira. Dois, três empregos, via minha mãe poucas vezes durante a semana, via mais fim de semana. Fui criado pela minha avó, para cima e para baixo com ela. A gente ia para a igreja, subia o monte, andava com uma varinha de goiabeira para dar nas minhas pernas porque eu arisco demais. Mas ela sempre me ensinou a fazer o bem.

Minha avó plantou uma semente não só na minha vida, mas de todas as pessoas que a rodeavam. E se hoje eu sou uma pessoa de bem e do bem eu devo muito a elas, por todo esforço que a minha mãe teve. Trabalhando, não recebendo, sendo enganada, sendo enrolada, com minha avó segurando as pontas com aposentadoria que ela ganhava, com a pensão do meu falecido avô e graças a essa educação que elas me deram eu posso hoje propagar um pouco do amor que elas deixaram comigo.

O futebol no geral é capaz de reabilitar pessoas, mas infelizmente no nosso país o futebol falta muito investimento. Tem jogador ganhando R$ 1,5 milhão, enquanto muitos ganham salário mínimo, ajuda de custo. Mas o esporte no geral pode reabilitar vidas, pode mudar quadros. É isso que acredito e é isso que tento passar para esses moleques. Que eles não percam o foco que lá fora é tudo fácil, que você pode pegar uma arma ali, uma faca, assaltar uma pessoa e sair com o bem dela. Não é que sou linha dura, só que se você planta o bem com certeza você vai colher o bem."

Estádio Ronaldo Nazário voltou a receber partidas no Carioca da Série C — Foto: Raphael Zarko
16 de 19 Estádio Ronaldo Nazário voltou a receber partidas no Carioca da Série C — Foto: Raphael Zarko

Estádio Ronaldo Nazário voltou a receber partidas no Carioca da Série C — Foto: Raphael Zarko

Gallo, para o filho ver

"Meu nome é Bruno Vieira Gallo de Freitas. Sou conhecido no futebol como Bruno Gallo. Tive passagens no Brasil pelo Vasco, Resende, Volta Redonda e, no exterior, passei no Catar, na Tailândia, estive seis anos em Portugal. É um pouquinho da minha carreira. Hoje defendo o Zinza.

Estou com 35 anos. Na última temporada joguei pelo Volta Redonda e a temporada acabou ali em novembro, eu tinha conversado com a minha família, pensado em parar, aproveitar mais o filho. Sempre viajei muito e estive bem distante da família. Então a gente perde ali aquele momento gostoso do filho que é ver ele crescer. Só que aí surgiu o convite do Michel Cravo, do Brunoro, de um projeto ambicioso da loja Zinzane, que é o time Zinza. E com ambição de chegar futuramente na primeira divisão do regional, que é o Carioca.

A Série C é aquilo, é um campeonato de muita oportunidade. É um campeonato onde só podem cinco jogadores acima de vinte e três anos. Então você vê jovens tentando buscar um espaço numa primeira liga, num primeiro campeonato. E a gente vai dando experiência para esses jovens, tentando ajudar eles a chegarem em um patamar maior no futebol. E vai aprendendo também com eles. Por a gente ver a batalha deles no dia a dia. Acordando às 4h manhã para um treinamento às 7h. Vindo de longe, pegando ônibus, trem, metrô... essa dedicação que motiva a gente a estar dentro de campo, ajudando nossos companheiros.

Eu converso no vestiário com os mais jovens. Eu já estive no Vasco da Gama em uma primeira divisão. Fui campeão carioca. Ano passado fui campeão da Série A2 pelo Volta Redonda. E quando surgiu o convite aqui eu aceitei porque é um desafio. Eu sempre fiz base no Vasco. Nunca joguei campeonatos inferiores. E esse desafio me trouxe a alegria de voltar a jogar futebol.

A gente ouve dentro de campo, hoje me chamou atenção. Eu tive que fazer uma marcação e o adversário gritou “Toca pro Messi, toca pro Messi”... Eu olha, “Pô, Messi zagueiro” (risos). Essa é nova para mim, mas é sinal de que ele deve ter uma habilidade. Temos o Kanté, que é nosso baixinho, pegador... lembra fisicamente e na marcação forte.

Bruno Gallo na Série C do Rio: jogador do Zinzane foi campeão carioca da primeira divisão em 2015 pelo Vasco — Foto: André Durão
17 de 19 Bruno Gallo na Série C do Rio: jogador do Zinzane foi campeão carioca da primeira divisão em 2015 pelo Vasco — Foto: André Durão

Bruno Gallo na Série C do Rio: jogador do Zinzane foi campeão carioca da primeira divisão em 2015 pelo Vasco — Foto: André Durão

O Brasil é o país do futebol. Tem muitos jogadores que tem potencial para estar na Europa, rodando, só que falta oportunidade. Eu acho que, com a dedicação dentro de campo, dia a dia, matando um leão por dia, saindo cedo de casa, pegando ônibus, metrô... isso tudo é um obstáculo que você tem que passar para chegar no sucesso.

O Lelê, no ano passado, estava no Volta Redonda. Ele chegou vindo do Maricá, um time sem expressão no Rio. Ele foi lá e arrebentou. Teve a oportunidade. Então acho que é não ter pressa, é trabalhar e esperar o momento certo, porque no momento certo muitos talentos vão aparecer ainda.

Eu acho que muitos anos no futebol me trouxeram momentos especiais porque muitos jogadores entram em campo e jogam simplesmente. Eu não. Eu gosto de estudar o adversário, de estudar tática. Eu geralmente entro em campo antes do jogo e fico mentalizando as jogadas que posso fazer, onde posso ajudar, dou uma olhada no gramado, a parte melhor, a parte pior. Eu tento fazer uma leitura geral para saber o que vai ser o jogo. E foi isso que aconteceu.

Eu tenho um filho que está com dez anos. Ele entra em campo comigo, vive isso também. Eu fiquei seis anos em Portugal, então, dos dois anos aos anos oito ali, ele não teve muito contato comigo. Ele ia para lá nas férias, morava com a mãe aqui. E agora voltando ao Brasil, no Volta Redonda foi o despertar dele. Começou a vivenciar vestiário, a estar comigo no campo.

Ele está em um momento de curtir muito o pai. Agora ele pode aproveitar um pouco o estádio e hoje tem caminhado para o futebol. Tem feito uma escolinha. Está na final do campeonato niteroiense essa semana já. É centroavante. O nome dele é Davi Gallo. Meu xodózinho.

Eu tenho uma ideia de talvez trabalhar mais nos bastidores quando parar. Não na beira do campo. Acho que são muitas personalidades para lidar ali dentro de campo, acho meio difícil. Gosto mais de estar nos bastidores, podendo ajudar nos bastidores do futebol. Mas enquanto puder ajudar o time dentro de campo e fora de campo, eu vou estar aqui disposto a ajudar. É esse o pensamento."

Messi, o Daniel Alves com a 4, e Dembelé, o ligeiro

Messi na Série C do Rio: jogador do Paraty — Foto: André Durão
18 de 19 Messi na Série C do Rio: jogador do Paraty — Foto: André Durão

Messi na Série C do Rio: jogador do Paraty — Foto: André Durão

"Meu nome é Rodrigo de Almeida Silva. Meu apelido é Dembelé. Tenho 20 anos.

(Messi) O meu é Daniel Alves da Silva Dantas, e meu apelido é Messi. Tenho 19 anos

(Dembelé) O apelido Dembélé surgiu em meados de 2018 para 2019 em uma peneira para o Audax. Eu ficava bastante livre e pela minha velocidade, aí os moleques começaram a me chamar “Dembelé, Dembelé”. O apelido pegou e por onde eu passava só me chamavam de "Dembelé, Dembelé". Mas eu gosto, é bom (risos).

(Messi) O meu já começou bem mais cedo, quando eu tinha uns sete anos. Começou na rua. Eu jogava no meio dos meus colegas que tinham 16, 17, 18 anos e eu com sete. Desde novo sempre mostrei habilidade, era rápido, habilidoso. “Caraca, parece o Messi” e eu sempre com a bola no pé. Minha mãe nunca gostou. Meus colegas chamavam “Messi”. Minha mãe atendia “Qual é o nome dele?” “Não sei, tia, só conheço de Messi”. E ela falava: “Não tem nenhum Messi aqui não” (risos). Nunca gostou, mas eu nunca impliquei não. Mas meu nome não tem nada a ver com Daniel Alves. É só coincidência.

(Messi) Quando a gente começa a jogar no campo, a gente pensa em fazer gol, ser atacante. E eu comecei de atacante. Só que é diferente quando a gente joga na rua e quando vai para o campo. Aí só fui descendo. Fui para meia, não deu certo. Fui para volante, menos. Até que eu joguei de lateral direito e me encontrei. Só queria ali. Aí o treinador disse não dá para esse cara ser lateral não. Me jogou para zagueiro e ali me senti tranquilo. Até hoje sou zagueiro, graças a Deus. Encontrei minha posição.

(Dembelé) Ele dribla em velocidade, às vezes, dá uns dribles na zaga que deixa o professor maluco, mas acaba dando certo.

(Messi) Graças a Deus, nunca deu errado (risos). Para mim, o Dembelé é até melhor. Ele tem algo muito diferente. Ele é um ponta muito rápido. Joga com a bola no pé sempre. Muito difícil tirar a bola dele. É diferenciado.

(Dembelé) Nós somos de Belford Roxo. De Heliópolis, eu moro com pai, minha mãe, meus irmãos. Todo mundo junto. Tenho um irmão que luta, outro trabalha fora e minha irmã mais velha é polícia. Comecei no Projeto Grande Rio. Eu treinava com o seu Levir que é amigo do Manel, que é técnico do Grande Rio. Aí o Messi já jogava lá e me levou para para jogar o campeonato sub-17 e fomos jogando, jogando e jogando...

(Messi) E sempre campeões (risos).

(Dembelé) Ano passado fomos campeões do sub-20 também. Foi 5 a 0 na final com gol meu e duas assistências. Minha inspiração na carreira sempre foi o Neymar, desde pequeno. Ele me fez amar o futebol. Sempre via vídeos dele, tentando fazer igual. Gostava do Dembelé também, claro, e do Vinícius Jr. Todos são minhas inspirações.

(Messi) Minhas referências são Marquinhos, Thiago Silva. Eu tenho uma característica parecida com o Marquinhos de recuperação de bola, desarme e tenho ele como espelho. A Série C é um campeonato muito difícil, onde todas as equipes são basicamente muito fortes fisicamente. Claro que as vezes a gente encontra uns campos que dificultam o nosso jogo que é bola no chão e tem essas dificuldades.

(Dembelé) Desde pequeno sempre sonhei alto. Paraty deixou as portas abertas para mim. Vou treinando e focado que papai do céu vai me abençoar um dia. Eu cheguei a ver o Lelê no Profut e eu em outro time. É um moleque bom, esforçado, que vem de favela.

(Messi) Dá uma esperança para a gente. Que a gente também pode... Ver o exemplo dele que jogou a Série C, então, quer dizer que a gente está sendo visto também. E a gente almeja coisas maiores para a nossa carreira."

Dembelé protege a bola pelo Paraty: presidente do clube acena com transferência de jovem para Portugal — Foto: André Durão
19 de 19 Dembelé protege a bola pelo Paraty: presidente do clube acena com transferência de jovem para Portugal — Foto: André Durão

Dembelé protege a bola pelo Paraty: presidente do clube acena com transferência de jovem para Portugal — Foto: André Durão

*Colaborou Vinicius Rodeio.

Fonte: Globo Esporte