As três Copas do Brasil conquistadas pelo Flamengo se entrelaçam pela existência de heróis improváveis. Teve gol de zagueiro em 1990, de atacante que era execrado e posteriormente viraria xodó em 2006 e até de volante que não chutava de longe na conquista do tri, em 2013. Mas o bicampeonato, vencido sobre o Vasco, é marcado por zebra no banco de reservas . Nem mesmo Ney Franco imaginava que seria campeão nacional com o Flamengo .
Não por falta de confiança no próprio taco, já que desenvolvera um excelente trabalho no modesto Ipatinga, com direito a título mineiro em 2005 e semifinal da Copa do Brasil do ano seguinte contra o próprio Flamengo . O curioso foi como o convite rubro-negro aconteceu.
Então vice de futebol do Flamengo , Kleber Leite foi ao vestiário do surpreendente Ipatinga após apertada vitória dos cariocas por 2 a 1, que os classificou à final da competição, no dia 18 de maio de 2006. Lá, disse a Ney que demitiria Waldemar Lemos no final de semana seguinte e revelou interesse em contratá-lo.
A um mês de completar 40 anos e ainda um desconhecido no futebol nacional, desconfiou de pegadinha.
- Parece um roteiro de filme. Foi um momento muito especial da minha carreira. Eu trabalhei 10 anos nas categorias de base do Cruzeiro e depois tive minha primeira experiência profissional no Ipatinga. Dentro desse projeto do Ipatinga você já começa a sonhar alto em criar oportunidades em grandes clubes do futebol brasileiro. E você imagina um caminho a ser seguido até ser notado ou contratado por um grande clube.
- Mas te digo que, depois de um ano e seis meses à frente do Ipatinga devido ao trabalho de qualidade que foi feito por mim, pela diretoria e pelos atletas que lá estavam, esse caminho foi abreviado. E foi abreviado de uma forma muito interessante. Depois de duas finais de Campeonato Mineiro e chegar a uma semifinal com o Ipatinga, um clube de Série C, diante do Flamengo e no Maracanã, que é o templo do futebol brasileiro, vem o convite do Flamengo . Receber um convite no vestiário para trabalhar no Flamengo , eu te confesso que achava que aquilo tudo era uma pegadinha. No meio do futebol, cara, você tem muitas brincadeiras.
Ney Franco em sua primeira passagem pelo Flamengo, em 2006 — Foto: Alexandre Cassiano / O Globo
Não era trote. Em 22 de maio, o Flamengo anunciava Ney Franco como treinador. Dois dias depois já estava em campo por 2 a 2 para o empate com o Santos. Foram mais três jogos até a parada para a Copa do Mundo, com derrota para o Fluminense (1 a 0) e vitórias contra Palmeiras (2 a 1) e Corinthians (2 a 0).
- Logo depois que a ficha caiu, vi que o negócio era sério. Foi a grande oportunidade que tive. Imagine um treinador de Série C ser convidado para dirigir a equipe de maior torcida do futebol brasileiro. Ainda bem que eu estava preparado, junto com a minha comissão técnica, tanto que ficamos um ano e quatro meses à frente do Flamengo . E o primeiro desafio era ser campeão da Copa do Brasil contra o Vasco da Gama, o principal adversário do Flamengo .
- Nesses dois confrontos com o Vasco houve o detalhe dos jogadores que decidiram, mas também o detalhe tático foi muito forte nessa final. E eu me sinto orgulhoso de, na primeira final com o Flamengo , ter tido a capacidade de ser campeão e de ter entrado na história do clube como treinador campeão. Esse trabalho seguiu principalmente com a conquista do Carioca de 2007. Essa porta foi aberta através do Kleber, que me confidenciou que acompanhava todo o nosso trabalho no Ipatinga. Dessa forma fui contratado pelo Flamengo .
Parada para a Copa: camisa 10 é pinçado da base, e Ney faz mudanças
Durante a parada para a Copa da Alemanha, o Flamengo fez uma excursão com amistosos em Manaus, Roraima e Maranhão. Aquelas semanas foram fundamentais para o desabrochar do hoje adversário Renato Augusto, indicação de Kleber Leite. E também serviram para uma série de transformações.
- Para mim, foi muito interessante a parada para preparar a equipe. Fomos para uma intertemporada em Manaus. E, nessa parada, respiramos a final da Copa do Brasil. Fizemos muitos treinamentos focados nessa final. Por eu ter enfrentado o Flamengo na semifinal, eu estudei muito o time. Quando assumo, não era uma equipe desconhecida. Conhecia o perfil da maioria dos jogadores que lá estavam.
- Me lembro que tive oportunidade de fazer alguns ajustes na equipe. Peguei um jogador como o Toró, que era atacante e trouxe para jogar como volante. Ele fez carreira depois dessa forma e nos ajudou muito na final. Tive a oportunidade de levar o Renato Augusto para treinar conosco e depois ele foi utilizado na final. Era um time que estava bem mobilizado para ser campeão.
Renato Augusto recebe oxigênio em Real Potosí x Flamengo — Foto: Agência O Globo
- Me lembro muito bem do Jônatas, além da qualidade técnica, tinha liderança. O próprio Diego goleiro tinha liderança. Conseguimos recuperar o Luizão, que estava no departamento médico, para a final. E tínhamos o Renato Abreu num momento muito bom, desequilibrando. Era uma equipe muito bem montada, muito forte. Consegui interagir com o grupo e nós conseguimos o título.
Ney voltou da excursão com uma ideia de jogo pensada, e Renato Augusto, com dois gols na bagagem e a certeza de que, apesar dos 18 anos, teria sequência.
Os primeiros resultados no Brasileiro após a parada, porém, decepcionaram. Goleada sofrida em casa para o Paraná (4 a 1) e derrota por 1 a 0 para os reservas do Vasco a três dias do primeiro jogo da final da Copa do Brasil, em que o arquirrival voltava a ser o adversário.
O surpreendente 3-6-1
Quando o Flamengo entrou em campo para a primeira partida da decisão, o esquema tático chamou atenção. Ney Franco montou o time no 3-6-1, esquema que foi visto com certo ineditismo pela imprensa local e que fez a torcida rubro-negra, reconhecidamente adepta do jogo ofensivo, torcer o nariz.
A escalação foi a seguinte: Diego; Renato Silva, Fernando e Ronaldo Angelim; Leonardo Moura, Jônatas, Toró, Renato, Renato Augusto e Juan; Luizão.
Juan fez o gol do título da Copa do Brasil, em 26 de julho de 2006 — Foto: Divulgação/C.R. Flamengo
Três zagueiros e dois volantes por um objetivo: liberdade total a Léo Moura e Juan, que se tornariam os donos das duas laterais por muito tempo e chegariam à seleção brasileira posteriormente. Forças ofensivas do Flamengo , foram destaques nas duas finais. Léo cruzou para Luizão fazer o segundo gol no primeiro jogo da decisão e chuta a bola que sobra para Juan marcar o único da finalíssima.
- Essa forma de jogar no 3-6-1 eu já tinha colocado em prática na final com o Cruzeiro pelo Ipatinga. Coloquei um centroavante centralizado, fiz uma linha com três zagueiros para liberar os dois laterais. E a consistência com dois volantes, dois meias e um atacante de referência. Quando comecei a estudar o Vasco, no nosso caso ficou marcado que eu tinha o Léo Moura e o Juan, dois laterais que apoiavam muito e que tinham facilidade para apoiar em profundidade ou de virarem meias. Eles tinham qualidade para isso.
- Quando eu jogava numa linha de quatro, pedíamos para um lateral subir e segurávamos o outro. Mas era um confronto em que eu percebi que poderíamos utilizar dois laterais ao mesmo tempo no ataque, jogando do meio para frente. Optei por três zagueiros. Tínhamos o Angelim, que era canhoto, o Rodrigo Arroz, que fez a base de zagueiro e lateral, e mais o Renato Silva. Quis dar liberdade para os laterais e mudei a forma da equipe.
Para se chegar à inovação, Ney pediu a Kleber Leite para utilizar a estrutura do Ninho do Urubu, que à época só recebia treinamentos das categorias de base.
- O Flamengo nunca tinha jogado daquela forma, e foi essencial fazermos alguns treinos secretos. Conseguimos fazer isso num momento em que o Ninho do Urubu não era utilizado pela equipe principal do Flamengo . Na Gávea, seria impossível fazer um treino fechado. Na época, era inadmissível um clube do tamanho do Flamengo realizar treinos sem a presença da imprensa. E a gente fez isso.
- Iniciamos o jogo dessa forma, a equipe se portou muito bem no início do jogo. Logicamente que esses dois laterais sobressaíram no jogo. Hoje a gente vê que a decisão foi muito acertada porque a equipe se comportou muito bem defensivamente. Fizemos 3 a 0 no agregado, e esse detalhe tático ajudou muito, principalmente no desenvolvimento do futebol do Juan e do Léo Moura.
Esquema 3-6-1 é desfeito por lesão, e Obina resolve
Embora o 3-6-1 tenha dado solidez defensiva ao Flamengo , a conquista do título foi muito bem encaminhada após o esquema ter sido desfeito, aos 11 minutos do segundo tempo do primeiro jogo da decisão, quando o zagueiro Renato Silva se lesionou. Ney Franco colocou Obina e, após três minutos em campo, o camisa 18 conseguiu escanteio após ser lançado em profundidade e aplicar dois bonitos dribles. Escanteio cobrado por Renato Augusto, golaço de Obina.
Aos 17, o golpe de misericórdia. Obina tabelou com Renato Augusto e tocou na direita. Léo Moura levantou, e Luizão testou para pavimentar o caminho do bicampeonato.
Apesar de os gols terem saído após o retorno do 4-4-2, Ney tem convicção de que a vitória começa a ser construída a partir da confusão criada na cabeça dos vascaínos diante do inédito 3-6-1.
- Detalhe importante. O 3-6-1 no início provocou no adversário uma indefinição de como eles jogariam e como eles marcariam os nossos laterais. Naquele momento, eu tive a leitura do momento em que o Renato Silva machucou. Poderia colocar outro zagueiro, mas naquele momento o jogo pedia um atacante por dentro. Lembro que antes da final conversei com o Obina que o Luizão jogaria, mas que ele entraria a qualquer momento numa possível substituição ao Luizão ou na possibilidade de jogarmos com eles dois por dentro. E isso aconteceu.
O Flamengo vivia jejum de 14 anos sem títulos nacionais de expressão em 2006 — Foto: Reprodução/Acervo O Globo
- O Obina entra, a nossa equipe ganha força ofensiva maior, mas continuei segurando um pouquinho o Jônatas como um terceiro zagueiro. Na mesma função que faz o Casemiro na seleção brasileira, e o Jônatas fazia isso muito bem. Logo depois que o Obina entra, a gente faz o gol. E, numa final, quem faz o primeiro gol tem uma tranquilidade para desenvolver o jogo melhor. E o Obina foi fundamental e entrou muito bem.
No segundo jogo, uma semana depois, o vascaíno Valdir Papel foi expulso aos 16 minutos, e o Flamengo venceu por 1 a 0, confirmando o bicampeonato com muita tranquilidade.
Confira outros tópicos do papo com Ney Franco:
Quais suas lembranças mais marcantes daquela conquista?
- A mudança da forma de jogar, o lançamento do Renato Augusto, a mudança de posicionamento do Toró, a recuperação do Luizão para a final, mas ficou muito marcado o treino secreto. A primeira vez que a equipe profissional utilizou o Ninho do Urubu. E ali a gente conseguiu mostrar para a diretoria a necessidade que o clube tinha de um centro de treinamento. Acho que o clube estava muito acomodado com a questão de só treinar na Gávea.
- Hoje em dia para se desenvolver um trabalho de qualidade, você não pode deixar um treinador exposto em um ambiente de clube. Detalhe que passa despercebido, mas eu fui o primeiro técnico a mostrar para a diretoria essa necessidade. Hoje os grandes clubes do mundo precisam disso e felizmente o Flamengo tem esse espaço hoje em dia, investiu nesse espaço. E também me sinto responsável por ter trabalhado nesse CT, por esse legado.
Sobre o Renato Augusto, como foi o acerto com o Kleber Leite para a subida dele. O Kleber o indicou, e você logo se impressionou com ele na excursão ao Norte e ao Nordeste, certo? Foi rápido o encaixe dele no time, né?
- A primeira vez que ouvi falar do Renato no clube foi através do Kleber Leite. Tivemos uma reunião interna onde procurávamos um camisa 10, sentíamos falta de um camisa 10. O clube, se contratasse alguém para a posição, não poderia inscrever na competição.
- Numa dessas reuniões o Kleber me falou sobre um garoto da base chamado Renato Augusto. Dessa forma o levei para a intertemporada. E nos treinamentos mostrou tudo aquilo que o pessoal da base falava sobre ele e aquelas informações que o Kleber tinha me passado também.
- Nessa intertemporada, ele entrou bem e com personalidade. Rapidamente se adaptou ao grupo. Além da parte técnica, é muito inteligente e de fácil trato. Aproveitou a oportunidade dentro de campo, o que me deu tranquilidade para lançá-lo numa final de Copa do Brasil.
- Foi um achado interessante porque ele foi bom para o clube. Trouxe retorno técnico no momento certo. Eu tive a grande oportunidade na minha carreira ao dirigir o Flamengo , e o Renato teve a oportunidade de se apresentar para a grande torcida do Flamengo em plena final de Copa do Brasil e contra o grande rival. Ele aproveitou bem.
Como é, 16 anos depois, ver o que se tornaram Flamengo e Renato Augusto? O Flamengo voltou a colecionar conquistas de peso, e Renato virou um jogador internacional.
- Em relação ao Flamengo , mudou a estrutura. Hoje o clube usa melhor sua torcida, sabe valorizar melhor sua marca. Conseguiu encontrar dentro da economia brasileira uma forma rentável de gerir o futebol. Economicamente tem fechado no azul, na nossa época não acontecia. Foi um grande salto. O Flamengo hoje tem um dos centros de treinamentos mais estruturados do futebol brasileiro, e isso dá ao profissional que está lá maior condição de se desenvolver um trabalho com qualidade.
- Essa exploração da marca fica dependente do resultado de campo. O Flamengo tem sido feliz na montagem da equipe, e isso vem correspondendo em campo com títulos, como Brasileiro e Libertadores. Nesse ano tem essa possibilidade real de mais dois títulos, um nacional e outro internacional.
- Renato Augusto fez uma carreira muito bonita. Fico feliz de ter sido um dos colaboradores e fui um mecanismo de formação na carreira dele. E é legal ver o atleta no qual Renato se transformou. Multicampeão, com experiência em seleção brasileira, finalizando sua carreira num grande clube como o Corinthians e com passagem muito marcante. Fazendo essa retrospectiva, a gente vê que o Renato aproveitou todas as oportunidades que teve desde o início lá no Flamengo .
Foi o título mais importante da sua carreira?
- Tive algumas conquistas em momentos diferentes, lógico que um título com o Flamengo melhora muito seu currículo. São inesquecíveis o que passamos, mas há também conquistas como o Mineiro com o Ipatinga. Representou muito para mim. A Série B com o Coritiba também. Perdemos mandos de campo e fizemos trabalho de excelência. Os dois títulos com a seleção brasileira, Sul-americano e Mundial com uma geração espetacular com Neymar, Lucas, Casemiro, Coutinho, Alex Sandro, Oscar, Danilo, Dudu... Aquilo representou muito. E o título da Sul-Americana com o São Paulo.
- São momentos, mas logicamente o título da Copa do Brasil pavimentou o meu caminho para desenvolver um trabalho a longo prazo no Flamengo . Fiquei um ano e quatro meses no Flamengo num momento em que o clube trocava treinador de três em três meses. Tem importância enorme.
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