A quinta-feira será o dia D para Paolo Guerrero. Em Colônia, na Alemanha, o bioquímico L.C. Cameron, que faz parte da equipe de defesa do jogador, abrirá a contraprova de exame antidoping cuja amostra A deu positivo para benzoilecgonina, um metabólito da cocaína, após jogo do Peru contra a Argentina pelas Eliminatórias, em 5 de outubro. E nesses casos, o local será aberto exclusivamente para a análise. Além disso, Cameron, coordenador do Laboratório de Bioquímica de Proteínas da UNIRIO, que viajou nesta quarta para Colônia, deve receber até sexta-feira o estudo analítico do exame, com detalhes do teste na urina, substâncias pesquisadas e, em alguns casos, os valores encontrados. Esses dados serão encaminhados do laboratório à Fifa e anexados ao processo. A defesa irá se basear neles para tentar diminuir a pena de quatro anos de suspensão.
— Dependendo do padrão do laboratório teremos o quantitativo, uma estimativa ou nada. Como nesse caso basta aparecer a substância para ser configurado positivo, ou seja, é um exame qualitativo, não necessariamente teremos a quantidade encontrada no exame — observa Cameron, que explica que a benzoilecgonina é o primeiro metabólito da coca, uma substância produzida durante o seu metabolismo. — Pode ser que nesse documento apareça outros metabólitos, inclusive. Podem ter encontrado o primeiro (benzoilecgonina) e ter sido o suficiente para o recorte (positivo).
Ele explica que existem outros metabólitos da coca, resultado de seguidas transformações no organismo (no metabolismo) até o desaparecimento.
— Mesmo que não tenhamos nenhuma quantidade, é possível calculá-los, de acordo com a velocidade da metabolização. É um jogo de xadrez.
A defesa de Guerrero trabalha com a hipótese de administração equivocada. O jogador tomou chás antigripais feitos pela comissão técnica da seleção peruana e, provavelmente, sem questionar o conteúdo. Segundo o advogado Bichara Neto, é possível que a bebida tenha sido contaminada na fabricação.
— Perguntar? Ele estava com sua seleção, no hotel oficial e todos sabem que chá de coca é proibido — falou Bichara, que encaminhou amostras dos chás para dois laboratórios, um no Brasil e outro no exterior, para análises. — Mas não descartamos outras origens.
Segundo Fernando Solera, presidente da comissão de controle de doping da Confederação Brasileira de Futebol, para casos assim, a provável defesa é a administração médica equivocada.
— Ou seja, ele tomou algo, na confiança de seu médico. Não se enfrenta o resultado do exame em casos assim — explica Solera. — Se provar que ele não teve a intenção e bebeu um chá na confiança de sua comissão técnica, a punição já cai para dois anos.
Para Luciano Luciano Hostins, presidente do Tribunal Antidopagem do Brasil, uma vez comprovada a idoneidade do atleta, a pena cai mais ainda:
— Dificilmente não abaixa mais. É que as evidências que deverão ser apresentadas estão muito relacionadas, como a não intenção do consumo, a contaminação, a colaboração com os esclarecimentos...
Segundo Solera, o histórico do atleta também pode ser levado em conta. No Brasileiro, ele foi testado duas vezes em 2012, quatro em 2014, três em 2015 e uma em 2016. Fez um exame no Paulista de 2014 e dois em 2015. Em 2017, fez antidoping na Sul-americana. Todos negativos.
Ele diz ainda que há um padrão de coleta do exame e que o jogador pode indicar, por escrito no documento entregue junto com os frsacos de urina, se houve algo fora do comum. E isso não ocorreu.
— Uma vez fechado o frasco pelo atleta e assinado o documento, com nenhuma observação, o resultado é inquestionável. A menos que aconteça um falso positivo (resultado diferente da amostra A e B). O que é raro, já que a urina é a mesma, nos dois frascos.