O título rubro-negro veio após a vitória contra o River Plate , no último sábado, em Lima. Entretanto, ele começou a ser construído em um vestiário bem longe da capital peruana...

No dia 27 de julho de 2019, o Flamengo entrou no campo do estádio Jorge Capwell, em Guayaquil (Equador), para enfrentar o Emelec , pelo jogo de ida das oitavas de final da Libertadores .

Para esta partida, o técnico rubro-negro, Jorge Jesus, surpreendeu e resolveu mexer na escalação: sacou o volante Cuéllar e recuou Diego no meio-campo.

Além disso, adiantou Rafinha para jogar quase como um ponta, enquanto Rodinei entrou como titular na lateral-direita.

A estratégia, porém, deu muito errado...

Com os jogadores claramente perdidos em campo, o Fla acabou “engolido” pelo Emelec , que abriu o placar logo aos 10 do primeiro tempo e fechou a conta aos 33 do segundo, perdendo ainda diversas chances de fazer um placar ainda mais elástico.

Para piorar, Diego, o camisa 10 da equipe brasileira, levou um carrinho assassino de Arroyo e teve uma fratura na perna, que o tiraria dos gramados por um longo período.

A situação na Libertadores ficava muito complicada, já que seria necessário um triunfo por três gols de diferença no jogo de volta, dali a uma semana, no Maracanã, para avançar às quartas.

Segundo pessoas ouvidas pela ESPN , o clima no vestiário do Jorge Capwell era tétrico após a partida, não só pela lesão grave de Diego, do placar adverso e dos protestos e xingamentos dos torcedores que viajaram para acompanhar o duelo no Equador.

Estupefatos, membros da delegação rubro-negra lamentavam o resultado, já "prevendo" uma nova eliminação antes da hora no torneio da Conmebol, mesmo com pesado investimento feito pela diretoria comandada por Rodolfo Landim para a temporada.

Ou seja: um desastre completo.

De acordo com fontes, o técnico Jorge Jesus ficou assustado.

É claro que ele esperava um vestiário abatido por conta da derrota, mas pessoas ouvidas afirmam que o treinador português se impressionou com a repercussão imediata daquele revés no Equador.

Foi aí que Jesus se deu conta do que era a Copa Libertadores, e do que a competição continental representava não só para a diretoria, mas para todos os torcedores do Rubro-Negro.

"A verdade é que nunca coloquei a Libertadores à frente do Brasileiro. Hoje, tenho a noção de que todos os flamenguistas dão mais importância à Libertadores que ao Nacional”, admitiu o Mister, na última sexta-feira, em entrevista dada antes da grande decisão contra o River Plate.

Daí para frente, o português definiu que faria as coisas de maneira diferente.

Praticamente quatro meses depois do desastre em Guayaquil, o Flamengo entrou em campo no Estádio Monumental de Lima e bateu o “bicho-papão” argentino, conquistando o continente pela segunda vez na história .

Mas, para isso, Jorge Jesus teve que colocar as coisas nos eixos primeiro.

SEM MAIS INVENÇÕES

No jogo de volta contra o Emelec, a torcida rubro-negra fez um mosaico mandando uma mensagem aos jogadores e a Jorge Jesus: “Jogaremos juntos”. E de fato jogaram.

Naquele dia, o técnico resolveu não inventar mais: Rafinha retornou à lateral, e, com Diego impossibilitado de atuar, Cuéllar, Arão, Gerson e Everton Ribeiro formaram o meio-campo, com Arrascaeta entrando depois na vaga de Everton.

Empurrados pelos fanáticos nas arquibancadas, o Fla começou arrasador: em menos de 20 minutos já vencia por 2 a 0, com uma atuação de encher os olhos.

Parecia que viria uma goleada histórica. Mas não foi bem assim: o Emelec soube se trancar na defesa e segurou o placar até o final, levando a decisão para os pênaltis.

Nas cobranças, Diego Alves brilhou e classificou o Mengão para as quartas .

Foi aí que Jesus começou a achar o time que viria, nos meses seguintes, a se tornar arrasador, chegando à liderança do Brasileirão com uma incrível invencibilidade e alcançando também a decisão da Libertadores.

O lateral Rafinha, inclusive, confirmou que os duelos contra o Emelec foram de fato o "ponto de mutação na campanha da Libertadores.

“Acho que aquela disputa de pênaltis contra o Emelec deu forças para a gente. Vínhamosd e um resultado negativo no Equador, 2 a 0, tendo que reverter o placar, e a gente já tinha sido eliminado na Copa do Brasil. Então, acho que foi um momento crucial para nossa equipe ganhar corpo na competição, para encarar a próxima equipe que viria, que era o Inter, nas quartas. Deu muita força para a gente”, afirmou.

Ainda era necessário, porém, um último ajuste no time titular: com a saída de Cuéllar para o Al-Hilal, da Arábia Saudita, o Mister ousou: colocou Willian Arão como primeiro volante, recusou Gerson para ser o segundo volante e colocou Everton Ribeiro, Arrascaeta, Bruno Henrique e Gabigol para trocarem posições, formando um quarteto de ataque infernal.

Daí em diante, a coisa engrenou de vez!

DE GIGANTE EM GIGANTE ATÉ A TAÇA

A chave de mata-mata que o Fla encarava após passar pelo Emelec não era nada fácil: nas quartas, um confronto contra o Internacional, que vinha em boa fase também na Copa do Brasil.

Se passasse, o rival seria o vencedor de outro confronto pesado: Grêmio x Palmeiras, dois dos melhores elencos do Brasil.

Mas Jesus e sua trupe não deram bola. Com o time azeitado depois das últimas mexidas do Mister, o Rubro-Negro já resolveu a parada no jogo de ida contra o Inter, no Maracanã: 2 a 0, com dois de Bruno Henrique, o encapetado artilheiro das partidas decisivas.

Na volta, no Beira-Rio, o Colorado até deu um susto ao abrir o placar com Rodrigo Lindoso, no segundo tempo, mas Gabigol, que ia construindo seu caminho à artilharia da Libertadores, empatou e garantiu a passagem à semifinal.

Veio, então, o Grêmio, que todos acharam que dominaria o jogo de ida da semi, em sua Arena abarrotada de torcedores tricolores ensandecidos pela conquista do quarto título continental.

Ledo engano...

Na verdade, quem mandou na partida em Porto Alegre foi o Fla, que abriu o placar no primeiro tempo e perdeu inúmeras chances de gol, além de ter tentos invalidados pelo VAR – um deles em um impedimento bastante contestável marcado em cima de Gabigol.

No segundo tempo, o Grêmio empatou com Pepê e deixou tudo teoricamente aberto para o duelo de volta. Mas o domínio rubro-negro na etapa inicial na Arena era um prenúncio do que estava por vir no Maracanã.

Mais uma vez com estádio lotado, o Flamengo presenteou seus fãs com aquela que foi talvez sua melhor atuação no ano: uma inapelável goleada por 5 a 0.

Um show de futebol, que encantou todo o país.

Dali em diante, era só uma questão de dias até a confirmação do título, que veio neste sábado, contra o poderoso River Plate.

Nem Marcelo Gallardo, o craque do banco de reservas millonario, conseguiu parar o poderoso quarteto de ataque de Jorge Jesus.

E pensar que tudo começou naquela noite de 24 de julho, em um vestiário em Guayaquil...