O Banco Central aprovou na última quinta-feira uma iniciativa inédita na América Latina: a autorização para que um clube de futebol gerencie um banco digital. O pioneiro nesse mercado será o Flamengo , que criou o Nação BRB Fla em parceria com a empresa do governo de Brasília.
Dirigentes de Flamengo e BRB no anúncio da parceria, em 2020 — Foto: Alexandre Vidal/Flamengo
O ge entrevistou o vice-presidente geral e jurídico do clube, Rodrigo Dunshee de Abranches, para explicar como esse novo negócio vai funcionar e, principalmente, como os rubro-negros pretendem investir os lucros projetados na nova empreitada.
Flamengo e BRB são parceiros desde 2020, quando o banco criou um braço digital com a marca do clube, além de estampar a camisa de jogo. O serviço já atraiu 3,5 milhões de pessoas, em um negócio que é avaliado em mais de R$ 1 bilhão. Com a autorização do BC, o Fla passa a dividir os lucros em uma nova empresa que será criada.
A parceria
ge: Como funciona o banco do Flamengo ?
Dunshee: Hoje em dia há vários bancos digitais. É um mercado muito disputado, mas o Flamengo tem 45 milhões de torcedores. São 45 milhões de potenciais titulares de cartão de crédito, de conta digital e de vários produtos bancários. Tudo o que você pode consumir em um banco "convencional", você vai poder construir no Nação BRB Fla. Já temos 3,5 milhões de clientes digitais. A ideia é que o torcedor do Flamengo que tem um cartão de crédito, que tem um produto bancário, use o banco do clube. Por que? Porque o Flamengo tem 50% do lucro dessa companhia.
O Flamengo vai participar ativamente da administração desse banco?
Todos esses negócios que o Flamengo têm são tocados por profissionais escolhidos. Não são amadores. Certamente o Flamengo vai ter profissionais indicados, profissionais de mercado. A liderança do projeto, da parte bancária, é claro que é do BRB. O Flamengo participa com os indicados, de olho no conselho de administração. O conhecimento bancário não é do Flamengo , é do BRB.
Rodrigo Dunshee de Abranches, VP do Flamengo — Foto: Fred Gomes
A partir de agora, falta algo mais para o Flamengo estar à frente do negócio?
Vai ser aberta uma companhia entre Flamengo e BRB para explorar essa plataforma. Isso demora um pouquinho. Mas quando você tem a aprovação do Banco Central, isso já gera valor. O investidor já sabe, o mercado já sabe... Hoje em dia, só o BRB toca o negócio. Agora, o Flamengo vai ter gente participando das decisões, estará muito presente.
Já é possível projetar o impacto no orçamento do clube?
A operação Nação BRB Fla está sendo estruturada. Eu não tenho como dizer quanto vai gerar de dinheiro, mas tenho como dizer que já teve uma avaliação de quanto vale o negócio, e já passa de R$ 1 bilhão. Eu acho que o céu é o limite. Ainda não está estruturada, claro, mas já vai começar a funcionar como empresa.
Recursos para novo estádio
Com os lucros ou o dinheiro de venda de ações, quais serão as prioridades?
O presidente não quer tirar receitas recorrentes do Flamengo , das receitas tradicionais, para investir, por exemplo, em um estádio. Porque isso prejudicaria a nossa competitividade no futebol e nos outros esportes. A preocupação é que essa receita não venha do dia a dia, e esse seria um meio. Por exemplo, se vender uma participação dessas, você pode ter esse dinheiro, que não era "esperado", para investir sem prejudicar a competitividade.
Até onde eu sei, a prioridade desse dinheiro será para o estádio próprio. Estamos disputando a concessão (do Maracanã, mas são 20 anos, e tem muita gente querendo jogar no Maracanã. Um investimento em um estádio moderno pode ser um grande negócio.
Anúncio do BRB sobre aprovação do Banco Central — Foto: Reprodução
O clube e a BRB pretendem abrir capital?
O projeto de ser dono do banco digital já foi aprovado pelo Conselho. Mas qualquer próximo passo temos que debater. Não entrou em pauta ainda. Para montar qualquer negócio era preciso o Banco Central autorizar. Agora vamos formalizar a companhia.
Podemos entrar com o BRB e colher o dividendo, mas podemos também vender uma parte para capitalizar e fazer mais algum investimento. Jamais vamos vender tudo porque é o nosso banco. O primeiro passo é implementar, é virar Nação BRB Fla.
O acordo para estampar a marca na camisa segue ou será remodelado?
A gente tem a expectativa de que a exibição da marca sempre faça parte da parceria global que nós temos. A gente exerga como uma parceria eterna, ou muito duradoura, mas as coisas são dinâmicas. Em algum momento a exibição da marca pode se ampliar ou mudar de lugar... Eles podem querer pegar todos, ou mudar para as costas, não tem como prever.
O BRB tem sido parceiro do Flamengo em várias operações, é algo que está se ampliando. A exibição da marca sempre foi um componente da parceria. Nunca foi um contrato tradicional de patrocínio. É uma parceria de negócios. Isso (a estampa da marca) é a ponta do iceberg, como o presidente Landim sempre enfatizou. Para o Flamengo é muito bom. Banco bem gerenciado dá lucro. Isso foi uma coisa desenvolvida pessoalmente pelo presidente Rodolfo Landim, juntamente com Paulo Henrique (presidente do BRB).
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