Foram 40 anos no futebol - que não terão acréscimos - e diversos títulos.
"Não quero mais. Estou cansado", contou ao ESPN.com.br, o médium Robério de Ogum, que não gosta muito de ser chamado pelo termo umbandista "babalorixá" - "É um nome folclórico", explica.
Se o nome não necessariamente traz alguma lembrança mais concreta, certamente alguma das histórias que o envolvem trará. Como o "desenterro" do sapo atrás de um dos gols do Parque São Jorge, do Corinthians , em 1977. Ou o uso de meias brancas, em vez das verdes, pelo Palmeiras , nas finais do Campeonato Paulista de 1993.
(O torcedor mais atento percebe que, ainda atualmente, como na final da Copa do Brasil de 2015, o Palmeiras vai para jogos decisivos com meias brancas).
Por quase quatro décadas, Robério fez parte de comissões técnicas de grandes equipes de futebol e de outros esportes. A maior parte delas ao lado do amigo Vanderlei Luxemburgo, atualmente no Vasco da Gama .
Com o "neguinho", como ele carinhosamente chamava o multicampeão treinador, a relação iniciada em 1990, quando Robério cravou o Bragantino campeão paulista, teve duas rupturas sérias.
A primeira, por causa de um assistente-técnico, um pouco antes de Vanderlei assumir a seleção brasileira .
"Eu não queria que ele levasse o Oswaldo de Oliveira para a seleção", revela Robério. "Ele estava no Elias (famoso bar no bairro de Perdizes, em São Paulo, do qual Luxa foi sócio), reunido com o Oswaldo e a CBF para dar a resposta, e comigo no telefone ao mesmo tempo", conta.
A resistência com relação a Oswaldo tinha a ver com questões espirituais. Segundo ele, o assistente não iria trazer boas energias para o trabalho de Luxemburgo, que bancou o amigo boleiro e perdeu o amigo médium por mais de dez anos.
Outro assistente que também não caía nas graças de Robério era Deivid, que fora atacante de Luxemburgo em diversos clubes e começara a carreira de treinador como auxiliar do técnico.
Mais uma vez, ele via que a energia de Vanderlei - "Um cara muito místico", como afirma Robério - era atrapalhada pela do ex-jogador.
Tendo sobrevivido à explosão no número de jogadores evangélicos no futebol, Robério levou sua influência a outros esportes e à política.
"O José Roberto Guimarães e a Ana Moser conversavam bastante comigo", afirma. "Eu previ a morte de um grande líder seis meses antes de o Tancredo Neves se eleger", conta.
"Previ também que a Luiza Erundina ia ser prefeita de São Paulo quando ela ainda nem estava bem nas pesquisas", conta. "E avisei ao Collor que não adiantava trocar de assinatura, como ele queria fazer, pouco antes da crise do impeachment", revela.
Mas o futebol começou na vida de Robério no Parque São Jorge. Por coincidência, no sincretismo religioso, Jorge é identificado com Ogum, o orixá que é seu guia e compõe seu nome.
Oswaldo Brandão e Vicente Matheus, em 1977
O primeiro trabalho de Robério de Ogum no futebol foi em 1977, pelas mãos do lendário técnico Oswaldo Brandão. Aos 18 anos, o médium veio a São Paulo para uma consulta espiritual com Márcio, filho do técnico então no Corinthians, gravemente doente.
A proximidade com o treinador fez com que ele ficasse conhecido no Parque São Jorge - inclusive pelo presidente Vicente Matheus. O Corinthians caminhava para completar seu 24º ano sem conquistas. E Matheus viu nele mais uma possibilidade de colocar fim no incômodo e longevo jejum.
O método de Robério consiste em orar muito, pedindo proteção e orientação às entidades, ate receber algum direcionamento. Foi assim que ele soube que tinha de cavar atrás de um dos gols da Fazendinha, antigo estádio alvinegro. De lá, desenterrou uma ossada que, segundo o médium, atrapalhava o Corinthians.
"A história de o osso ser de sapo foi ideia do Matheus", conta Robério.
O fato é que o Corinthians foi campeão. E com o gol decisivo sendo anotado por um jogador que Robério via como iluminado, mas que não era artilheiro, o meia Basílio.
A fama se espalhou
A fama do médium se espalhou rapidamente nos bastidores do futebol, e Robério de Ogum trabalhou com diversos clubes.
A pedido do ex-presidente Milton Teixeira, que era umbandista, ele esteve ao lado do Santos que venceu o Corinthians na final do Paulista de 1984.
(Robério voltaria ao Santos em todas as passagens de Vanderlei pela Vila Belmiro)
Em 1985, foi o bicheiro Castor de Andrade, então patrono do Bangu, que o quis ao lado do time que faria a final do Campeonato Brasileiro com o Coritiba - deu Coxa.
A história com Vanderlei Luxemburgo começou no dia em que ele disse em uma rádio de Bragança Paulista que o time da cidade seria o campeão paulista.
"Eu não sabia quase nada sobre o clube, que era muito modesto na época. Mas durante a entrevista na rádio, o Sr. Ogum tomou minha frente e eu disse que o Bragantino seria o campeão", conta Robério.
O Braga tinha um jogo decisivo para fazer contra o Palmeiras, que era favorito, e a audácia de Robério caiu nos ouvidos de Marcos Chedid, ainda hoje presidente de honra do clube, e, claro, nos de Vanderlei Luxemburgo.
"Eu fui ao clube conhecer o Vanderlei e ele me perguntou se eu achava mesmo que ia dar Bragantino, e eu reafirmei minha convicção", conta. "Só que eu dizia pra ele que havia um jogador mais iluminado que os demais no grupo, que era o Tiba", conta.
"Só que o Tiba não era titular absoluto daquele grupo, e o Vanderlei não aceitava", conta Robério.
O Bragantino eliminou o Palmeiras na semifinal do Campeonato Paulista e, na final, venceu o Novorizontino, com um gol de Tiba.
Luxa, irreversivelmente, pegava, desse modo, confiança no médium.
Acabar com o jejum do Palmeiras
Ainda em Bragança, pouco tempo depois da conquista, Robério recebeu mais uma mensagem e a repassou para Luxemburgo.
"Nós vamos tirar o Palmeiras da fila", disse ele ao técnico, que não entendia como aquilo se daria, já que não tinha qualquer contato com dirigentes do clube alviverde.
Foi nessa época que veio para Vanderlei o convite para dirigir o Flamengo , clube pelo qual o técnico sempre teve adoração. "É a grande paixão da vida dele", afirma o médium, que foi contra a mudança para o Rio naquela época.
"Não era a hora dele, eu tentei avisar, mas ele não me escutou e, mesmo sabendo que não daria certo, eu fui para o Flamengo com ele".
Segundo Robério, a ida de Vanderlei para a Gávea veio fora de hora, e inclusive atrapalhou uma possível ida do treinador para a seleção brasileira.
Foram 8 meses de insucesso no clube carioca, até Vanderlei brigar com o presidente Márcio Braga e ir para a Ponte Preta, mais uma vez, contra a recomendação do médium.
Era lá que ele estava quando foi contratado pelo Palmeiras.
Meias brancas
Procurado pelo técnico Nelsinho Baptista e o lateral-direito Giba, Robério de Ogum aceitou ajudar o Corinthians em 1993, sob uma condição:
"Se o Vanderlei me chamar para o Palmeiras, eu vou", disse ele. E assim aconteceu.
No clube alviverde, o médium teve uma de suas jornadas mais vitoriosas, conquistando Paulista, Rio-São Paulo e Brasileiro em sequência.
Foi de Robério a recomendação para que o Palmeiras usasse meias brancas, em vez de verdes, na segunda partida da decisão contra o Corinthians.
"Eu queria luz, que os jogadores vissem luz, algo que se destacasse. E o branco das meias, em contraste com o verde da grama, ia trazer esse efeito", contou ele.
Além das meias, Robério benzeu todos os uniformes que seriam usados, além da camisa de seda branca que o treinador usou no jogo decisivo.
O médium tinha certeza da vitória. E visualizava o Palmeiras devolvendo os placares das duas derrotas que sofrera para o maior rival - na 1ª fase, perdeu por 3 a 0. Na primeira partida da final, foi derrotado por 1 a 0, com o famoso gol de Viola, comemorado com uma imitação de porco.
E assim foi: no tempo normal da segunda final, o Palmeiras fez 3 a 0 no Alvinegro. Na prorrogação, 1 a 0.
Flamengo campeão com Luxa
Em 1995, Vanderlei foi novamente ao Flamengo, para dirigir o time do "melhor ataque do mundo", que àquela altura ainda não tinha Edmundo, "apenas" Sávio e Romário.
Mais uma vez, o médium disse ao técnico que não era o momento de ir para o Rubro-negro, mas ele foi - e Robério com ele.
A passagem, ainda no primeiro semestre, começou a dar água. Um dia antes de o Fla perder a final do Campeonato Carioca para o Fluminense de Renato Gaúcho, em junho, Robério percebeu que as coisas iam dar errado.
"Eu torci o pé, caminhando na rua (na Barra da Tijuca). Aquele sinal era claro para mim", conta. "Mas eu disse a ele que ele ia ainda ser campeão no Flamengo, mas na hora certa".
E essa hora veio, em 2011 - 12 anos depois de eles terem rompido por conta de o treinador ter mantido Oswaldo de Oliveira em sua comissão técnica na seleção brasileira .
Naquele ano, o clube carioca conquistou o Estadual invicto, condição que manteria até a 16ª rodada do Brasileiro, que veio na sequência.
A esta ida ao Fla, Robério não se opôs. Luxa ligou para ele ainda técnico do Atlético-MG , e Robério anunciou que a próxima parada de Vanderlei seria o título no Rio.
"Fazia mais de dez anos que não nos falávamos. 'Fico feliz de falar com você, neguinho', eu disse a ele", contou o médium.
Dinheiro, Sampaoli, Mancini e Bruno Henrique
Robério de Ogum nunca discutiu questões financeiras com os clubes em que trabalhou.
"Nunca falei de dinheiro, mas sempre fui bem remunerado", afirma. "Eu considero que, em uma função como a minha, primeiro você mostra os resultados. A recompensa vem depois", diz.
"Não nego, não. Ganhei muito dinheiro com o futebol. O Castor de Andrade, por exemplo, dava muito dinheiro", conta.
Robério e Luxa, seu grande parceiro no futebol, seguem amigos. Mas a dupla já não trabalha mais junta desde 2014, quando Luxa foi pela terceira vez para o Flamengo, e Robério recomendou que ele não contratasse Deivid como seu auxiliar.
Desta vez, no entanto, não houve uma ruptura traumática. Robério já estava cansado do futebol, que ele passou apenas a assistir - embora siga sentindo as suscetibilidades espirituais dos seus personagens.
Da maneira de ser de Jorge Sampaoli, por exemplo, ele é fã:
"Ele fica incorporado na beira do campo", afirma. "A energia que ele passa, tira do jogador algo que ele muitas vezes não tem, parece o Vanderlei", diz ele. "Sem ele, o Santos não seria nem 6º colocado no Brasileiro", afirma.
Outro técnico cuja energia também foi elogiada por Robério foi Vagner Mancini.
"Com ele, o São Paulo teria sido campeão paulista. Mas o Cuca chegou e mexeu com a energia", garante.
Já entre os jogadores, ele destaca dois do Flamengo, que brilharam no Brasileiro.
"Quando vejo o Bruno Henrique correndo, ele nunca está só. Tem sempre uns dois ou três espíritos correndo junto com ele, dando forças a ele", afirma.
"O Gerson também. Falam muito de outros, mas ele é o coração daquele time. Joga brincando", diz.
No fim das contas, conhecimento técnico-espiritual à parte, a receita de Robério de Ogum para equipes vencedoras é relativamente simples:
"O futebol é coletivo, pura emoção. Se não há paz de espírito, não há time que consiga sucesso".