Antes da revolução administrativa e financeira pela qual o
Flamengo
passou nos últimos anos, Marcos Braz já havia liderado o futebol do clube em conquistas de expressão com menos recursos. Após passagens marcadas pelos títulos da Copa do Brasil em 2006 - como um novato diretor de 38 anos aconselhado a usar terno para “impor um pouco mais de postura" - e o Brasileiro de 2009 - ocasião em que se notabilizou por administrar um vestiário repleto de jogadores polêmicos, como Adriano -, o dirigente sofreu uma transformação quando atuou na política.
Secretário de Esporte do Rio durante os preparativos para as Olimpíadas de 2016, Braz passou por uma espécie de banho de loja, teve o discurso afinado e a imagem trabalhada. O terno e a gravata se mantiveram, agora com um manequim maior, que ele tenta diminuir em caminhadas na orla da praia da Barra da Tijuca, enquanto trata dos assuntos do futebol do Flamengo. Mas o velho “Marquinhos”, como é conhecido na Gávea, ás vezes reaparece:
- Não tem ninguém incontestável no Flamengo, na vida e no futebol. A gente atravessa um bom momento, eu vou aproveitar esse bom momento. Mas passar o Mundial começa o processo tudo de novo. Todo mundo é avaliado. Meu trabalho vai ser avaliado de novo. Por você, pelo presidente. Quem achar que não é assim no futebol, é o princípio da desgraça - ensina.
LEIA MAIS:
Flamengo contrata o atacante Thiago, do Náutico
Como os ingleses contam a derrota de 1981
Landim fala sobre renovação de Jesus
Assim que deixou a função no Flamengo em 2010, para a qual foi convocado pelo ex-presidente Delair Dumbrosck, Braz viu o mandato de Patricia Amorim, que o demitiu, se encerrar nos anos seguintes, mas deixar como legado o melhor contrato de televisão e de fornecedor de material esportivo (Adidas) da história do clube. Mesmo com uma dívida que passava dos R$ 700 milhões, a receita ajudou a dar o pontapé inicial da reconstrução.
O retorno ao Flamengo se deu quando os grupos do ex-presidente Eduardo Bandeira de Mello e os dissidentes da chamada chapa azul, do qual fazia parte o atual presidente, Rodolfo Landim, já se desentendiam politicamente, na tentativa de convencer torcedores e sócios quem era o "pai" da gestão que mudou os rumos do clube. No último triênio, Braz foi integrante do Conselho de Administração, posicionado como oposição. E foi dali que acabou pinçado pela chapa que reuniu diversas correntes políticas para voltar ao poder, e levou o Flamengo ao ano mais vitorioso de sua história desde 1981.
A ideia original de Marcos Braz era marcar posição e se candidatar a presidente como uma terceira via. Problemas de saúde de sua mulher na época foram alegados para frear a iniciativa e se alinhar a Landim, do qual virou uma espécie de "cão-de-guarda" para os assuntos do futebol. Questionado sobre como se inseriu no grupo de empresários, Braz deixa claro que seu currículo respondia por si.
- Nunca tive preocupação com isso, até em função dos resultados que eu tive lá atrás. Se me perguntavam algo, era em função do meu histórico, de ter sido campeão brasileiro, diretor de futebol no título da Copa do Brasil. Não tive essa preocupação de azul (chapa), de nada - afirmou o vice de futebol, que também respondeu se concorda que o grupo que se dividiu revolucionou o clube.
- Flamengo tem 124 anos de história. Durante esse processo, alguns grupos podem ter ajudado a dar uma musculatura maior. O clube tem muita idade para só A, B ou C... Mas vou falar da atual gestão. A atual gestão neste primeiro ano está acima da média. Campeão no futebol, no remo. O presidente está muito bem, conseguindo fazer as entregas, não é brincadeira, é muito complexo. Ele tem experiência para ter o controle disso tudo.
Os elogios a Landim não são por acaso. O presidente dá autonomia a Marcos Braz e contraria uma ideia inicial de que o Conselho do Futebol tomaria as rédeas a pasta para evitar uma volta do Flamengo aos velhos tempos de más administrações financeiras. O vice de futebol entendeu onde estava pisando e se uniu aos integrantes do conselho, aos profissionais remunerados alçados em funções executivas, para honrar o orçamento do clube, e adicionou a isso um certo carisma.
Por exemplo, ao adotar a expressão “gelo no sangue”, sinônimo de que não haverá loucuras, e a utilizar as redes sociais para interagir com a torcida na dose certa. Ao comentar a parceria desenvolvida com o diretor de futebol Bruno Spindel e o gerente Paulo Pelaipe, Braz chegou a se emocionar com a lembrança do dia em que o trio jantou para comemorar a conquista da Libertadores.
- Estávamos felizes demais. Falamos ali umas coisas para o outro. Lembrando aqui fico emocionado (Braz enxuga lágrimas no guardanapo que dobrou dezenas de vezes durante a conversa). Falando que nunca mais seríamos os mesmos, por mais que a vida separe a gente, sempre lembraríamos um do outro - disse. E foi além em dividir os méritos:
- Não tinha a relação que tinha com o Bruno, com o Pelaipe. Quando eu falo nós três, é porque estávamos no jantar. Não conhecia o conselho do futebol (composto por Diogo Lemos, Fabio Palmer, Dekko Roisman e o vice de relações externas Luiz Eduardo Baptista). Mas nossa relação, até pelas conquistas, não será igual. Se vai ter briga, discussão, terá, mas as relações, depois de um título dessa magnitude, esse a gente leva para a vida, não tem jeito.
Marcos Braz ainda valoriza o papel de vice de futebol, mas entende que a função perderá cada vez mais importância nos clubes. Por isso, deixa claro que acompanha e executa as tarefas da pasta, mas se concentra na defesa da instituição. Tanto que foi ele que liderou as chegadas de Gabigol e Jorge Jesus, principais nomes da campanha de 2019.
- Acho que é um caminho sem volta. O executivo tem que ter importância mesmo. Dentro do estatuto tem a figura do vice-presidente de futebol, institucional, se tiver uma pessoa que possa ajudar pra que dê mais tranquilidade no departamento, isso é bom. A pessoa tendo um histórico no futebol, uma relação, acho que é bom para todo mundo - explicou.
Braz se afata ainda mais da imagem de dirigente nos moldes mais antigos. Curiosamente, após o título da Libertadores, o dirigente saiu em foto do Flamengo fumando um charuto no vestiário em Lima, no Peru. Segundo ele, alguém colocou lá para a ocasião do título e ele aproveitou para comemorar e posar para foto. Nenhuma referência ao ex-presidente do Vasco Eurico Miranda.
- Não fui eu que levei o charuto, não comprei, não era meu. Se fosse meu eu falava. Mas não era. Alguns jogadores estavam comemorando, peguei um, tirei uma foto. A única relação que tem com o Eurico é que ele gostava de charuto e foi campeão da Libertadores também - citou.
Embora tenha um jeito um pouco mal-humorado atrás das câmeras que lembra dirigentes da antiga, Marcos Braz tem na habilidosa articulação interna um dos segredos de sucesso. Foi assim que reformulou o futebol do Flamengo em 2019. Aceitou o pedido de Landim para que Spindel fosse alçado ao futebol, mas trouxe Pelaipe como seu braço direito. Ajustou a posição de Carlos Noval, que virou um elo entre base e profissional, quando muitos entendiam que ele deveria ser desligado apos ocupar o cargo de diretor.
- Teve mudança no meio do ano, o Noval foi para a área de transição, em que aparece com contundência, tem experiência no futebol e na base, e está numa função importante. O Bruno tem um papel importante, com méritos. Pelaipe é o cabelo branco do futebol, a cabeça branca. Por mais que eu tenha experiência, vivência, sempre bom ter a cabeça branca no dia a dia do futebol. As pessoas se ajustaram nas funções. Tem o Gabriel (Skinner, supervisor), com aquele tesão de quem está querendo aproveitar a oportunidade. Foi uma conjuntura que se construiu. E como eu acho que o futebol não tem só um caminho, foi o que a gente encontrou. Parece que deu certo - encerrou.