O Flamengo tem as suas datas marcantes para comemorar ao longo de cada ano: 15 de novembro, dia de fundação do clube; 3 de maio, data do primeiro jogo de futebol rubro-negro; 13 de dezembro, aniversário do título do Mundial de Clubes, sua maior conquista; 3 de março, considerado o "Natal Rubro-Negro" pelo nascimento de Zico, seu maior ídolo; 28 de outubro, tratado como "Dia do Flamenguista" por ser junto com seu padroeiro, São Judas Tadeu... E por que não 6 de abril?
Foi nesta data, que completa 40 anos neste sábado, que o Flamengo teve pela primeira e única vez em seu time o Rei do Futebol, Pelé (veja no vídeo acima) . E o motivo foi uma causa nobre: um amistoso beneficente para arrecadar fundos para as vítimas das enchentes em Minas Gerais, que teve mais de 30 dias de chuva entre janeiro e fevereiro, milhares de desabrigados e 246 mortos. A partida recebeu 139.953 pagantes (até o presidente João Figueiredo) e teve renda de CR$ 8.781.290,00.
Pelé e Zico juntos pelo Flamengo em 1979 — Foto: Site oficial do Flamengo
Pelé tinha 38 anos na época e estava aposentado há duas temporadas. Mas treinou uma semana em Santos para o jogo e, na véspera, participou de um coletivo já com o time do Flamengo na Gávea. Porém, havia um impasse: quem iria sair do time para o Rei entrar? Ninguém queria ceder, pois todos gostariam de ter a honra de jogar ao lado do melhor jogador de todos os tempos. Sobrou para Adílio, que foi "vetado" pelo departamento médico, mas só na versão oficial:
– Que nada, aquilo foi tudo armado. O Tita me deu uma encostadinha no treino, o massagista entrou, já me pegou no colo e falou: "Doutor, engessa ele" (risos). Depois que o Cascão, filho do Cláudio Coutinho, escutou a conversa e me contou. Falaram que o Adílio é um cara legal, bonzinho, não vai se importar, e sobrou para mim (risos). Foi uma honra ter cedido meu lugar para o Pelé. Preferia ter jogado com ele, mas tudo certo. E ficou marcado na nossa história, o início daquela geração. O Pelé brindou o manto sagrado com a sorte que sempre o acompanhou.
Naquela ocasião, o Rei jogou com a camisa 10, cedida por Zico, que virou o número 9 naquela noite. "Machucado", Adílio não ficou nem no banco, mas estava com a delegação no Maracanã e assistiu ao jogo no meio da torcida. Se não entrou em campo nesse dia, ele ao menos realizou um sonho de infância que bateu na trave duas vezes por caprichos do destino:
– Eu sempre quis conhecê-lo. Quando tinha sete anos, dois empresários estavam procurando um garoto para fazer um filme do Pelé e foram lá na Cruzada. Pessoal me indicou, mas minha mãe não me deixou ir para Santos. Anos depois, já no infanto-juvenil do Flamengo, teve um campeonato onde o melhor jogador iria tirar uma foto com o Pelé para a Revista Manchete. Eu fui o escolhido como melhor, mas a categoria acima me levou e não pude fazer a foto, foi um amigo no meu lugar. Ou seja, o único que não podia sair do time era eu. Foi brincadeira, me "sacanearam" (risos).
Júnior levou até quadro para Pelé autografar no vestiário do Flamengo — Foto: Arquivo Pessoal
No Maracanã, o adversário foi o Atlético-MG de Dadá Maravilha, João Leite, Toninho Cerezo... O Rubro-Negro goleou por 5 a 1, e os jornais relatam uma boa apresentação do astro da noite, que jogou só o primeiro tempo, mas não balançou a rede como fez mais de mil vezes. O placar foi construído com um hat-trick de Zico, um gol de Luisinho e outro de Cláudio Adão, enquanto Marcelo descontou para o Galo. Em campo naquele jogo, Júnior não esquece até hoje:
– A lembrança é de estar jogando do lado do maior jogador de futebol de todos os tempos. Para a gente foi a maior honra. Aquela semana foi bem agitada para a gente, pois nós teríamos a oportunidade que poucos tiveram, de pelo menos um dia jogar ao lado do Rei. Todo mundo querendo tirar foto, até hoje eu tenho a minha com o Rei no vestiário. Levei um quadro que tinha de um jogo com ele na seleção brasileira contra o Flamengo para ele autografar.
O Maracanã ficou lotado para ver os craques dos dois times, principalmente Pelé e Zico juntos. Apesar dos três gols do maior ídolo rubro-negro, quem roubou a cena naquela partida foi Júlio César. O camisa 11 da Gávea foi um dos garçons da noite com assistência e levantou a torcida com seus dribles que entortavam os marcadores na ponta esquerda. Foi ali que ganhou o apelido de Uri Geller, famoso ilusionista dos anos 70 que entortava talheres "com a força do pensamento".
– Poxa, jogar com o Pelé era meu sonho. E foi incrível, irmão. Imagina, para um garoto que vendia amendoim na porta de casa, na porta do clube, tomava conta de carro, poder fazer um ataque com o Pelé e Zico, para mim foi a coisa mais linda do mundo. Me sinto orgulhoso por isso. Procurei ele o jogo todo para que fizesse um gol, ele estava pedindo muito para fazer, infelizmente não consegui. Na hora do pênalti, achei que ele iria bater, mas ele deu para o Zico. Nesse dia as coisas deram muito certo para todos, para mim também. Me parece que depois desse jogo o Waldir Amaral ou o Jorge Curi me colocou esse apelido, que tenho o maior orgulho dele até hoje.