​Por Thiago Silva


Para os mais desavisados (ou mais novos), a expressão "boi de piranha" é mais velha que meus bisavós. Desde pequeno a ouço e rapidamente explico aos desconhecedores: acompanhado de seu gado, você precisa atravessar um rio repleto de piranhas. Para isso, escolhe um dos bois, geralmente o mais velho, doente, e sacrifica, jogando-o às predadoras, para atravessar com o restante.




Agora, guardem essa história, será necessária. Mas antes de voltarmos ao 'boi de piranha', vamos levantar alguns pontos.


A Rússia foi palco do maior escândalo de dopping recente no mundo esportivo. Não à toa, o atletismo do país foi afastado da última Olimpíada, deixando grandes nomes fora dos jogos. Agora, essa mesma Rússia será sede do maior evento esportivo do planeta. Ou seja, punir alguém por dopping, principalmente um grande jogador, com certa importância, em plena Copa do Mundo da Rússia, é extremamente simbólico.


Paolo Guerrero é um atacante de renome internacional. Conhecido pelo mundo da bola, mas sem uma comoção mundial através de seu nome. Se no lugar de Guerrero fosse Cristiano Ronaldo, Messi ou Neymar, tenho (não posso afirmar para não ser leviano) convicção (não tenho provas, mas está na moda...) de que estariam na Copa. Entretanto, o personagem aqui é Paolo Guerrero.


A comoção pela não participação do peruano na Copa do Mundo se resume aos seus compatriotas e aos admiradores de seu futebol, principalmente, brasileiros (e rubro-negros). Portanto, Paolo Guerrero é um alvo fácil, grande e extremamente simbólico.


Não digo aqui que Guerrero não merecesse ser punido. Acredito que o jogador é, sim, responsável por aquilo que consome. Ele ingeriu um chá que, indiscutivelmente, proporcionou uma melhora no seu estado de saúde e, evidentemente, uma melhora em seu desempenho técnico. Agora, a discussão é o tamanho dessa punição e como, e porquê, foi dada.


O jogador não consumiu porque quis, não foi uma ação deliberada para burlar as leis. Mas não importava. A punição a Paolo Guerrero já estava certa no momento em que seu exame atestou positivo.


A punição do atacante é um marco: o jogador mais importante de um elenco que leva seu país de volta ao mundial, depois de 36 anos, sendo impossibilitado de atuar por conta de dopping, na Copa do Mundo sediada em um país que é um dos centros do problema de dopagem no esporte. Curioso, não? O simbolismo da ação é inegável.


Voltamos aqui ao 'boi de piranha'. Deu pra entender agora? Guerrero não está sendo punido pelo seu caso específico. Guerrero está sendo punido para ser exemplo. Está sendo punido para deixar a mensagem: não importa quem seja, dopping não será tolerado.


O problema é que esse talvez seja o 'boi de piranha' mais injusto da história.