A eliminação de um time sul-americano na semifinal do Mundial de Clubes é cada vez mais normal. A empáfia reinante no futebol brasileiro impede que muitos por aqui entendam essa realidade. Temos o costume de desvalorizar os adversários dos outros continentes, imaginando que somos sempre melhores. E seguimos pagando tal mentalidade com resultados ruins.

O Flamengo foi mais um campeão de Conmebol Libertadores a ser eliminado por clubes da Ásia ou da África. É preciso enxergar a derrota dentro do contexto. Não para isentar o clube de suas responsabilidades, mas para não dar o diagnóstico errado da eliminação. Porque esse tem sido o maior problema dos nossos clubes e até da seleção nos torneios da Fifa: não entender como e por que perderam.

A derrota do Flamengo começa na troca de técnico . Dorival Jr. havia encontrado um padrão tático próprio, que estava dando certo. E tinha um ótimo ambiente com os jogadores. Embora a diretoria nunca tenha explicado os motivos da troca de treinador, o que se comentou na época foi que o clube buscava um técnico de mais "nível", com passaporte internacional. Teoricamente, com maior repertório tático para ganhar do Real Madrid . Olha aí o nosso erro anual de ignorar a semifinal.

Muita gente criticou Dorival ao final da temporada porque o time – apesar de ganhar a Copa do Brasil e a Libertadores – não manteve na reta final do ano o desempenho que alcançou meses antes. Essa queda não pode ser creditada ao técnico. Um time que disputa tantas competições no calendário brasileiro, com a exigência de ganhar todas, é submetido a um desgaste físico e psicológico excessivo e cai de rendimento. Não foi a primeira vez que o Flamengo sofreu com isso nos últimos anos.

Dorival teve o enorme mérito de, ainda assim, conquistar dois dos maiores títulos do país. Soube entender as dificuldades e montar estratégias para buscar as vitórias. Nesta trajetória enfrentou Vítor Pereira em dois duelos eliminatórios e ganhou ambos. Mas "santo de casa não faz milagre" e o desempenho do vizinho pareceu mais interessante.

Vítor Pereira não teve tempo para pensar novas estratégias e fez leituras erradas nos dois jogos decisivos que encarou. Na derrota para o Al Hilal , entregou o meio-campo ao time saudita no segundo tempo, após a expulsão de Gerson. Não é por acaso que 99% dos treinadores, diante da expulsão de um atleta, optam por montar o time no 4-4-1. A faixa central do campo é onde o jogo se desenrola. Ganhando o meio, você marca melhor e cria melhor. Vitor preferiu deixar os dois atacantes (excelentes, mas alguém teria que ser sacrificado) e deixar o meio-campo com três jogadores. O resultado foi trágico.

Em inferioridade numérica, os jogadores de meio do Flamengo não conseguiram construir os ataques com qualidade e muito menos marcar o Al Hilal. O time saudita, caso tivesse um pouco mais de calma, poderia ter feito mais gols diante da enorme quantidade de bolas que recuperou no campo de ataque. O segundo tempo do Flamengo foi uma sequência de erros interrompida um gol quase casual de Pedro. Muito disso está conta do técnico que foi contratado para apresentar soluções melhores do que o cara que o superou duas vezes.

A diretoria também poderia ter tido outra atitude com Rodinei, peça importante do segundo semestre do ano passado. A permanência do lateral-direito, que chegou a ser pedido por alguns para a seleção, nunca entrou nos planos. O uruguaio Varela, contratado para ser titular da posição, não conseguiu se provar melhor do que Matheuzinho – reserva de Rodinei.

O planejamento da preparação física também pode e deve ser questionado. O time esteve longe da energia e da intensidade que mostrou entre agosto e o início de novembro. E teve muito tempo para fazer uma pré-temporada. Afinal o último jogo pra valer havia sido a final da Libertadores, ainda em outubro.

Sim, Matheuzinho e Gerson cometeram pênaltis infantis. Talvez por excesso de nervosismo. Talvez por algum despreparo tático. Mas essas situações, como as várias outras em que o Flamengo falhou no jogo, se explicam pelo contexto.

O Flamengo profissionalizou a gestão financeira. Mas segue amador no futebol. Já passou da hora do departamento ser gerido por profissionais.