Um mergulho nos números defensivos do Flamengo conduz a uma das maiores disparidades entre chances permitidas aos rivais e gols sofridos. Estatísticas precisam ser interpretadas, mas o caso rubro-negro parece muito peculiar. É um time que assume riscos e, por isso mesmo, torna-se natural ser pego mais exposto quando não consegue recuperar a bola no campo de ataque. Mas não parece estar aí a causa principal dos gols sofridos na Libertadores. O peso das bolas paradas defensivas, em especial dos escanteios, é enorme. Problemas recorrentes num momento específico do jogo.
Não significa que o sistema defensivo rubro-negro seja perfeitamente coordenado e imune a defeitos, mas vale examinar alguns dados. Embora tenha suas imperfeições, a métrica conhecida como Xg, ou gols esperados, costuma ser útil. O Xg mede a “qualidade” das oportunidades, a probabilidade de que se transformem em gols, calculada através de modelos matemáticos. Nos seus cinco jogos da Libertadores até aqui, o Flamengo permitiu aos adversários finalizações que, somadas, conduzem a um Xg de 4,09 gols. Mas sofreu nove. É dos maiores desvios do torneio sul-americano. O número indica que o rubro-negro concede poucas oportunidades, em número e em nível de perigo: é o sexto melhor da fase de grupos neste aspecto, ou seja, tem o sexto menor número de gols esperados criados pelos adversários. O caso é que não tem sido preciso criar chances tão claras para vazar o Flamengo.
O número de finalizações sofridas tampouco indica um time totalmente exposto. Na média por jogo, o Flamengo é também o sexto da fase de grupos da Libertadores – permite 7,01 arremates por 90 minutos. No entanto, os nove gols fazem do rubro-negro a sétima pior defesa dentre os 32 times que estão na competição.
E aí entram os escanteios contra o Flamengo. Juntos, resultaram em finalizações que, somadas, conduzem a um Xg de 1,25: 30% dos gols esperados permitidos pelo Flamengo surgiram de um só tipo de lance. E, ainda assim, o time tomou quatro gols.
Números à parte, outra questão emerge do 2 a 2 com a LDU, jogo obviamente condicionado pela expulsão precoce de Willian Arão e por incluir o Flamengo e Ceni na lista de clubes brasileiros que se permitiram um contorcionismo para cumprir um calendário criminoso. É impossível analisar a decisão de Rogério por privilegiar o Fla-Flu do Estadual de forma desvinculada de sua postura defensiva, com um espírito um tanto armado, na entrevista coletiva.
A sensação é de que, mesmo campeão brasileiro, Ceni nunca terminou de convencer parcela importante da torcida. Vive sob uma pressão típica do ambiente tóxico do futebol brasileiro, agravada pelo sarrafo alto e, por vezes exagerado, imposto aos times mais ricos do país. E ele parece ter tal percepção. É provável que não tenha tomado sozinho a decisão de poupar jogadores, gerenciando o jogo com a LDU de forma a preservar, para a decisão de sábado, uma escalação titular na qual nenhum integrante terá jogado os 90 minutos contra os equatorianos. A escolha surpreende num clube com a ambição do Flamengo, mas evidencia um técnico com a guarda alta para se esquivar de futuros golpes. O futebol brasileiro educou seus treinadores, mesmo os ousados como Rogério, a admitirem que em dados momentos é preciso tentar agarrar o troféu que parece mais à mão para se defender da turbulência inevitável.
Parece ter sido o que Ceni fez. Afinal de contas, foi isto que vimos na semana em que o futebol brasileiro colocou a Libertadores em segundo plano, privilegiando as finais locais. Nelas, treinadores lutarão por algo mais importante do que um troféu, cuja lembrança dificilmente resistirá ao tempo: eles lutarão por paz.