A clássica música transformada em hino pela torcida do Liverpool diz que "Você nunca vai andar sozinho". E, de fato, é difícil andar sozinho quando se é um fenômeno global. Quando a delegação desembarcou em Doha, não chegava ao Qatar apenas um grupo de jogadores, chegavam os rostos, as faces, a representação esportiva de uma grande organização transnacional com tentáculos em todo canto do planeta.
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O Khalifa International Stadium era uma torre de babel. Ainda que, claro, dominado por um verdadeiro mar de egípcios. Estima-se que haja 300 mil vivendo no Qatar. E o fenômeno Salah, herói nacional capaz de despertar fanatismo, um patamar acima da idolatria, conduziu fiéis seguidores e ajudou a criar novos torcedores.
— Eu e ele começamos a torcer pelo Liverpool por causa de Salah — disse o egípcio Mohamed, apontando para o filho Seifallah, de dez anos.
Herói, Rei do Egito, são muitas as formas que o povo do país usa para se referir ao seu grande embaixador. Na arquibancada, uma bandeira com um Salah alado, como um anjo, tremulava.
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No Oriente Médio, ele se transformou também num embaixador dos muçulmanos. Há uma percepção de que, em países como a Inglaterra, onde joga, o atacante se tornou um elo capaz de gerar inclusão e reduzir preconceitos. Mas especificamente para os egípcios, ele é um herói nacional.
— Claro que ele representa os muçulmanos. Mas nós não olhamos tanto desta forma. Acima de tudo, ele é um símbolo da pátria, um rei — afirmou Haysa Mustafa.
A legião global que se juntou para ver o Liverpool jogar, de tão diversa, produzia cenas curiosas. Numa tenda de entretenimento para o público, membros do staff do torneio organizavam uma fila para que torcedores pintassem o rosto. Até que os irmãos Mohasin e Arshad Haris, os dois com camisas do Liverpool e o nome de Salah às costas, pediram para pintar no rosto a bandeira da Índia.
— O Liverpool é muito importante em nosso país. Mas eu comecei a torcer antes de Salah, foi por causa de Suárez — afirmou Mohasin.
Mais adiante, outra enorme fila. Desta vez, por causa da exposição das taças da Liga dos Campeões da Europa, vencida pelo Liverpool, e da Liga dos Campeões da Concacaf, ganha pelo Monterrey, rival na semifinal do Mundial. Claro, a taça da América Central e do Norte viveu momentos de intensa solidão.
A construção de um clube global é mais do que vender a imagem de astros. Aparentemente, envolve uma sofisticada estratégia de construção de uma marca.
— Gosto do Liverpool porque tem cultura, história, valores — disse Prachya Wong, que saiu da Tailândia para ver o Mundial de Clubes. — Não perderia a chance de ver Salah, Mané e, claro, Firmino. Gosto muito do brasileiro.
Na multidão, havia até ingleses. Paul Smith, nascido em Liverpool e morador de Londres, chegava ao estádio carregando um livro escrito por Peter Crouch, ex-atacante dos Reds. E acreditava nunca ter ido a um jogo de seu clube com tão poucos ingleses.
— Devemos ser uns mil aqui, se tanto. Mas este é um clube global.