Após quase dois anos da ideia inicial e muitas conversas, o sonho de uma liga independente de clubes no futebol brasileiro começa a ganhar forma. Agora com planos de comercialização, valores, definições técnicas e empresas concorrendo para liderar a gestão do grupo de 40 times das séries A e B.
Na esteira do pontapé formal da carta apresentada à CBF no dia 15 de junho, os clubes se reuniram na última segunda-feira (28) para ouvir propostas e promessas financeiras dos interessados no negócio. Os projetos aos quais a reportagem da ESPN Brasil teve acesso foram divulgados inicialmente pelo “Globo Esporte”.
Idealizador do movimento de juntar clubes e pensar em uma liga sem participação de cartolas de federações e confederação brasileira, o grupo liderado pelo advogado Flávio Zveiter foi o primeiro a colocar suas ideias na apresentação aos dirigentes de clubes. Na mesa, uma promessa de 500 milhões de euros (mais de R$ 3 bilhões em valores atuais) em um aporte inicial para começar os trabalhos da liga.
Do outro lado, executivos da consultoria internacional KPMG e o advogado Pedro Trengrouse. Ainda que mais cautelosos, eles também prometem um aporte que possa chegar à casa dos R$ 3 bilhões em captações de receitas para os times.
A diferença entre ambos está nas questões técnicas de um novo Brasileirão e na participação de clubes no projeto. O grupo de Zveiter entende que a gestão da sonhada nova liga deva ser tocada apenas por executivos sem ligações com times e que cartolas só estariam presentes em um conselho superior, evitando conflitos de interesses em questões como distribuição de renda, calendário e até arbitragem.
Critérios para distribuição de verba bilionária
Em um planejamento pensado desde 2019, o grupo já esboçou até uma possível divisão de receitas. Clubes da Série A ficariam com 80% da grana, enquanto a Série B dividiria 20% do aporte inicial – respeitando seis critérios: maior número de títulos e vice-campeonatos, presença na primeira divisão, pontos acumulados na primeira divisão, tamanho da torcida em pesquisa recente, público pagante em média de temporadas recentes e divisão atual.
O montante oriundo dos direitos de transmissão seria distribuído respeitando diferentes critérios para TV aberta (posição na tabela), pay-per-view (quantidade de assinantes), direitos internacionais (posição na tabela) e propriedades no campo (igual para todos).
Zveiter, que pilota todo o planejamento direto de Nova York (EUA), e empresários como Ricardo Fort, que liderou os departamentos globais de Visa e Coca-Cola em diversas negociações de grandes competições esportivas, defendem ainda mudanças no calendário, um campeonato mais extenso (de 9 a 10 meses de duração) e menor número de rebaixamento e acesso entre as séries A e B.
Diferenças no debate sobre participação de clubes
Trengrouse, que conversou com Zveiter nas conversas iniciais do projeto e acabou buscando a KPMG por diferença de entendimento, acredita que os próprios dirigentes de clubes devam assumir a gestão da liga. O grupo também não pretende mexer inicialmente em questões de calendário, rebaixamento e acesso. Este mesmo grupo ainda não colocou na mesa propostas de divisão de receitas.
Um terceiro grupo, a Livemode, também marcou presença na reunião de segunda-feira (28). Eles não chegaram a falar em valores ou aportes iniciais e focaram sua apresentação em possíveis modelos de comercialização de direitos de transmissão e venda de propriedades.
Após as três conversas da última segunda-feira, os clubes das séries A e B já receberam sinalizações que propostas de outras consultorias internacionais serão apresentadas nas próximas semanas. A ideia é não adiar definições e constituir oficialmente a liga no início do próximo semestre.
Todo plano dos envolvidos aponta para um início de operação já no Brasileiro de 2022. No entanto, dezenas de dirigentes preferem a cautela e entendem que não haveria tempo hábil para cravar tal data. Um começo em 2023 não está descartado.