Se você é rubro-negro e tem pelo menos 20 anos, com certeza já ouviu falar da Liga dos Urubus.
Flamengo e LDU estão se enfrentando pela primeira vez na história em 2019, e nesta quarta-feira travam um duelo de vida ou morte na Libertadores para os equatorianos, e de classificação ou desespero para os brasileiros. Mas o que é rivalidade hoje durante muito tempo foi uma espécie de parceria para secar os rivais rubro-negros.
Tudo começou em 2008, quando o Fluminense chegou à final da Libertadores contra a LDU. Às vésperas da decisão, o Flamengo abriu as portas da Gávea para os equatorianos treinarem, e Guerrón e Bolaños, os destaques daquele time (e que curiosamente foram os protagonistas do gol do título) ganharam e vestiram camisa e gorro rubro-negros .
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Guerrón ganhou e vestiu a camisa do Flamengo antes da final em 2008 — Foto: GloboEsporte.com
Fora de campo, um movimento começou entre flamenguistas para transformar a parceria em "torcida oficial". E foi através do antigo blog "Urubuzada" que o rubro-negro Fábio Gil, mais conhecido como Gil Urubuzada, ajudou a espalhar a ideia. Influente nas redes sociais na época, o torcedor recebeu várias sugestões e explicou sua motivação:
– Sou um torcedor atípico, torço pelo Flamengo, mas gosto de futebol acima de qualquer coisa, e de alguma forma aquela campanha do Fluminense estava sendo interessante sob o ponto de vista do futebol. Mas quando chega à final são outros 500, se eles ganhassem poderiam sacanear a gente. E eu fiquei muito irritado com a declaração do Renato (Gaúcho) de que iria brincar no Brasileiro.
– Aí joguei alguma coisa no Twitter, mas já tinha um movimento de grupos de Orkut, via e-mail, que sempre alimentava o blog, e recebi uma porrada de coisa dessa galera. De alguma forma, ali começou uma mobilização de vários torcedores, vários blogs, e me movimentei junto para criar uma torcida para torcer contra o Fluminense – lembrou o publicitário, hoje com 40 anos.
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Fábio junto com o afilhado Guilherme, companheiros de torcida — Foto: Arquivo Pessoal
O nome escolhido para a torcida não nasceu de primeira. Diferentemente de outras torcidas anteriores em que se mesclavam as pronúncias – como Fla-Madrid e Fla-Boca, por exemplo –, daquela vez preferiram apostar em uma tradução alternativa da sigla LDU, que originalmente significa Liga Deportiva Universitária. E aí entra a participação de outro torcedor, Felipe Gouvêa.
– Pelo que recordo, ele ia colocar Liga Desportiva Urubulina ou algo semelhante. E, em uma troca de conversas, aleguei que seria um nome grande e de difícil assimilação. Daí sugeri reduzir para Liga Dos Urubus, e o nome vingou. Mas a iniciativa foi dele, só sugeri o nome. Eu trabalhava na Marinha na época, em um setor que tinha muito tricolor, e sacaneei muito. A zoação, brincadeira, faz parte, acho que é do espírito carioca.
– Eu estava lá no Maracanã no mês passado, no primeiro Flamengo x LDU, e lembrei dessa torcida. Não soube se chegaram a fazer camisas na época, até fiquei olhando para ver se tinha alguém com alguma na arquibancada, mas não achei – disse o também publicitário, de 43 anos.
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Felipe é sócio-torcedor e costuma ir ao Maracanã com a esposa Michelle e filho Eric — Foto: Arquivo Pessoal
A imagem que viralizou, misturando o vermelho e preto do Flamengo com o vermelho e azul da LDU, e com o mascote Urubinha" ao fundo, também não foi a única. Um "protótipo" mais simples, que também circulou pela internet, mostra o escudo rubro-negro dentro do equatoriano. O autor da criação que ficou famosa e foi parar até na imprensa equatoriana é Pedro Queiroz:
– Eu tenho formação na parte de designer gráfico e sempre gostei de tirar sarro, então gostava de fazer essas criações. Na época que estava no Rio trabalhava no Banco do Brasil, e meu chefe era Fluminense doente. Aí criei para tirar onda com ele, mas meus amigos me convenceram a divulgar e postei no "Kibe Loco" (site de humor). No dia seguinte já apareceu no jornal – recorda o designer, de 34 anos, que atualmente mora em Belém.
Ouça abaixo o podcast Fala, Fera! Neste episódio, direto de Quito, Eric Faria recebe Fred Huber e Ivan Raupp, setoristas de Flamengo, para debater tudo sobre o jogo decisivo entre o Rubro-Negro e a LDU.
Curiosamente, nenhum deles se conhecem pessoalmente e tampouco estiveram na arquibancada do Maracanã naquele 2 de julho de 2008, embora havia um movimento grande de rubro-negros na época atrás de ingressos. Fábio e Felipe "secaram" pela TV e comemoraram de casa o vice-campeonato do Fluminense, que venceu o jogo por 3 a 1 e perdeu nos pênaltis. Pedro chegou a ir ao estádio, mas ficou do lado de fora:
Pedro sempre frequentou o Maracanã, mas agora só pode quando visita a família no Rio — Foto: Arquivo Pessoal
– Eu morava bem próximo ao Maracanã, e no dia da final fui lá, tirei foto com os torcedores, mas não cheguei a entrar. Fiquei do lado de fora zoando mesmo. Lembro que teve um ambulante que confeccionou algumas camisas e estava vendendo no dia, mas a dele era Liga da Urubuzada, foi uma criação independente dele, mas não ficou legal.
A Liga dos Urubus teve motivos de sobra para comemorar desde então, com a fama de algoz que a LDU criou em cima dos rivais do Flamengo. Além da Libertadores de 2008, no ano seguinte o Fluminense voltou a ser vice para os equatorianos na final da Sul-Americana , e o Vasco no ano passado foi eliminado por eles do mesmo torneio . Mas agora está na hora de ser extinta.
Com a primeira "decisão" do Flamengo diante da LDU – se perder, precisará ganhar do Peñarol no Uruguai na última rodada ou secar os próprios equatorianos contra o lanterna e já eliminado San José, da Bolívia –, os rubro-negros "oficialmente" cancelaram a Liga dos Urubus antes do jogo desta quarta-feira, às 21h30 (de Brasília), no Estádio Casa Blanca, em Quito, no Equador.
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Protótipo da Liga dos Urubus? Outra imagem mostra mistura de escudos de Flamengo e LDU — Foto: Divulgação
– De jeito nenhum, ficou no passado. Depois, quem sabe, pode até ter uma torcida Fla-San José (risos), mas melhor não precisar. O Flamengo tem que encarar esse jogo como uma decisão, até porque não sabe jogar com o regulamento, nunca soube. Qualquer jogo que tem o empate a seu favor ele se complica, foi assim no Fla-Flu – alertou Felipe.
– Hoje já não dá para ter tanta essa participação (risos). Mas ficou um clima bem amistoso desde essa época, a torcida da LDU recebeu a gente lá, ficou junto, foi bem bacana. Como hoje é um jogo importante, eles não podem nem pensar em empatar, então não vai rolar muita parceria, é cada um por si mesmo – observou Pedro.
– A Fla-LDU pode até voltar no futuro, mas agora o Flamengo tem que pelo menos empatar, se deixar para decidir no Uruguai vai ser complicado. Tenho certeza que vai ter muita gente secando, principalmente os vascaínos. Fiz uma brincadeira no Twitter depois do título carioca, dizendo que nem comemoro mais ganhar do Vasco. É igual chegar em casa e ter arroz, feijão, bife e batata frita de almoço. Eu gosto, como, mas não tem mais graça (risos). Esses caras eu tenho certeza que estão só esperando uma oportunidade para nos sacanear – disse Fábio.
Outras torcidas para "secar"
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Torcida Fla-Ritiba "secando" a camisa do Vasco na Copa do Brasil de 2011 — Foto: Reprodução
Além da Liga dos Urubus, outras torcidas surgiram ao longo das últimas décadas, criadas por outros torcedores sem ser o Fábio e o Felipe, com o mesmo intuito de "secar" os rivais em decisões. Começou com a Fla-Madrid em 1998, para apoiar o Real Madrid, da Espanha, contra o Vasco na final do Mundial de Clubes. No ano 2.000, na semifinal do primeiro Mundial organizado pela Fifa, foi a vez da Fla-Manchester, dando suporte ao Machester United, da Inglaterra, diante do Cruz-Maltino.
Na mesma campanha do Fluminense na Libertadores em 2008 teve a Fla-Boca para apoiar o Boca Juniors, da Argentina, na semifinal contra o Tricolor. E na decisão da Copa do Brasil de 2011, surgiu a Fla-Ritiba para unir forças com o Coritiba diante do Vasco. Mas não é só para "secar" que os flamenguistas mostram criatividade. Chegaram a criar a Flanerbahçe para torcer pelo Fenerbahçe, da Turquia, comandado por Zico nas quartas-de-final da Liga dos Campeões de 2007-2008.