Júnior Baiano vê Neymar injustiçado e perseguido: "fico até com pena dele"

Júnior Baiano nunca foi de ter papas na língua ainda quando jogava. Aposentado há cerca de uma década e meia, o ex-jogador mantém o seu jeito sincerão e, com a experiência de quem vestiu a camisa da seleção brasileira em uma Copa do Mundo, afirma que o atacante Neymar é perseguido pela torcida e imprensa e vai liderar o Brasil em uma grande campanha na Copa do Qatar, no fim deste ano.

"O Neymar é o melhor que nós temos há muito tempo, também acho injusto pra caramba essas críticas. O brasileiro é muito injusto com os seus ídolos, a gente dá sempre o maior valor das coisas de fora do que o nosso. Acho uma injustiça grande o que fazem com ele, essas críticas, essa supercrítica em cima do moleque. Eu falo moleque porque eu tenho 52 e ele tem 30 anos. A gente deveria cuidar um pouco mais do Neymar. Temos que apoiar mais do que criticar. Quando você apoia, você dá uma força tão grande para essas pessoas que conseguem superar muitas coisas. Fico até com pena dele", disse Júnior Baiano, em entrevista exclusiva ao UOL Esporte .

"Ele é cracaço. O Neymar é o melhor que nós temos. Depois desses caras aí, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Romário, Bebeto, Muller, esses caras diferenciados, não tem outro. O Neymar vem desde jovem demonstrando que é grande jogador, faz coisas que ninguém consegue fazer. O cara se tornou um artista. Infelizmente, no futebol de hoje, esses grandes jogadores se transformam em artistas. Na minha época, tinha jogador pra caraca, você fazia duas, três seleções por cada posição. Só que a gente viveu outra era, não dava tanta moral pra jogador de futebol como dão hoje. Hoje o cara joga mais ou menos e já está fazendo propaganda de um monte de coisa. Sou felizardo de ter jogado naquela época, ter jogado contra tantos jogadores ótimos, Mas eu preferiria jogar hoje, com certeza (risos). Hoje você treina menos, você dá entrevista como e pra quem você quer, financeiramente, ganha bem mais... Hoje é outra história", acrescentou.

Titular na Copa do Mundo da França, em 1998, quando a seleção ficou com o vice-campeonato, o ex-zagueiro afirmou que a equipe comandada pelo técnico Tite tem chances de voltar do Qatar com o sonhado hexacampeonato.

"Eu estou confiante, eu sei que a crítica em cima da seleção brasileira é muito grande. O Neymar é um dos melhores do mundo. Todas as vezes em que a seleção brasileira sai muito criticada, desacreditada, muito cobrada, a seleção brasileira sempre ganha. Então, eu acho que a seleção brasileira vai fazer uma grande Copa. Eu não sei se vai ser campeã, mas vai fazer uma grande Copa, até porque esses jovens que o Tite descobriu, Rafinha e etc, estão jogando demais, os caras estão jogando muito bem", analisou o ex-zagueiro, que chegou a trabalhar como treinador em três equipes (Santa Helena-GO, Itumbiara-GO e Central-PE) e se arriscou algumas vezes como comentarista.

Júnior Baiano durante o podcast Flow Sport Club - Transmissão - Transmissão
Júnior Baiano durante o podcast Flow Sport Club, em novembro de 2021
Imagem: Transmissão

Júnior Baiano, no entanto, aponta que há dois nomes que deveriam ter vaga nesta seleção, assim como pedem muitos torcedores de Palmeiras e Atlético-MG , e até de outras equipes.

"Penso que o Dudu do Palmeiras era um cara que poderia ser mais aproveitado, assim como o Raphael Veiga, aquele que bate pênalti pra caraca. Tem mais jogadores prontos. O Hulk já era pra ter sido convocado há muito tempo pelo o que estava fazendo, porque a gente é muito imediatista. Hoje, o Hulk não está bem, mas era pra ser convocado com certeza. Hulk e o Dudu são dois caras que mereceriam mais oportunidades no grupo do Tite. Na zaga, vai levar quem? São os caras que estão lá fora que são os melhores mesmos. Tem melhor lateral direito que o Daniel Alves? Não tem, infelizmente, o Daniel Alves, com 39 anos, é o melhor que nós temos. Então, tem que levar, independentemente de idade ou não. Se as outras seleções levam esses caras com essa idade por que nós não podemos levar?", comentou.

Amor pelo Flamengo e... Palmeiras

Jùnior Baiano comemora gol pelo Palmeiras na Libertadores 1999 - Antônio Gaudério/Folhapress - Antônio Gaudério/Folhapress
Júnior Baiano comemora gol pelo Palmeiras na Libertadores 1999
Imagem: Antônio Gaudério/Folhapress

Ao longo de cerca de duas décadas atuando como profissional, Júnior Baiano defendeu mais de dez clubes. Mas ele tem um carinho especial por dois times que se enfrentam hoje (6), às 20h30 (de Brasília), no Morumbi, pela 21ª rodada do Brasileirão: São Paulo e Flamengo. Mas, antes do Tricolor, o Palmeiras é o seu segundo time do coração.

Júnior Baiano teve, ao todo, quatro passagens pelo Flamengo, acumulou 288 jogos e 32 gols, ostentando, inclusive, a marca como o zagueiro que mais fez gols na história rubro-negra, ao lado de Juan. Já pelo São Paulo, ganhou uma espécie de segundo pai.

"Tenho uma gratidão enorme pela torcida do Flamengo. Todo mundo sabe que a torcida do Flamengo foi fundamental na minha carreira. Mas penso que eu não seria o que eu fui, tenho uma gratidão enorme, pelo meu segundo pai que foi o Telê Santana. Ele foi quem me levou para o São Paulo, mesmo ninguém do São Paulo me querendo naquela época. O Telê quis e me bancou e ali eu pude mudar um pouco a cabeça da galera, porque pra galera eu era violento, confusão e essas coisas", disse o ex-jogador, que ainda tem carinho pelo Palmeiras.

"Fiquei quase dois anos no Palmeiras e conquistei aqueles títulos importantes: a primeira Mercosul [1998] e a primeira Libertadores [1999]. Então, o Palmeiras é o meu segundo time. Todas as vezes que eu vou pra São Paulo é um carinho tremendo comigo. Também tenho um respeito muito grande pelo Vasco , apesar de ter toda essa rivalidade [com o Flamengo] das torcidas. Quando eu jogava no Flamengo, eu sempre zoava o Vasco de alguma forma, mas eu tenho um respeito muito grande."

Outros trechos da entrevista com Júnior Baiano

Flamengo em evidência e modelo no Rio

"Fiquei muito feliz, muito feliz mesmo, porque, na verdade, o Rio de Janeiro precisava de um chaqualhão. O Flamengo é o time que eu torço, é o time que eu gosto, a torcida sempre foi bem legal comigo. Em relação ao futebol, o Rio de janeiro estava precisando do que o Flamengo fez, dessa reformulação. Antigamente, era tudo meio malandro, fazia muito negócio com o clube. O Bandeira [ex-presidente Eduardo Bandeira de Mello], junto com aquela galera e os que estão hoje também fazem parte, reformulou o clube, CT, deram uma estrutura para o futebol profissional... A entrega desses caras foi fundamental para que o Flamengo seja essa potência nacional, financeira e de estrutura."

Relação com Telê Santana

Júnior Baiano e Zetti, em treino do São Paulo em 1995 - Arquivo Folha Imagem - Arquivo Folha Imagem
Júnior Baiano e Zetti em treino do São Paulo, em 1995
Imagem: Arquivo Folha Imagem

"A diretoria do São Paulo [meados da década de 1990] não me queria nem pintado de ouro. O engraçado foi que eu estava para ir para o Corinthians nessa época, em 94. O Casagrande e o Marcelinho Carioca foram contratados. Conversei com um diretor do Corinthians, eu não lembro o nome do cara agora, e estava tudo certo, eu estava de férias na Bahia. Esse diretor ia comprar [os seus direitos] e depois ia conversar comigo sobre salário. Quando eu estou na Bahia de férias tocou o telefone, era o Isaias Tinoco, o diretor na época do Flamengo, e ele mandou eu ir pra São Paulo. E eu achando que eu ia para o Corinthians e aí falaram que o Telê pediu a minha contratação, e fui para o São Paulo (risos). O engraçado que todas as vezes que os caras [do São Paulo] ofereciam um dinheiro, salário por mês, eu aceitava. Eles conversavam, conversavam e abaixavam o salário, pra eu não ficar mesmo. Mas o Telê estava lá, e eu sempre querendo voltar para o Flamengo. O Telê pedia calma, e eu fiquei no São Paulo. Depois, as coisas melhoraram muito pra mim."

Fama de violento

"Eu joguei como deveria jogar na época. Eu não fui violento, eu era um cara que sabia jogar, fazia gol pra caramba, eu sempre procurei imitar muito o Leandro e o Aldair jogando. Mas na hora que precisava jogar forte, eu jogava forte. Na época também eu jogava no Flamengo, o time mais popular do Brasil, toda hora aparecendo na televisão, então aparecia as coisas que eu fazia, porrada... Eu era do jogo. Se era pra dançar forró, eu dançava forró. Se era pro samba , eu ia pro samba. Eu não fugia do momento da partida, então eu sempre fui assim muito autêntico. Eu era um cara que se alguém me desse a porrada, eu dava uma porrada também, mas eu nunca tirei alguém de campo. Agora, porrada, jogo duro, era comigo mesmo."

São Paulo de Ceni

"Eu vejo o São Paulo jogando muito bem algumas partidas e muito mal outras partidas. O São Paulo ainda não se encontrou, eu não sei se os jogadores não têm confiança neles mesmos ou porque também estão se machucando muito, muitas contusões, muito desgaste... Na minha época a gente treinava pra caramba e jogava pra caramba, não tinha isso o que tem hoje. Mas eu vejo um São Paulo que oscila muito, não está preparado pra esses jogos decisivos, o cara chegar e entrar e falar que esse time vai jogar com tranquilidade, vai jogar com maturidade. Vejo o São Paulo ainda um pouco, apesar de ter alguns jogadores experientes, ainda é muito jovem, garotada, pra competição."

Libertadores vai ser do Brasil mais uma vez

"Está difícil [para o Flamengo conquistar] o Brasileiro, porque o Palmeiras aprendeu a jogar desde o Campeonato Paulista. O Palmeiras domina os jogos, vai pra cima, está com muito mais confiança do que antes daquela final do Paulista. O Palmeiras está ganhando jogos assim, no final do jogo, o time fica em cima, martela, martela e daqui a pouco consegue. O Flamengo começou muito mal, perdeu alguns jogos considerados fáceis e hoje o Flamengo voltou a jogar o que todo mundo espera o que o Flamengo jogue. Mas, mesmo assim, no futebol nada é impossível. Já na Libertadores, eu acho que o Palmeiras passa, pelo momento do Atlético-MG que é ruim. Acho que o Flamengo passa [do Corinthians], mas não vai ser fácil. Se o Flamengo jogar o que vem jogando, passa. Acredito que mais uma vez vai dar um brasileiro na Libertadores. Pelo o que eu tenho acompanhado em alguns jogos da Argentina, Campeonato Argentino, os times brasileiros estão muito superiores, estão bem na frente deles."

Imagem: Jorge Araújo-7.nov.1993/Folhapress

Fonte: Uol
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