Pep Guardiola, Frank de Boer, Phillip Cocu, Patrick Kluivert, Marc Overmars, Jari Litmanen, Rivaldo, Zenden, Luis Enrique, Emmanuel Petit, Xavi e Puyol. A constelação de craques do Barcelona na temporada de 2000-01, que não terminou bem no Campeonato Espanhol e na Uefa Champions League, era enorme.

O que muitos não lembram, contudo, é que o número de estrelas do Barça poderia ter aumentado. Então lateral-esquerdo titular e ídolo do Flamengo, Athirson Mazzoli e Oliveira recebeu uma proposta do clube catalão, esteve perto de se transferir, mas acabou aceitando oferta de outro gigante europeu, a Juventus, de Turim, por conta de um 'problemão' com a Justiça.

"Eles tinham feito a proposta e tava tudo certo, mas, quando ia finalizar, teve o impeachment do presidente da época, e o clube ficou de 15 a 20 dias sem contratar. Não sabia quanto tempo demoraria pra assumir o novo presidente, e a Juventus, no meio do caminho, fez a proposta dela", contou o ex-jogador e atualmente novo treinador do Flamengo, do Piauí, ao ESPN.com.br.

E engana-se quem pensa que sua ida para a "Velha Senhora" esteve livre de turbulências. Fla e Juve não se entenderam na transferência, e o caso foi parar novamente no âmbito jurídico.

"Ainda não tinha muita coisa certa, Flamengo falou que não tinham me vendido e acabou que ficou um problema judicial, ficou na Justiça, tanto na Fifa, como aqui no Brasil. Na Fifa eles perderam, eu não poderia jogar enquanto o caso não estivesse solucionado e tive que fazer um acordo com o Flamengo. Eles iam ganhar um dinheiro bom na venda e, com todos esses problemas, saí um pouco prejudicado", lembrou o ex-lateral.

Em Turim, Athirson passou aperto e, por um problema muito grave de saúde, teve grandes dificuldades de adaptação ao futebol europeu. 

"Os médicos achavam até que era leucemia. Fiz exames, mas não tinha nada disso, graças a Deus. Acho que foi uma dengue hemorrágica, mas lá [na Itália] não existe esse foco. Acabou que ficamos sem o diagnóstico local. Estava com 5 mil plaquetas, e o normal é 120. Foi um baque muito grande. Eu era jovem, imagina... Pra me adaptar, pra me acostumar e me ambientar a tudo, acabei perdendo espaço na seleção. Eu era o reserva automático do Roberto Carlos e, com minha ida para lá, saí da briga pela posição", lamentou.

"Se eu pudesse voltar a fita, não sairía do Flamengo naquele momento. Esperaria chegar a Copa do Mundo e, depois, iria para o Barcelona, pelas características do clube, que tinham mais a ver com as minhas", completou.

Conselho do 'Baixinho'

Todo jovem que chega aos profissionais de um clube busca os craques mais experientes para receber conselhos, e não foi diferente com Athirson. No Flamengo, o ex-lateral era muito amigo de Romário e revelou uma conversa com o ex-craque da bola, hoje se aventurando no meio político.

"No dia a dia, a cobrança era muito grande em cima dos jovens e, de vez em quando, o Romário dava bronca. Os jovens tinham que aprender de alguma forma, mas tinha algumas broncas exageradas. Um dia foi conversar com ele, perguntei o que tinha que fazer e tal, aí ele me disse assim: 'É simples: olha pra mim, cruza pra mim, que tá tudo certo, tá beleza. Não precisa fazer mais nada'. Contra o Santa Cruz, logo no jogo seguinte, eu invadi a área pela esquerda, saí do zagueiro pra linha de fundo e vi que ele tava entrando no primeiro pau. Pensei: 'vou caprichar nesse passe'. Cruzei na cabeça dele e saiu o gol. Na comemoração ele falou pra mim: 'Não te falei? Toca pra mim que já era' (risos)", gargalhou.

"Romário foi referência, maior artilheiro que já vi, e a bronca é normal. Mas escutar isso dele foi muito bacana", completou.

Apesar da fama de 'festeiro' de Romário, Athirson se esquiva e afirma nunca ter visto o ex-atacante pular o muro da concentração para 'badalar' nas ruas e casas noturnas do Rio de Janeiro. O ex-lateral, segundo ele próprio, não era de fazer isso.

"Já ouvi falar (risos). Mas não vi nada disso não. Eu sempre fui muito caseiro, fiz muito pela minha carreira, não fui muito de sair pra noite", garantiu.

Aposentadoria precoce pela filha

Apenas aos 33 anos de idade, no ano de 2011, Athirson resolveu parar de jogar futebol. Na Portuguesa, seu último clube, ele afirma já ter combinado tudo com o presidente. A ideia era ter mais tempo com a família para ajudar sua filha a se ambientar à escola.

Além da possibilidade de "fazer o papel de pai", como o próprio diz, ele recebeu propostas as quais não lhe agradaram, inclusive de times que, pelas suas palavras, "não tinham fama de pagar em dia".

"Minha filha não tinha método de ensino, não tinha amigos na escola e foi aí que eu fiquei um pouco em casa. Acabou que nesse período fiquei uns quatro meses em casa e gostei muito de fazer aquele papel de pai, levar para a escola, porque quando a gente joga, tem viagem e concentração. Ela tinha quatro anos na época. Se tivesse proposta até mesmo da Portuguesa, eu continuaria, dava sequência no trabalho. Não quis me oferecer, o tempo foi passando, fui para o Bragantino, mas desanimei e fiquei só três dias lá. Resolvi voltar porque não estava me fazendo feliz", contou.

Agora é "Professor Athirson Mazzoli"

Logo após encerrar a carreira dentro de campo e passar um tempo como comentarista do canal "Fox Sports", Athirson acertou com o Flamengo, equipe 17 vezes campeão do Campeonato Piauiense - a última conquista aconteceu apenas em 2009 - para iniciar seu caminho como técnico de futebol.

No clube rubro-negro, xará de sua primeira casa no esporte, ele aceitou o desafio de tentar levar o time ao título da principal competição do Nordeste.

"Me chamou atenção pelo fato de jogar a Copa do Nordeste. Queria abrir o mercado aqui, que é muito bom e me chamou a atenção em relação a isso. O projeto é muito bom", comentou.

E a primeira contratação de peso pedida pelo "Professor Athirson" foi um atacante experiente conhecido pela torcida do Flamengo (o carioca) e do Fluminense.

"O Marcelo [Macedo], que é um jogador experiente, tem currículo bom, aceitou esse desafio, acreditou no trabalho. Ele vinha fazendo excelentes Campeonatos Cariocas e é um grande profissional. Acabou encaixando em tudo que a gente pensa, então foi uma ótima contratação", disse.

Uma dezena de clubes

Santos, CSKA Moscou-RUS, Cruzeiro, Botafogo, Bayer Leverkusen, Brasiliense, Portuguesa, além de Flamengo e Juventus. A lista de clubes na carreira de Athirson é extensa e ele guarda cada um com seu devido carinho.

"Em todos os clubes que passei fui bem recebido. Tenho carinho enorme por muitos deles. No Santos, por eu ter ido muito jovem e me recuperado de lesão no tornozelo, aparecido pro futebol brasileiro e ter chegado na semifinal da Copa do Brasil e sendo campeão da Conmebol. Fiquei um período muito bom. No Cruzeiro, na primeira passagem, voltei a jogar um futebol muito bom, foi onde fui vendido para a Alemanha. Minas Gerais me abraçou, o clube tem estrutura fantástica. Na Portuguesa foi onde me motivei a voltar a jogar com alegria, com muita força. O time acreditou em mim, fui muito bem. Joguei um futebol bonito. Botafogo foi um período curto que, infelizmente, não me deixaram fazer o trabalho que deveria ser feito", analisou.