Quem pesquisa as memórias do Liverpool de 1981 não encontra grandes lamentos sobre os 3 a 0 no Estádio Nacional de Tóquio, em que o Flamengo de Zico se sagrou campeão mundial. Muito delas reforça a velha constatação: sul-americanos sentem os títulos intercontinentais de clubes como obsessão, e se preparam para isso como a culminação da temporada; para os europeus, é pouco mais que uma obrigação desgastante no meio da campanha europeia.

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"O Liverpool queria vencer, mas era como uma obrigação, não estava no topo da nossa lista de prioridades. Os latino-americanos (...) comemoraram loucamente quando venceram. Se o Liverpool tivesse vencido, não estaríamos nos gabando de ser campeões do mundo”, escreveu o atacante Kenny Dalglish em “My Liverpool home", suas memórias.

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O GLOBO consultou sete biografias oficiais de figuras do time inglês. Dos atletas, só o escocês Dalglish e o goleiro Bruce Grobbelaar mencionam a derrota, de forma breve. Cada um, porém, é infeliz à sua maneira.

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Dalglish era líder daquele Liverpool que trocava passes no chão em vez de exagerar nos lançamentos e chuveirinhos. Mas o atacante gasta mais linhas sobre o jet lag e o golfe com o zagueiro Alan Hansen e o meia Terry McDermott do que com o jogo.

Jogadores do Flamengo comemoram título mundial sobre o Liverpool Foto: Sebastião Marinho
Jogadores do Flamengo comemoram título mundial sobre o Liverpool Foto: Sebastião Marinho

“O campo estava totalmente queimado pela neve e nós não estávamos muito melhor”, conta Dalglish, depois de viajar 18 horas e não conseguir ajustar o relógio biológico.

Para Grobbelaar, a final seria pior. Cinco dias antes, o técnico Bob Paisley fora informado da morte de seu pai – e não lhe contou.

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“Ainda tento entender por que ele me escondeu isso até o fim do jogo. Bob me disse: ‘Você pode ir ao funeral, mas volte até sexta”, conta Grobbelaar no livro “Life in a jungle” (“Vida numa selva”). O enterro era na quinta, em Joanesburgo, na África do Sul, e o voo a partir de Tóquio faria conexão em Paris.

Penúria vermelha

Antes, é preciso lembrar que a competição estava muito desprestigiada antes de ser adotada pela Toyota em 1980 e levada para Tóquio, num jogo único.

Idealizada e anunciada em 1958 por João Havelange, que presidia o futebol brasileiro entusiasmado pela conquista do Mundial na Suécia, o Mundial de Clubes foi saudado até pelos europeus quando começou, em 1960. A violência dos sul-americanos, porém, tirou o brilho da ideia.

Zico em ação pelo Flamengo contra o Liverpool em 1981 Foto: Masahide Tomikoshi
Zico em ação pelo Flamengo contra o Liverpool em 1981 Foto: Masahide Tomikoshi

Num dos dois jogos entre Estudiantes e Feyenoord, em 1970, o argentino Malbernat quebrou com as mãos os óculos que o holandês Joop van Daele usava para jogar. Em 1969, Combin, do Milan, apanhou tanto dos Estudiantes que caiu desacordado. Os campeões europeus começaram a temer pela integridade de seus atletas e abriram mão da disputa – o próprio Liverpool desistira da final em 1977 e 1978.

A frieza de Paisley sugere, porém, que o jogo contra o Flamengo era importante para o Liverpool. Afinal, precisava de Gobbrelaar bem emocionalmente para a final. E valia dinheiro, no mínimo.

Em entrevista à revista “Placar”, antes da final, Paisley admitiu que o prêmio da partida era bom: US$ 300 mil, num momento difícil para o campeão da Europa. Depois glória ante o Real Madrid em maio, o time vivia sob pressão: era o décimo lugar no Inglês, oito pontos atrás do Manchester United. A média de público caíra, gerando penúria numa época em que os clubes ingleses não eram milionários, e a classe trabalhadora vivia os anos difíceis de Margaret Thatcher. No jogo da despedida, o Liverpool derrotou o Arsenal pela Copa da Inglaterra ante 26 mil pessoas, um público modesto. Logo depois da derrota, o Liverpool caiu por 3 a 1 em casa ante o Manchester City, 13 dias depois do jogo com o Flamengo. Quem conta é Kenny Dalglish:

“Nós caímos para 12º lugar na tabela e encaramos no vestiário um irritado Bob, que gritou para nós: ‘Não está bom o suficiente! Não aceitamos isto no Liverpool FC. Se acontecer de novo, vocês não ficam mais aqui’. Bob era um boleiro orgulhoso e exigia orgulho na performance.”

Isso explica em parte porque o Liverpool equilibrou o segundo tempo contra o Flamengo. Não dar importância máxima não significa que o orgulho não se arranhe com um 3 a 0 no primeiro tempo.

A ira de Fagan

O mais vívido relato liverpuliano sobre o 13 de dezembro, porém, vem de um personagem que só ganharia fama três anos depois.

Ex-meia, Joe Fagan tinha 60 anos quando Nunes fez dois e Adílio, um. No Liverpool desde 1958, Fagan trabalhara com o lendário Bill Shankly e foi um discreto auxiliar de Paisley até que ele se aposentasse, em 1983. Nunca dera qualquer entrevista até ser promovido.

Fagan hesitou, mas acabou sendo o condutor da equipe que conquistaria a Premier League, a Copa da Inglaterra e a Europa de novo em 1984, batendo a Roma de Falcão nos pênaltis. Isso credenciou o Liverpool a um novo Mundial em Tóquio, contra o Independiente, que ganharia por 1 a 0.

Nunes fica olhando a bola passar pelo goleiro Gobbrelaar, no primeiro gol do Flamengo Foto: AP
Nunes fica olhando a bola passar pelo goleiro Gobbrelaar, no primeiro gol do Flamengo Foto: AP

Os jornalistas Andrew Fagan, neto de Joe, e Mark Platt, contam na biografia de Joe Fagan que o técnico usou o Flamengo para motivar os jogadores:

“Aquilo não vai acontecer de novo. Foi culpa da comissão. A gente se preocupou demais que eles jogassem muito duro. No fim, foi só um jogo depois de um longo voo. Os times ingleses nunca encararam esse jogo do jeito certo. Sempre foi com muita tranquilidade. Agora, nós queremos vencer.”

Tudo isso foi dito com medo de perder jogadores para o resto da temporada, um temor que os europeus demoraram a perder. Depois da derrota, Fagan, que morreu em 2001, lidou com sentimentos contraditórios. A vitória, diz o livro; teria realizado o sonho da conquista do mundo, que o amigo Shankly tanto desejava. A imprensa já dava uma incômoda atenção ao título. Quinze emissoras trabalharam no jogo de 1981, segundo relato da revista francesa “Onze”, que mandou um enviado. No entanto, o jogo não foi transmitido para a Inglaterra, segundo conta o jornalista inglês Tim Vickery, radicado no Rio. Mas o problema que impedia Fagan de sonhar mais com o Mundial era a logística até Tóquio.

“As pessoas ficam alvoroçadas por causa dessa derrota. Eu não posso. Queria que não houvesse esse jogo. Não gosto de viajar meio mundo para uma partida à qual não estamos preparados. Não é culpa de ninguém, mas os jogadores precisam de mais do que dois dias para se aclimatarem. Por mim, era uma semana inteira.”

Os livros consultados pelo GLOBO

“Life in a jungle” (vida na selva), de Bruce Grobbelaar. Ed. DeCoubertin, 2018.

“My Liverpool home” (Meu lar em Liverpool), de Kenny Dalglish. Ed. Hodder & Stoughton, 2010.

“Graeme Souness — Football: my life, my passion” , de Graeme Souness. Ed. Headline, 2017.

“Football: a matter of opinion (Futebol, uma questão de opinião)” , de Alan Hansen. Ed. Transworld, 1999.

“Terry Mac: living for the moment” (vivendo o agora), de Terry McDermott. Ed. Trinity Mirror Sport Media, 2017.

“Quiet Genius: Bob Paisley, British football’s greatest manager” (Gênio tranquilo: Bob Paisley, o maior técnico do futebol inglês), de Ian Herbert. Ed. Bloomsbury Sport, 2018.

“Joe Fagan: A reluctant hero” (um herói relutante), por Andrew Fagan e Mark Platt. Ed. Aurum Press, 2012.