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Flamengo perde chance rara no Brasil: a de construir um legado de jogo

Não existe almoço grátis. A frase popularizada pelo economista Milton Friedman é usada como argumento para defender a modernização financeira do futebol brasileiro nos últimos anos. Programas de sócio-torcedor, aumento no preço de ingressos e novos modelos de transmissão fazem parte de um emaranhado de soluções para arrecadar mais dinheiro, sanar dívidas e investir no time. É a receita que o Flamengo adota desde 2013 e que resultou em dois títulos, futebol histórico e um outro patamar de hegemonia. Virou o ano, novos campeonatos.... e depois do almoço? Não é hora de saber plantar a própria comida ao invés de acumular dinheiro para pedir no delivery?

Com a renovação de Jorge Jesus até 2021, o Flamengo tem a faca e o queijo na mão para montar uma cultura seguindo os ensinamentos do técnico que revolucionou o clube como nunca visto antes. Exatamente um mês depois da celebrada renovação, a ideia ficou na teoria. A prioridade do clube segue sendo acumular dinheiro e arrecadar ainda mais para pagar a maior folha salarial do país. Até aí, não tem nada de errado. O Flamengo quer mais dinheiro e é um caminho. Mas e quando JJ sair?

Jorge Jesus durante treino do Flamengo no Ninho do Urubu — Foto: Alexandre Vidal/Flamengo
2 de 2 Jorge Jesus durante treino do Flamengo no Ninho do Urubu — Foto: Alexandre Vidal/Flamengo

Jorge Jesus durante treino do Flamengo no Ninho do Urubu — Foto: Alexandre Vidal/Flamengo

A resposta poderia ser fácil se o Flamengo optasse por colocar um modelo de jogo em todas as categorias de base e criar verdadeiras "canteiras", como as do Barcelona. A ideia é alimentar o time profissional com jogadores adaptados ao jeito Flamengo de jogar e identificados com a torcida. E técnicos? Uma escola de jogo própria do clube, com todos os ensinamentos de Jesus. Assim como Cruyff no Barcelona, ou Helenio Herrera na Inter de Milão. O nome disso é escola de jogo. E acontece na forma de uma cultura que todo mundo se sente orgulhoso de pertencer e de um documento de acesso de todos os profissionais no clube.

Por enquanto, apenas teoria. É comum ouvir nos bastidores que a comissão portuguesa deixou um “legado zero”. É um exagero, mas reflete o incômodo com o pouco acesso ou até mesmo proibição que os profissionais da base e fora do contato diário têm com os treinos. A comissão técnica permanente do Fla foi encerrada, e os profissionais, demitidos. Tudo é fechado para que ninguém veja, copie e reflita sobre. A diretoria, que deveria ter esse papel de construção, não tem interesse em colocar tudo no papel. Não há um documento que explique os métodos de treinamento de Jesus para os próximos técnicos do Flamengo. Não há um livro com os ensinamentos dele. Ninguém sabe exatamente qual é o tipo de treino físico que fez o time suportar a maratona dos jogos do ano passado.

Em resumo, tudo o que foi construído irá embora quando Jorge Jesus sair do clube.

Um exemplo prático de como funciona a escola de jogo dentro do campo: você está careca de saber que a linha de defesa do Flamengo joga adiantada, para facilitar que a marcação seja alta e sufocante. Pablo Mari foi chamado por entender esse jeito de jogar, e Léo Pereira foi comprado por jogar assim no Athletico. E se ao invés da compra, a reposição viesse da base? Como todo mundo joga do mesmo jeito, o Flamengo daria espaço aos meninos do ninho e poderia vendê-los no futuro, gerando lucro e gastando muito menos. E assim o ciclo se alimenta, o time se mantém no topo e as finanças ficam sempre em dia.

A cultura de jogo é a bíblia do clube. História, valor, tática...no fim, futebol é um fenômeno cultural. A forma como um time joga é um reflexo dos valores daquela torcida e de uma determinada cultura. O brasileiro não aceita um time jogando atrás, na retranca. Gosta de criatividade e alegria. Mas para o uruguaio, jogar atrás é um reflexo da cultura de disciplina que o país tem. “O Brasil tem uma cultura de formar jogadores criativos na solução de problemas. É tão único que essa é a própria forma de viver do brasileiro. É como o brasileiro enfrenta seus problemas sociais. Roberto Da Matta já dizia que é no campo de futebol que o brasileiro manifesta sua cultura num jogo de futebol”, cita Carlos Thiengo, autor do Glossário de Futebol da CBF.

História mostra que chances assim são raras e geralmente desperdiçadas.

Em 1977, Cláudio Coutinho foi chamado para a Seleção Brasileira após uma invencibilidade de 31 jogos e levou consigo os famosos conceitos da “teia de aranha” e “overlapping”. Nos anos seguintes, jogadores como Júnior e Zico ajudaram a fazer o intercâmbio dessas ideias com treinadores completamente fora do perfil do clube como Joubert Meira, Modesto Bria e Dino Sani. Só foi com um ex-jogador treinado por Coutinho que o Flamengo conseguiu de fato implementar o legado de Coutinho no mágico ano de 1981, o melhor da história do clube.

Não é exclusivo do Flamengo. O futebol brasileiro é assim. O São Paulo reverencia Telê Santana pelos dois mundiais, mas nunca se importou em replicar seus ensinamentos. A torcida do Internacional admira o futebol refinado de Minelli e Ênio Andrade na década de 1970, mas a diretoria jamais tentou colocar no papel pensando no futuro. A torcida do Palmeiras adora pedir o futebol dos tempos de Academia, mas o clube nunca se importou em montar uma escola sobre. E o Santos, que se orgulha do DNA santista e não sabe sequer o que isso significa?

Clubes brasileiros são especialistas em perder chances de construir legado e cultura porque não confiam em processos, mas em pessoas. Não é só futebol porque nunca é "só" futebol. É sociedade. É Brasil. Sérgio Buarque de Holanda explica no livro “Raízes do Brasil” que a colonização portuguesa se deu por núcleos afastados de um poder central e coletivo. Os engenhos de açúcar eram tão afastados entre si que o governo não fiscalizava nem impunha suas próprias leis. Resultado? Os moradores seguiam indivíduo – o senhor de engenho – e não a regra coletiva, na forma de governo, Estado ou lei. O futebol reflete o fenômeno. Os times que construíram grandes legados geralmente estão ligados a uma pessoa: o “Santos de Pelé”, o “São Paulo de Telê”, o “Flamengo de Jorge Jesus”. Sempre pessoas, nunca o processo.

Aula de história à parte, os efeitos da falta de uma cultura de jogo no futebol brasileiro são nocivos e remontam a uma crise que perdura há 50 anos. O Santos ficou 20 anos sem ganhar títulos após a aposentadoria de Pelé. O Internacional perdeu quinze anos quando Falcão foi embora. O Palmeiras foi rebaixado duas vezes após a saída da Parmalat. A culpa é sempre de um ou de outro....imagine a dor de cabeça que poderia ter sido poupada se o clube tivesse processo, identidade e método?

Hoje, o Flamengo está num outro patamar. Jogadores e técnicos chegam e saem. Diretorias vão e vem. Uma hora a bola entra na rede, na outra não. A única coisa que fica é a torcida. O Flamengo tem uma oportunidade única de construir um legado de verdade, uma cultura unicamente dele e de sua massa. Uma chance que dinheiro nenhum compra.

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Fonte: Globo Esporte

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