Reportagem originalmente publicada dia 08/01/2016
Enfrentar Ronaldo "Fenômeno" não tarefa das mais fáceis. Imagine então conseguir parar em um clássico o atacante eleito três vezes melhor jogador do mundo e com apenas um olho "funcionando" bem. Só mesmo um goleiro com o nome de Milagres poderia realizar tal feito.
O ex-arqueiro revelado pelo Flamengo nunca se esqueceu daquele duelo em que, atuando pelo América-MG, conseguiu segurar um 0 a 0 com o Cruzeiro pelo Campeonato Mineiro de 1994.
"Semanas antes, tínhamos feito uma excursão pela China e teve uma briga generalizada em uma das partidas. No meio da confusão, tomei um soco por trás de um chinês, rasgou a minha retina e passei a enxergar tudo embaçado. Fui no hospital e me mandaram usar colírios e voltamos para o Brasil, mas tinha jogo naquela semana", contou Milagres, ao ESPN.com.br.
"Eu fui para o jogo e aparentemente estava tudo normal. Fiz grandes defesas, fui muito exigido. O Ronaldo teve algumas oportunidades e não deixei ele fazer um gol sequer, fiz defesas à queima-roupa e ele ficou até irritado. Faltando meia hora pra terminar, teve uma falta lateral e fui proteger meu canto direito, só que percebi que não enxergava nada com aquele olho", prosseguiu.
Ao fim da partida, os médicos não conseguiam acreditar que o atleta havia atuado os 90 minutos, e ainda jogado muito bem, com péssima visão.
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'Fenômeno' lamentou as lesões complicadas ao longo da carreira
"Perdi toda visão periférica, só conseguia ver para frente. Contei para o médico na saída de jogo, que achou brincadeira minha. Fomos fazer os exames e realmente tinha acontecido. Ainda bem que os oftalmologistas foram muito competentes, eu poderia ter encerrado minha carreira precocemente, foi desesperador. Lembrei na hora do Tostão, que precisou parar por uma bolada no olho", recordou.
No entanto, o arqueiro seguiu atuando por muitos anos, passando por equipes como Santa Cruz e Atlético-MG. Ele só foi encerrar a carreira em 2003, atuando pelo Uberaba-MG.
"Fiquei seis meses sem jogar e no começo sofri algumas sequelas, mas depois deu tudo certo e ainda atuei mais 10 anos como profissional", rememorou o goleiro.
Milagres é um dos maiores ídolos da história do América-MG, onde foi campeão estadual (93), do Campeonato Brasileiro da Série B (97) e da Copa Sul-Minas (2000). Além disso, é o jogador que mais vezes vestiu a camisa do clube mineiro, em 372 oportunidades.
Milagres colocou Jesus no banco
Nascido em Juiz de Fora, Marco Antônio Gonçalves Milagres foi ainda pequeno para o Rio de Janeiro. Vindo de uma família torcedora do Flamengo, ele foi fazer teste na Gávea, em 81, mas como meia-atacante.
"No futsal eu era goleiro, mas no campo eu gostava de jogar lá na frente porque jogava com os pés. Passei nas duas primeiras fases da peneira na linha, mas um goleiro machucou a mão e como não tinha ninguém para completar o time, me pediram para ir para o gol", disse.
"Eu não tinha nem luva, mas fui muito bem e gostaram. O 'Seu' Dida [ídolo do clube e então treinador da base] disse: 'Olha, na linha tem muitos concorrentes para o seu lugar, mas o gol não tem. Não quer tentar?' Eu respondi: 'Meu pai vai me matar' (risos). Ele ficou doido comigo: 'Goleiro, não!' (risos). Depois de muita conversa com a minha mãe, deu tudo certo", recordou.
Na hora em que souberam que o atleta tinha "Milagres" como sobrenome, não teve jeito, e o arqueiro foi "rebatizado" na Gávea.
"Quando eu cheguei lá o professor Carlinhos [ex-jogador e técnico] queria que eu usasse o Marco Antônio, meu nome. Dizia que era muito pesado para um goleiro, mas o pessoal sabia que me sobrenome era Milagres e não teve jeito. Nome era muito chamativo (risos)", brincou.
"Teve uma situação muito engraçada em uma seleção carioca para um Brasileiro sub-20 de 1985, que eu era titular e o reserva era do Fluminense. Advinha o nome dele? Jesus! (risos). A mídia fazia a festa com isso, nos divertíamos muito com as reportagens, o pessoal achava que era mentira", divertiu-se.
Treinador da Copa São Paulo
Após se aposentar, Milagres fez cursos de treinador e foi ser auxiliar em uma equipe do Centro Esportivo Universitário da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Precisou assumir a equipe nos últimos jogos de um campeonato e depois foi dirigir o Juventus de Minas Novas-MG. De cara, foi campeão da 3ª divisão, conseguindo o acesso para a Segundona.
Ainda comandou o time na temporada seguinte, depois passou pelo Ideal de Ipatinga-MG, Uberaba, até ir para as categorias inferiores do Vespasiano-MG.
"Chegou uma hora que percebi que precisava de uma escola para me ter uma formação. Assim como o jogador precisa fazer categorias de base, o treinador também. Precisava entender que as funções eram muito distintas", afirmou.
Depois de um ano, ele trabalhou com sua escolinha de goleiros e recebeu um convite em outubro de 2010 para retornar ao América-MG.
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Os melhores resultados foram a semifinal da Copa São Paulo, caindo para o Bahia. Foi campeão Brasileiro sub-20, caiu nas semifinais da Libertadores da categoria e foi campeão da Taça BH, outro importante torneio de juniores.
Entre os jogadores que trabalharam com Milagres estão o atacante Richarlison, do Everton-ING, e o goleiro Matheus, que defende o Braga, de Portugal.