"Felicidade é uma coisa simples." Adriano, o Imperador, o Pipoca, o Didico da Vila Cruzeiro

Foi em 17 de fevereiro de 1982 que Adriano Leite Ribeiro veio ao mundo. Pipoca, para a família. Didico, para os amigos da Vila Cruzeiro. Imperador, para o mundo do futebol.

" [Felicidade] É o gosto da pipoca que minha tia vendia em um carrinho na beira da estrada: 'Pipoca', comi tanto que se tornou meu apelido. É a cor do pó que subia quando jogávamos futebol em Vila Cruzeiro, em um campo onde eu jogava todos os dias da minha infância."

O moleque que viu no futebol um caminho para "dar uma casa para os pais" ganhou o planeta e se tornou um dos jogadores mais temidos de todos os zagueiros.

“Eu adorava jogar futebol, mas, acima de tudo, queria retribuir meus pais. Eu tinha um objetivo claro: comprar uma casa para minha família.”

O garoto que entortava - destruía? - portas com seu potente pé esquerdo na Vila Cruzeiro viu os pais se desdobrarem para ele ter condições de treinar no Flamengo. E quem diria que começou como defensor... Do ataque do Flamengo para a Inter de Milão foi um salto gigantesco para muitos, um pulo para ele.

"A ligação da Europa, da Itália, logo chegou. Não estava nervoso nem preocupado: entrei no avião para Milão cheio de felicidade e entusiasmo. Minha maior jornada começou, a que eu esperava e sonhava."

Imparável pelo físico invejável, pelos dribles simples e pelas finalizações impossíveis de serem defendidas, Adriano descobriu fora do futebol uma dor implacável. A morte do pai mudou tudo. Ali, não tinha Imperador. Era Pipoca, Didico, quem sofria.

"Agosto de 2004, Bari. Eu estava no ônibus com meus colegas de equipe [Inter de Milão] e meu celular tocou: 'Papai está morto'. Pensei que era um pesadelo. Eu esperava que fosse. Não posso descrever meu desespero naquele momento. Nunca senti uma dor tão terrível e insuportável na minha vida. (...) Tudo o que senti foi uma angústia sufocante e um desejo pelo Rio de Janeiro."

O topo do mundo, títulos com a seleção brasileira - as inesquecívels Copa América de 2004 e Copa das Confederações de 2005 -, a ponte aérea na volta ao Brasil / retorna à Itália, o fim da carreira sem festa, sem volta olímpica, sem show de fogos.

"Calções e pés descalços. Esse sempre foi meu kit favorito. Não preciso explicar o porquê: é a vida de uma criança crescendo em uma favela."

Afinal, quem é Adriano? Quem conviveu com o artilheiro, e até ele mesmo, sabem que o eterno garoto de 1,89m sempre foi um cara normal. Sempre quis ser esse cara normal. Sempre foi Pipoca, ou Didico, e sempre levou a Vila Cruzeiro, a favela, em sua alma. Veja, abaixo, a "desconstrução" de um dos grandes nomes do futebol mundial neste século:

Imparável

" [Em 2003, no Parma] Ele fez chover por lá. Mesmo sendo novo, ele parecia um tanque mesmo (risos) . A força física dele era impressionante. A precisão da batida da perna canhota era incrível e chutava muito forte. Tinha muita potência. Os caras batiam no Adriano e ele não sentia nada. Os zagueiros trombavam com ele e caíam para trás (risos) . Era impressionante, uma coisa descomunal. Teve um jogo que me marcou muito. Ele fez tanta coisa, mas esse lance foi brincadeira. Ele mostrou muita força física e habilidade. O zagueiro veio para cima dele, trombou e caiu. O Adriano protegeu a bola, driblou uns três dentro da área e fez um golaço. Ali a gente via que o cara era f***!" Júnior, lateral-esquerdo campeão do mundo em 2002, que jogou com Adriano no Parma

Amigo e conselheiro

play
0:34

Adriano Imperador e Lukaku resenham em português, brasileiro 'dá a bênção' e recebe convite de jantar

Ídolo da Inter disse ter certeza que o atual camisa 9 do time vai brilhar muito por lá

"Ele é muito bacana. Tivemos uma ótima convivência. Minha família se deu muito bem com a dele e estávamos sempre juntos. Eu via muito a avó, o pai e os primos dele. Fazíamos churrasco na minha casa ou na dele. Ele brincava muito com os primos, gostava de fazer piadas. Estava sempre sorrindo e era um cara bem engraçado."

Júnior, lateral-esquerdo campeão do mundo em 2002, que jogou com Adriano no Parma

"O Adriano era como um pai para mim lá no Flamengo. Ele sempre brincava e tinha alguma coisa engraçada pra falar. Me ajudou muito e tive a sorte de trabalhar com ele." Éverton Silva, lateral que jogou com Adriano no Flamengo

"[Ao ser convidado para um churrasco pelo Imperador] Chegamos na casa do 'Imperador' e minha mãe ficou babando nas coisas, parecia uma criança. Aí o Adriano viu, me chamou de canto e falou: 'Tá vendo sua mãe ali, olhando tudo? Olha para a minha casa. Eu fiz tudo isso isso pela minha mãe. Tudo o que fiz na vida foi pela minha família. Faça isso pela sua mãe também'.", relembra.

Lukian, atacante que ficou amigo de Adriano após jogar uma "pelada" com o Imperador no Rio de Janeiro

View this post on Instagram

Meu eterno treinador amo demais muito feliz

A post shared by Adriano imperador (@adrianoimperador) on

"O Imperador dava um carinho especial para a gente. Ele me orientava muito dentro de campo para que eu fizesse o meu papel. A gente se concentrava junto e ele fava: 'Vou tentar sempre te deixar à vontade'. Ele era o cara do time, se me deixasse tranquilo, tudo ia dar certo. Mesmo quando eu não ia bem ele me botava para cima. Sempre me botava na linha. Eu o levo comigo no coração e não aceito que falem mal do Adriano perto de mim. Sei da pessoa que ele é e pelo que passou. Até hoje quando nos vemos nos damos muito bem."

Erick Flores, meia que jogou com Adriano no Flamengo

"Na época, eu estava meio deslumbrado, meio perdido, e resolvi mudar. Hoje, estou muito feliz e sossegado depois que casei, porque minha família está bem, todo mundo com saúde. Muito disso graças ao Adriano. Eu nem conhecia o cara e ele me levou pra conhecer todos os cômodos da casa dele, naquela humildade. Eu já era fã dele, depois disso fiquei ainda mais." Lukian, atacante que ficou amigo de Adriano após jogar uma "pelada" com o Imperador no Rio de Janeiro

Nasce o Imperatore

View this post on Instagram

Que saudades és

A post shared by Adriano imperador (@adrianoimperador) on

"Imperador. No começo, eu não achava que eles gostavam de mim quando me chamavam assim. Foi bom descobrir gradualmente o carinho dos fãs da Inter por mim. Sempre me senti em casa em Milão: meu amor pela Inter é interminável. Eu imediatamente me tornei um verdadeiro nerazzurri: meu último gol para vencer o derby [contra o Milan] por 3 a 2 é uma prova disso, não é?" Adriano, o "Imperador", em carta aos fãs da Inter de Milão, no site oficial do clube italiano
play
0:50

Lukaku conta a seu ídolo de infância, Adriano, como fazia para ver suas incríveis jogadas mesmo sem ter TV

Atacantes conversaram ao vivo no Instagram da Inter de Milão

O pai

View this post on Instagram

Meu pai meu amor

A post shared by Adriano imperador (@adrianoimperador) on

[O acidente] "Eu tinha dez anos e, em uma tarde aparentemente normal, de repente ouvi o barulho das balas assoviando na rua. Uma deles ficou alojada na cabeça do meu pai, Almir. Atingido por acaso, por acidente."

" [A morte] "Só eu sei o quanto sofri. A morte do meu pai deixou um vazio irreparável na minha vida."

[A volta ao futebol] "É estranho como, para um brasileiro como eu, foi uma cidade na Suíça que trouxe alguma luz de volta àqueles dias sombrios. Voltei à Europa e entrei em campo para Brasil x Inter. Imaginem meu estado de espírito. Ganho uma disputa de bola, depois outra, passo por dois homens que tentam me derrubar, depois passo pelo goleiro e chuto para a rede com o pé direito. Eu dediquei toda a energia que tinha para dedicar esse gol ao pai Almir."

Adriano, o "Imperador", em carta aos fãs da Inter de Milão, no site oficial do clube italiano

View this post on Instagram

Eu vou te amar pra sempre Meu pai

A post shared by Adriano imperador (@adrianoimperador) on

"O Adriano era bastante apegado ao pai dele [Almir Leite Ribeiro, que morreu em 2004, pouco depois da conquista da Copa América] , que estava sempre para Parma. Eu sempre o via o carinho que um tinha com o outro."

Júnior, lateral-esquerdo campeão do mundo em 2002, que jogou com Adriano no Parma

play
0:52

Adriano relembra confronto contra Argentina pela Copa das Confederações e manda recado: 'Hoje precisamos de felicidade'

Ex-jogador falou da vitória de 4 a 1 sobre a Argentina, em 2005 - Twitter @A10imperador

A fama x O cara normal

play
1:12

Braz relembra Flamengo de Adriano e brinca com elenco de 2009: 'Não era fácil segurar'

Diretor do Fla falou sobre time que venceu Brasileiro há 11 anos

"O que mais me impressionou no Adriano foi o fato de ele achar que era um cara normal. Ele tinha na mente dele que nasceu na Vila Cruzeiro e se tornou o 'Imperador', mas que, na cabeça dele, podia andar descalço na rua que virava o Didico. Essa 'capa de Imperador' foi colocada nele pelas pessoas, pela imprensa, pela torcida... Mas ele nunca se sentiu assim. Ele achava que era uma pessoa normal." Cicinho, lateral que jogou com Adriano na seleção brasileira
View this post on Instagram

Vcs pediram tá aqui sextou és

A post shared by Adriano imperador (@adrianoimperador) on

"O Imperador era - e ainda é - um ídolo para mim. Uma vez voltando de um voo, eu contei o quanto eu o admirava porque jogava videogame com ele e falei da história do gol na Argentina no último minuto na final da Copa América de 2004. Do nada, ele começou a chorar! Essa imagem eu tenho dele. Eu pensava: ‘O cara conquistou o rótulo de Imperador, venceu títulos e tem grana, mas ainda se emociona e tem muita vontade de ganhar. Temos que ajudá-lo porque tinha certeza que ele nos ajudaria a realizar o sonho de ser campeão e entrar para história do Mengão'."

Toró, volante que atuou com Adriano no Flamengo

View this post on Instagram

Ui ui kkk

A post shared by Adriano imperador (@adrianoimperador) on

"Ele não se conformava com essa visão das pessoas com relação a ele. O Adriano sempre me dizia que ele precisava estar com os amigos de infância, na favela onde nasceu, porque lá ele era apenas o Didico, só um cara normal entre tantos outros. Era uma necessidade dele estar lá. Eu sempre vi essa essência nele."

Cicinho, lateral que jogou com Adriano na seleção brasileira

"O Adriano também falava que não suportava que ficassem falando mal dele, mas que ele tinha consciência de que tinha dado tudo pela família. Ele me disse: 'Muitos falam que eu vou me foder e ficar pobre de novo. Eu tenho minhas coisas, cara. Você acha que eu fiquei nove anos na Itália ganhando milhões e vou perder tudo assim? Você acha que sou burro de fazer minha família viver na pobreza outra vez? Nunca!'" Lukian, atacante que ficou amigo de Adriano após jogar uma "pelada" com o Imperador no Rio de Janeiro

" [Em 2010, durante a Copa do Mundo; sem ser convocado, Adriano levou os amigos para passar férias na Itália] Ele nem respirava direito de tão reconhecido que era. Quando íamos fazer um churrasquinho, íamos eu e o Wellinton fazer compras. Ele só foi uma vez na rua porque ficava difícil andar no supermercado. As pessoas chegavam em cima 'atropelando' querendo fotos, autógrafos. Era muito assédio em cima dele. Lá, ele era o 'Imperador' mesmo."

Éverton Silva, lateral que jogou com Adriano no Flamengo

"Deus deu a ele o dom de jogar futebol para tirar a família dele da favela, mas isso não quer dizer que era preciso abandonar as pessoas com quem ele cresceu. E ele nunca abandonou. Mesmo que eles consideram que ele seja o 'Imperador', ele sempre manteve a essência. Ele decidiu viver assim, vive assim até hoje e eu acho isso lindo. É um cara que não se deixou afetar pela fama. E isso é digno de todos os elogios."

Cicinho, lateral que jogou com Adriano na seleção brasileira

"Ele é tão pé no chão que às vezes parece que não sabe a grandeza que tem. É um cara que todos gostam." Erick Flores, meia que jogou com Adriano no Flamengo

Amor à Inter de Milão

"A Inter estava muito perto de mim em um dos períodos mais difíceis da minha vida. Moratti era como um pai para mim. Não apenas ele, mas também Zanetti e outros perto de mim. Sou extremamente grato a todos, porque levarei essas memórias comigo para sempre. A Inter é uma grande parte de mim, está entrelaçada com a minha vida, iluminando os momentos mais bonitos e me acompanhando pelos mais tristes e difíceis.

"Ainda hoje, quando penso em Milan, San Siro e a camisa dos nerazzurri , sinto vontade de cantar aquela música que nunca esquecerei e que toda vez, sem falhar, me faz feliz, me sinto em casa, me sinto como um de vocês, um de nós: 'Che confusione, sarà perché tifiamo, un giocatore che tira bombe a mano, siam tutti in piedi per questo brasiliano, batti le mani, che in campo c'è ADRIANO!' [Que barulho enquanto gritamos e aplaudimos, por este grande jogador que todos vocês temem, todos estamos defendendo o nosso brasileiro, bata palmas, porque temos ADRIANO!] " Adriano, o "Imperador", em carta aos fãs da Inter de Milão, no site oficial do clube italiano
View this post on Instagram

Rs

A post shared by Adriano imperador (@adrianoimperador) on