Coutinho: Final em detalhes - A Fase Defensiva de Flamengo e Palmeiras

Depois de entendermos como os rivais da grande decisão da Libertadores 2021 fazem para se organizar ofensivamente , é hora de abordarmos como buscam neutralizar os ataques adversários. Renato e Abel são técnicos vencedores da maior competição continental da América do Sul e sabem muito bem a importância de uma defesa segura para chegar à glória eterna. Levaram poucos gols no mata-mata desta Libertadores.

Flamengo

Foram só três bolas nas redes rubro-negras nas fases eliminatórias da atual competição. E as três em goleadas aplicadas contra Defensa y Justícia e Olimpia (duas vezes). Mesmo passando alguns sufocos nas duas semifinais contra o Barcelona de Guayaquil, a meta de Diego Alves não foi vazada. Parte disso se deve ao próprio goleiro. Se andou oscilando no Brasileirão, na Libertadores fechou o gol. Fez grandes defesas contra os equatorianos.

Mais uma vez o nível técnico do time do Flamengo acaba se sobressaindo perante a organização coletiva. Rodrigo Caio e David Luiz jogaram poucos minutos juntos, mas mostraram o que podem oferecer em proteção de área e imposição. Mesmo tendo oscilado nesses aspectos na Europa, o ex-zagueiro do Arsenal domina os primeiros metros do campo sem tanto esforço no Brasil.

Rodrigo não está no melhor da sua forma. Viveu às voltas com lesões ao longo de toda a temporada, mas passou por preparação especial para a final. Com sua dupla titular o Mais Querido sofre muito pouco com uma questão crônica com Léo Pereira, Gustavo Henrique e Bruno Viana: a proteção da área em cruzamentos pelo alto. Foram vários os gols assim com um dos três em campo.

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David Luiz, zagueiro do Flamengo, durante duelo com o Internacional, pelo Brasileiro
Imagem: Alexandre Vidal / Flamengo

O sistema que tem os dois excelentes zagueiros como integrantes mais recuados marca sob o sistema de encaixes, o preferido de Renato Portaluppi. Diferente do que ocorria com Jorge Jesus e Rogério Ceni, quando o Rubro-Negro marcava por zona.

A diferença consiste na referência de marcação. Por zona, o atleta protege o espaço e pressiona o adversário com a bola quando este entre em seu setor. O time flutua em conjunto para o lado da bola, para a frente ou para trás. Na marcação por encaixes, a referência é o adversário. Então cada jogador ''encaixa'' num rival que entra em seu setor e o persegue até este mudar de zona, trocando a marcação na sequência ou avisando a um companheiro.

É um sistema que requer mais percepção dos movimentos adversários e exige bastante fisicamente, algo que pagou o seu preço em determinados jogos. Atletas como Filipe Luís, Isla, Everton Ribeiro e Andreas Pereira possuem mais dificuldades de executarem essas perseguições com intensidade. Por mais que elas não sejam longas, como no Grêmio de Renato, ''espaça'' um pouco os jogadores dentro de cada setor. Bruno Henrique também costuma dar uma ''chochilada'' em algumas recomposições.

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Exemplo dos encaixes de marcação do Flamengo
Imagem: Rodrigo Coutinho

Quando se tem volantes mais afeitos à marcação e laterais menos ofensivos, há uma compensação, mas não é o caso do Flamengo. O rubro-negro não foi feito para passar muito tempo sem a bola, como ocorreu em algumas partidas recentemente. Para um jogo de mobilização como esse, é possível que os jogadores deem a resposta, mas numa sequência maior isso certamente não acontece.

As transições defensivas são mais um desafio para a decisão. O Flamengo, em seus melhores momentos desde 2019, teve uma pressão pós-perda muito eficaz. Sufocava em bloco com organização e intensidade ao perder a bola no campo de ataque, e a recuperava rápido. Esse aspecto vem oscilando bastante, e é bom que funcione diante de um time muito forte nos contra-ataques.

Adiantar o bloco de marcação pode ser outro um bom caminho. O time costuma fazer isso bem. Gabigol, Arrascaeta e Bruno Henrique pressionam a bola com força. Everton Ribeiro, Arão e Andreas Pereira cortam as linhas de passe com posicionamento correto. Renato conseguiu melhorar a execução deste conceito recentemente.

Palmeiras

Depois de uma 1ª fase de problemas defensivos, o Palmeiras encarnou a ''defesa que ninguém passa'' na fase eliminatória da Libertadores, e levou só dois gols em seis jogos. Atlético Mineiro e São Paulo marcaram no Mineirão e no Morumbi respectivamente. É provável que a estratégia reativa adotada na maioria dos jogos da conquista passada seja repetida, e aí o time consegue se proteger melhor.

Na temporada como um todo, encontrou problemas para ter equilíbrio quando buscou ser ofensivo e ficar com a bola mais tempo. O Campeonato Brasileiro é o principal exemplo. Sofreu mais de um gol de média por jogo, dado inferior até mesmo comparado a equipes que lutam contra o rebaixamento, como Juventude e Atlético Goianiense. Talvez resida aí a grande chave para Abel Braga montar a estratégia.

Ao mesmo tempo que possui dois dos melhores jogadores em suas funções no continente, como Weverton e Gustavo Gómez, ídolos da torcida e determinantes em momentos decisivos, tem Luan no seu miolo de zaga. Um bom zagueiro, mas que oscila demais em jogos desta natureza. Os reservas não gozam de confiança e é certo que jogador revelado na base do Vasco entre em campo como titular.

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Luan e Gustavo Gómez, zagueiros do Palmeiras
Imagem: Cesar Greco/Palmeiras

Outro detalhe que merece atenção é a lateral-direita. Marcos Rocha está suspenso e há dúvidas sobre o seu substituto. Mayke é o nome mais provável, mas Gabriel Menino corre por fora. De qualquer forma, os problemas do setor parecem em aberto. Na esquerda, Piquerez é garantia de segurança, força física e bom jogo aéreo. Felipe Melo também vem tendo atuações bem consistentes a frente da linha defensiva e ao lado de Zé Rafael.

O fato de ter volantes mais pesados pode reforçar a ideia de marcar atrás. Isso reduziria os riscos diante do móvel ataque rubro-negro, e diminuiria a faixa de campo para os encaixes e perseguições. Assim como o Flamengo, o Palmeiras se defende desta forma. Cada atleta pega um adversário que entra em seu setor e o persegue até que este mude de zona no campo.

Há correção na execução desta ideia e as coberturas ou compensações funcionam. Está mais habituado a passar um tempo maior marcando em relação ao adversário. A equipe também executa bem as subidas de marcação. Abel costuma organizar com excelência os ''gatilhos'' de pressão e gosta de induzir os adversários para um lado específico do campo. Rony é um trabalhador incansável neste ponto. Veiga e Dudu colaboram bastante, Scarpa ainda pode aprimorar isso.

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Encaixes de marcação do Palmeiras
Imagem: Rodrigo Coutinho

O problema é quando essa pressão é superada. Felipe Melo e Zé Rafael demoram a reocupar os espaços e compactar o setor de meio-campo com a linha defensiva. Por isso há muita gente que pede a entrada de Danilo na equipe, mesmo com o jovem atleta longe de seu melhor momento técnico. Patrick de Paula também não vem bem.

Outro detalhe que o Palmeiras precisa ter muita atenção é a transição defensiva. Nos jogos em que mais teve a bola, recompôs de forma lenta e desorganizada. A demora para reagir após a perda da posse chamou a atenção. Logicamente que o caráter decisivo de uma final única deve mudar essa atitude, mas é bom que a transformação seja revolucionária em relação às últimas partidas.

Quatro dos últimos sete gols sofridos pelo Palmeiras foram em contra-ataques rivais, após bolas perdidas perto da faixa central ou no campo adversário. Abel Ferreira certamente se cercou dessas informações e a tendência é que elas indiquem a postura palmeirense na final, ao menos a estratégia inicial ou enquanto o placar for favorável ou de empate.

Imagem: Alexandre Vidal / Flamengo

Fonte: Uol
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