"A torcida é sensacional, sempre enchendo o estádio e fazendo uma festa enorme. E, naquela época, a pressão por um título internacional era muito grande, especialmente quando fomos chegando mais perto da fase final", conta Clemer, com uma afirmação que poderia ser tanto sobre o Flamengo de 1999, na Copa Mercosul, quanto sobre o Internacional de 2006, na Copa Libertadores .

Em comum, além do fato de as duas equipes terem sido campeãs dos torneios em questão, estava ele, o camisa 1, ídolo das torcidas cujos times se enfrentam nesta quarta, às 21h30, no Beira-Rio , valendo vaga na semifinal do principal continental sul-americano de clubes.

No caso do Flamengo do fim dos anos 1990, o que pesava era o jejum de título internacionais, que já durava 18 anos, desde a conquista da Copa Libertadores e do Mundial de 1981 - houve a conquista de uma extinta e desimportante Copa Ouro da Conmebol, em 1996, que passou quase despercebida e "nem contou".

"Conforme a decisão ia se aproximando, a gente ia ouvindo que poderia ficar na história do clube com uma conquista internacional, já que o Flamengo há muito tempo não conquistava nada internacional", diz o ex-goleiro.

Hoje, o Rubro-Negro vive um jejum ainda maior, que pode chegar a duas décadas se o troféu da competição continental não voltar para a Gávea no fim deste ano.

Para o Inter, a pressão decorria do fato de o rival Grêmio ter não apenas uma, mas duas Libertadores, à época (1983 e 1995) - além do Mundial Interclubes de 1983.

"A cidade aqui (Porto Alegre) respira futebol mesmo. Você vai no shopping, vai encontrar torcedores do Inter e do Grêmio, que vão falar com você. Vai num restaurante, e vai ter garçons que torcem para os dois times e que vão te cobrar. É o tempo todo assim", afirma.

FLAMENGO DE 'FERAS'

Clemer chegou ao Flamengo em 1997, após uma temporada quase perfeita na Portuguesa vice-campeã brasileira um ano antes. Um pouco antes de assinar com o clube carioca, veio a convocação para a seleção brasileira por Zagallo, prenunciando a boa passagem que ele teria vestindo vermelho e preto. .

"O legal é que o jogo (contra a Polônia) foi no Serra Dourada, em Goiás, onde eu também já tinha jogado", relembra-se Clemer.

No Fla, Clemer se deparou com uma verdadeira seleção, que foi melhorando com o passar dos anos.

"Só joguei com as feras: Marcos Assunção, Sávio, Romário, Alex, Palhinha, Gamarra, Petkovic...", enumera o ex-goleiro. "Isso sem contar os que estavam subindo da base, como Adriano Imperador, Reinaldo, Juan", completa.

Pelo Flamengo, Clemer conquistou sete títulos: Três cariocas, a Copa dos Campeões e a já citada Copa Mercosul. "O pessoal conta a Taça Guanabara, mas eu só computo o Estadual completo", explica.

Para Clemer, o jogo mais marcante depois da final da Mercosul, contra o Palmeiras, foi a semifinal do torneio, contra o Peñarol, quando houve uma batalha campal.

"Aquilo já estava armado Nós ganhamos no Maracanã, por 3 a 0 e eles já tinham se armado para a briga. Só que no nosso time, tinha muito moleque. Os mais cascudos éramos eu, Célio Silva e talvez o Beto", relembra-se Clemer.

"O jogo acabou, e eles já foram para cima do Athirson. Aí, o pau fechou", relembra-se ele, entre risos.

"Eu vivi de tudo no Flamengo. Times bons que não foram longes, times ruins que fracassaram e times médios com grandes campanhas", diz ele.

"Muita gente fala isso e é verdade: só quem vivenciou o Flamengo sabe como é. É como jogar numa seleção brasileira dos clubes. A mesma torcida que te leva para o topo é também capaz de uma pressão muito forte quando a fase é ruim", diz.

"Eu fico feliz pela minha passagem, principalmente porque conquistei títulos, porque é isso que te marca na história do clube. Queríamos a Libertadores, mas não deu", diz.

Mesmo assim, a festa pela Conquista da Copa Mercosul, sobre o Palmeiras , foi digna de grande título.

"Você sabe como é o Flamengo, né? A cidade explodiu, teve desfile em carro de bombeiros, foi uma loucura", relembra-se.

"Isso sem falar na premiação", conta o ex-jogador.

INTER DE 'BOLEIROS'

A passagem de Clemer pelo Inter teve início por conta de dois fatores: uma lesão em seu tornozelo e um promissor goleiro revelado na base flamenguista, que atendia pelo nome de Júlio César, em 2001.

"Ele era meu reserva há três anos, mas já vinha pedindo passagem. Quando eu machuquei o tornozelo e fiquei três meses parado, ele entrou e foi muito bem. Não tinha mais como ele sair do time", reconhece Clemer.

Inicialmente, Clemer foi para o banco trabalhar para reconquistar seu espaço. Mas logo veio uma oferta do Internacional, que mudaria sua vida.

"Eu já não esperava mais, àquela altura, que ainda fosse viver um momento tão especial na minha carreira", confessa ele. "Fui para o Inter para ganhar menos, mas para jogar", diz.

Em 2002, Clemer desembarcou no Beira-Rio para fazer história. Segundo recorda, ele chegou ao clube numa quarta-feira, treinou na sexta e já jogou no sábado.

"O Inter em que cheguei foi bem diferente daquele do qual saí", conta Clemer. "No primeiro ano, tínhamos um time com muitos 'boleiros', como a gente diz na gíria. Mas poucos atletas de verdade, dedicados", diz. "E eu era o capitão do time, tinha que aguentar aquilo tudo", diz, entre risos.

"Fora que o clube atrasava alguns salários e vivia de ganhar estaduais e dos três brasileiros conquistados no passado (1975, 1976 e 1979). A cobrança era muito grande. E, no meu primeiro ano no clube (2002), quase fomos rebaixados".

Aos poucos, as coisas foram mudando no clube. "Veio também o Muricy, em 2004, que nos ajudou muito", conta.

Junto com o técnico, veio também o capitão Fernandão (1978-2014), cuja chegada tem muito a ver com o esforço de Clemer, que já era seu amigo.

"O Fernando era um cara diferente. A gente era irmão. Conquistamos tudo aqui no Inter", conta ele.

E esse tudo inclui nada menos que a tão sonhada Libertadores, em 2006, contra um São Paulo , e um inesperado Mundial de Clubes, contra o Barcelona , no final desse mesmo ano.

No Inter, Clemer sempre foi um dos líderes. "O Fernando era o capitão, mas havia vários capitães naquele grupo, como eu, Índio, Bolívar, Fabiano Eller, Iarley, caras que tinham a mesma mentalidade", relembra-se.

Dessa época, além das conquistas, ficaram vários boas lembranças. Como no dia em que o grupo teve de dar uma prensa em um jogador que estava "quebrando na noite".

O Inter já não se concentrava, tamanho era o comprometimento daquele grupo. Mas um dia, o técnico Abel Braga reuniu o grupo para informar que, como um jogador estava sendo visto em bares e casas noturnas em vésperas de partidas, o regime de concentração iria voltar.

"Na hora, já pedimos para ele nos deixar a sós, só os jogadores, que a gente iria resolver aquilo", conta Clemer.

"O que a gente disse para ele era para ser inteligente. Ele ia ter a hora dele, de tomar a cerveja dele, de sair, mas não enquanto a gente está disputando vaga na Libertadores", conta Clemer.

"Acabada a reunião, a gente avisou o Abel que estava tudo resolvido. E ele falou: 'Tá bom, então, se vocês estão dizendo que tá resolvido, está resolvido'. Com aquilo, ele colocava uma responsabilidade na gente. E a gente bancou e fomos campeões", diz.

"Pensa numa cidade louca!", relembra-se Clemer. "O gaúcho é um povo louco demais", diverte-se ele, que voltaria a conquistar o torneio em 2010.

Mais festa do que na Libertadores, só mesmo no Mundial, meses depois da primeira conquista sul-americana.

"Rapaz, eu mandava na cidade. Não pagava um restaurante mais. Eu ia pagar e o dono não deixava", conta, gargalhando.

"A gente veio de avião e, quando ele sobrevoou o Beira-Rio, vimos que o estádio estava lotado. Não conseguimos pousar em Porto Alegre, descemos em Canoas (a 18 quilômetros)", conta.

"Cara, era um mar vermelho de Canoas a Porto Alegre, eu nunca vi nada igual".

"Uma vez, um torcedor me agradeceu pela conquista e disse: 'daqui a 20, 30, 50 anos, o colorado vai te encontrar e te agradecer'. Eu achei que era exagero. Mas não é. Já faz 13 anos, e eu ainda escuto agradecimentos onde quer que eu vá", diz.

QUEM PASSA, CLEMER?

"Aí, você me derruba. Você vai me desculpar, vou ser sincero, mas não tem como palpitar", confessa.

"O Flamengo tem uma vantagem muito boa, com o 2 a 0 na ida. Mas o Inter vai pressionar muito", acredita, com a autoridade de quem se tornou técnico e consegue ver o jogo por vários ângulos diferentes.

"O Flamengo tem que ter cuidado não sofre um gol no começo e fazer uma transição muito boa no contra-ataque. Já o Inter tem que pressionar mesmo, mas tomar cuidado para fazer uma transição defensiva rápida", explica.

Treinador licenciado pela CBF, Clemer trabalhou nas categorias de base do Inter entre 2010, quando parou de jogar, e 2015. No final de 2013, orientou o grupo principal do Internacional por 13 rodadas no Brasileirão.

Clemer passou também pelo Glória-RS, pelo Sergipe, onde foi campeão estadual em 2016, e pelo Brasil-RS.

Pelo time de Pelotas, em 2018, conseguiu eliminar o Internacional na semifinal, mas foi derrotado na final. Há 63 anos, o time não chegava à decisão estadual. Também conquistou a "Taça 100 Anos Federação Gaúcha", pela melhor campanha geral na primeira fase do Gauchão, à frente da dupla Gre-Nal.

Sob seu comando, o Brasil alcançou também a melhor campanha da história do clube no Brasileirão na Série B em 2017: saiu da 16ª posição para fechar o campeonato no 8° lugar - aproveitamento de 75% como mandante.