Documentário da ESPN homenageia Cléber Santana, humano como jogador e sensível como ser humano
“Vou fazer meu nome no mundo inteiro e terminar a minha história”. Foram essas as últimas palavras de Cléber Santana à esposa antes de embarcar na trágica viagem de avião para a Colômbia. Aquela que terminou com 71 mortes, das quais 42 ligadas à Chapecoense .
Ouvir esse relato de Rosângela Loureiro, viúva, é um convite para uma reflexão. Assim como é o testemunho de Cleidson, irmão de Cléber, sobre o último encontro entre eles.
“Pediu aos nossos amigos: 'Abre o olho desse cara. Esse cara é bom, tem coração bom, mas as amizades dele não prestam. Só estão com ele porque é meu irmão'”, disse.
São dois depoimentos, entre tantos, que emocionam no novo documentário “Cléber Santana: a estrela solidária”, produção da ESPN com direção e roteiro de Marcelo Gomes.
Disponível no Star+ . Exibição na ESPN nesta quarta-feira (21), às 21h (de Brasília).
De início, embarcamos numa viagem pela trajetória de vida de Cléber Santana, nascido em Abreu e Lima, Pernambuco, e que, como muitos, almejava mudar de vida.
Ainda na periferia, ele travou muitas batalhas. Todas elas experimentaram um sofrimento, uma dor e uma angústia diferente para suportar. A vitória nunca foi solitária.
Além da mãe e do irmão mais novo, a quem criou desde cedo por causa da morte prematura do pai, havia uma jovem esposa e um filho (outro chegaria depois) para sustentar. Todos remavam juntos.
Cléber Santana foi treinar muitas vezes de bicicleta, percorrendo mais de 10 km por dia sem freio (usando as sandálias, como recorda um treinador), já que não tinha outra opção.
Os amigos de infância, que jamais foram deixados de lado, sempre recebendo ajuda e que permaneceram fiéis até os últimos dias, também partilhavam desse sonho, mas não tiveram o mesmo poder de resiliência. Admitem que desistiram do futebol por muito menos, enquanto “Chokito”, apelido que causava ódio em Cléber Santana, mantinha-se firme.
Eles vibraram ao ver o amigo vestir as gloriosas camisas de Sport , Vitória , Santos , São Paulo e Flamengo , numa trajetória que hoje é capaz de inspirar qualquer um.
Cléber Santana também teve a chance de fazer a vida fora do Brasil. Primeiro no Japão, defendendo o Kashiwa Reysol, depois na Espanha, com as camisas de Atlético de Madrid e Mallorca. Mas, se sobrava dinheiro nessa fase, faltava hospitalidade, com o frio, o preconceito e a distância.
Já próximo do final de carreira, aos 35 anos, ele encontrou equilíbrio na Chapecoense. Não tinha um grande salário. Nem mesmo a perspectiva de enfileirar títulos. Mas vestia a faixa de capitão, tinha reconhecimento, liberdade e estava em sintonia com o clube e com a cidade.
“Até sobre as contratações ele era consultado, assim ele dizia”, relembra o irmão do jogador.
O acidente em 28 de novembro de 2016, quando o voo 2933 da LaMia caiu na área rural de La Unión, na Colômbia, não colocou apenas um ponto final trágico na carreira do jogador.
Ali deixou este plano um homem solidário, que carregou durante os 15 anos como jogador profissional, não apenas os próprios sonhos, mas também os da família e dos amigos.
“Ele me deu dinheiro para comprar uma casa”, diz Weidson, um dos inseparáveis amigos.
Um buraco que cada dia fica mais fundo se abriu na vida de todos. Não é do jogador que eles sentem faltam. Nem mesmo do dinheiro dele. Mas da companhia e da gentileza dele.
A viúva e os filhos fazem terapia. A mãe olha através da porta à espera do filho, como se tudo não passasse de um pesadelo a ser desmascarado. O
irmão encontrou o caminho desejado por Cléber e tenta honrar os ensinamentos. Os amigos enxergam no futebol não um jogo, mas a saudade.
A dor é seguida pelo sentimento de injustiça. A família recebeu apenas o seguro privado pago pelo jogador. Até hoje aguardo a indenização prometida e jamais paga pela Chapecoense --ao documentário, o clube não inveja uma resposta.
Se sobrava sensível a Cléber Santana, faltou aos responsáveis ​​por fazer justiça.
São muitas as lições e reflexões que o documentário provocará. Ainda bem que o trabalho de Marcelo Gomes teve a sensibilidade necessária para deixar essa história registrada.