Christian Esmério não queria ir para o gol, mas o "feeling" de Thiago Dias era o oposto. Quando viu a estatura do garoto de nove anos, a coragem e a inteligência diferenciada das outras crianças da mesma idade, não teve dúvida. O treinador de goleiros do futsal do Madureira disse ao seu pai Eduardo Dias que ele ainda seria o goleiro da seleção brasileira.
O trabalho para convencê-lo de que a sua posição era debaixo das traves, no entanto, foi complicado, conta o técnico de futsal do Madureira à época Joanathan Garrido:
— Ele era teimoso, ficava do lado de fora da quadra, segurando a grade. A gente chamava: “Vem treinar, Christian. Vem treinar”, mas ele não ia. Demorou, porém ele acabou cedendo.
Com o tempo, o garoto que viria a defender o Flamengo e o Brasil nas categorias de base aceitou. Só que havia um problema: Christian morava próximo ao Madureira, mas o pai, além de ter uma condição financeira ruim, trabalhava de madrugada e não podia levá-lo aos jogos fora do bairro. Então, uma ideia surgiu. Quando a partida não fosse disputada em casa, ele dormiria na casa de Thiago ou de Joanathan. Christian — um dos dez jovens mortos no incêndio no CT do Ninho do Urubu no dia 8 de fevereiro — começava a criar laços familiares em outras lares.
— Ele adorava ficar lá em casa jogando videogame comigo e com meus irmãos. Toda minha família sempre teve um grande carinho por ele. Era engraçado, ele não gostava de tomar banho e minha mãe sempre falava: “Olha, se você não tomar banho, não vou fazer o hambúrguer”, e ele ia correndo — conta Thiago, que atualmente é treinador de goleiros do time profissional do Al Bataeh, dos Emirados Árabes.
Eduardo, de 54 anos, pai de Thiago, relembra uma conversa recente entre os dois:
— Eu pedi um autógrafo para ele: “Olha, daqui a pouco você vai estar famoso, aí seu autógrafo vai estar muito caro”. Ele me respondeu dizendo que ia para a seleção e ia autografar uma camisa para me enviar, mas não deu tempo.
O ‘paizão’ e o aniversário da ‘irmãzinha’
Joanathan Garrido, de 36 anos, que era o treinador de Christian na época em que ele jogava no Madureira, foi outro a abrir as portas da sua casa quando o jovem precisou. Eles eram tão próximos que Joanathan convidou Christian e sua família para o aniversário de dois anos de sua filha, em 2018.
O goleiro não confirmou presença e o técnico acabou não cobrando nenhuma resposta. Durante a comemoração, Joanathan estava conversando com algumas pessoas, quando uma mão segurou seu ombro.
— Fala, paizão — disse Christian.
O treinador se impressionou ao ver o garoto grande, depois de tanto tempo.
— Não podia faltar ao aniversário da minha irmãzinha — completou o jovem.
— Depois disso, minha esposa o abraçou. Era um garoto fora da curva — relembra Joanathan.
A esposa de Joanathan se chama Clarisse Cardoso, é fisioterapeuta, tem 35 anos e se declara como “A torcedora fanática de Christian”:
— O Christian era igual a um filho meu. Eu ainda não tinha uma filha quando o conheci. Torcia muito, ele era minha segurança de vitória, sempre fechava o gol. Quando ele ia a nossa casa, a gente se preocupava com a alimentação dele, botava ele sentado na mesa e ele só alimentava se comesse cenoura. E, em quadra, eu botava pressão.
A dura notícia que veio do Brasil
No dia em que o centro de treinamento do Flamengo pegou fogo, Thiago estava em casa, na cidade de Dhaid, nos Emirados Árabes Unidos, onde mora há seis meses. Ele tinha acabado de almoçar quando pegou o computador para ver as notícias do Brasil:
— Eu vi uma foto do Christian circulando, vi outra e comecei a ver várias. Eu rolava a linha do tempo e só via foto dele. Perguntei se aquilo era verdade. Eu não conseguia acreditar. Vi as notícias e não parava de chorar.
No dia seguinte, tinha que trabalhar. Pensou que seria o pior treino da vida dele, mas se surpreendeu:
— Provavelmente, foi um dos melhores treinos da equipe no ano. Eu não sei o que aconteceu, parecia que eles sabiam o que tinha acontecido comigo. Parecia que eu estava treinando com o Christian.