Um gol e uma assistência consagraram há 17 anos Élvis Gustavo Oliveira de Sá no Maracanã. Camisa 10 do Santo André , ele foi o “cara” diante do Flamengo que, mesmo incentivado por mais de 70 mil torcedores, perdeu o título da Copa do Brasil na noite de 30 de junho de 2004.
O revés por 2 a 0 foi o Maracazano rubro-negro com uma diferença significativa. Os flamenguistas ostentavam favoritismo superior ao do Brasil sobre os uruguaios em 1950. Não apenas por jogar em casa, mas por estarem tecnicamente e financeiramente anos-luz à frente dos andreenses.
Ninguém podia acreditar que um time com custo de R$ 1 milhão mensal poderia ser superado por outro com folha salarial em torno de R$ 150 mil mensais e que estava na Série B.
Até a experiência dos elencos era discrepante. Felipe, camisa 10 do Flamengo, ostentava 13 títulos na carreira e era titular da seleção, enquanto Élvis ainda não tinha tido oportunidade em um grande clube.
Mal sabiam os rubro-negros que o meio-campista alagoano pisou pela primeira vez no Maracanã justamente na partida que valeu o título da Copa do Brasil para a equipe do ABC paulista.
Aliás, não sabiam porque o próprio Élvis despistou. Incomodado com a insistência de jornalistas que perguntavam como seria encarar a pressão do Flamengo no maior estádio do Brasil nos dias anteriores à final, ele declarou que estava tranquilo porque já tinha atuado na Bombonera contra o Boca Juniors pelo Quilmes. Foi uma forma de dizer que não ficaria impressionado.
A versão não foi desmentida por ninguém na época. O meio-campista sustentou a história até mesmo depois do apito final, quando atendeu os repórteres da televisão.
“Queriam fazer pressão para cima da gente e ficarmos para baixo. Aí, eu usava isso para tirar esse peso da gente”, disse Élvis ao relembrar a conquista mais de uma década depois e que pelo Quilmes teve apenas a experiência de jogar a segunda divisão na Argentina.
“É um futebol forte e de pegada. Eu tinha 20 anos, e foi um aprendizado muito grande para a minha carreira. Pude pegar um pouco da malandragem deles também”, disse o meio-campista.
A revelação acima consta no livro “Eles calaram o Maracanã”, projeto independente do jornalista Vladimir Bianchini, da ESPN Brasil , que retrata de forma inédita os relatos daquela inesperada conquista em 2004.
O autor colheu depoimentos de todos os campeões da Copa do Brasil, cavando fundo para retratar com fidelidade toda a campanha do Santo André, da estreia ao título, em 224 páginas.
O próprio Élvis admitiu ao autor do livro que precisou de uma cobrança extra dos companheiros no dia da final para “acordar” e começar a jogar bem no Maracanã.
“A gente depende de você! Você está mal no jogo e precisa reagir para sermos campeões. Você precisa chamar a responsabilidade!”, ouviu do zagueiro Dedimar e do volante Ramalho.
“Não tem só eu aqui. Tem todo mundo para ajudar”, respondeu o camisa 10.
Coincidência ou não, os gols tiveram a assinatura dele. Aos 7 minutos do segundo tempo, ele cobrou o escanteio que terminou em gol de cabeça de Sandro Gaúcho. Aos 23, Élvis aproveitou cruzamento rasteiro do atacante Osmar para marcar o segundo do Santo André.
Sobre a comemoração, Élvis fez outra revelação. Muitos devem se lembrar da cena. Ao finalizar ao gol, o camisa 10 correu em direção aos torcedores flamenguistas com os braços levantados e gritando. Ficou parado com a boca aberta perto da bandeirinha de escanteio.
O que passava pela sua mente naquele instante era a imagem de Zico celebrando os gols do time do coração no Maracanã lotado. Jamais imaginou que faria o mesmo, mas como “carrasco”.
“Foi o momento mais importante e histórico da minha carreira. Nunca pensei que poderia fazer um gol na final. A gente sonha, mas as coisas são mais difíceis do que a gente imagina”, disse Élvis.
Aquele continua sendo o maior título da carreira do meio-campista, que pouco depois transferiu-se para o Botafogo. Mas foi o Santo André quem o imortalizou. Com o título em 30 de junho de 2004 e por fazer dele o primeiro jogador que jogou todas as quatro divisões do Campeonato Brasileiro por um mesmo clube.
Levantou poeira
Entre as histórias de bastidores da final, o auxiliar técnico Sérgio Soares revelou ao autor do livro que utilizou a própria festa dos torcedores rubro-negros para mexer com o time andreense.
Minutos antes do início da partida, ele deixou o vestiário de visitante do Maracanã e foi ao gramado. Observou que os flamenguistas não paravam de cantar “Sorte Grande”, hit do Carnaval daquele ano, consagrado - na voz de Ivete Sangalo - pelo refrão “Poeira, poeira, poeira, levantou poeira...”.
Além de perceber que a festa não era para o Santo André, Soares percebeu que já havia um palco armado para a entrega da taça próximo ao banco de reservas do Flamengo.
Ouviu de um jornalista que Ivete Sangalo ia cantar na festa logo depois da partida. De acordo com o livro, aquela descoberta foi suficiente para ele agitar o vestiário andreense.
“Vão lá no campo, tem um negócio diferente. Tem um palco armado para um show, mas que não foi feito para vocês. Vão deixar os caras cantarem ‘Poeira’ em cima de vocês?”, disse Soares.
O efeito não é retratado apenas pelo placar que ficou registrado naquela noite. Mas por revelações como a de jogadores como Alex, Osmar, Ramalho e Gabriel.
Ao longo das páginas é possível ver outros depoimentos ricos e ligados ao folclore do futebol nacional que a leitura nos torna um espectador privilegiado, com angústias, surpresas e humor, e nos faz entender e torcer pelo humilde David contra o poderoso Golias.