Uma audiência de conciliação em um processo de indenização por ofensas em redes sociais pode trazer à tona um dos episódios mais polêmicos da gestão do ex-presidente Rodolfo Landim no Flamengo: a criação de uma empresa em Las Vegas, Nevada (EUA). O caso, que envolve o ex-candidato à presidência do clube, Walter Monteiro, e o ex-vice-presidente geral, Rodrigo Dunshee, agora apresenta um desdobramento que pode forçar a divulgação de documentos que estavam sob sigilo por anos.
O Início do Conflito
O processo teve início quando Monteiro moveu uma ação contra Dunshee, pleiteando uma indenização de R$ 50 mil. A acusação se baseia em ofensas que teriam sido proferidas pelo perfil anônimo "Roberto Dodien", supostamente criado por Dunshee. Durante a audiência, realizada nesta semana, Monteiro revelou que quase houve um acordo. Sua proposta consistia em abrir mão de qualquer valor indenizatório, desde que Dunshee realizasse uma doação de R$ 5 mil para a ONG Ação da Cidadania contra a Fome e publicasse uma declaração repudiando as ofensas, sem precisar assumir a autoria.
Entretanto, o acordo não foi concretizado devido a uma condição imposta por Dunshee: que o processo, de natureza pública, passasse a correr em segredo de justiça e que Monteiro ficasse impedido de comentar publicamente sobre o desfecho. "Recusei, afinal se o processo é público e a história é pública, o desfecho tem que ser público", afirmou Walter em suas redes sociais.
Reviravolta e Exposição de Documentos
A principal reviravolta do caso ocorreu com a estratégia de defesa de Rodrigo Dunshee. Além de negar a autoria das ofensas, o ex-vice-presidente entrou com um "pedido contraposto", processando Walter Monteiro no mesmo processo e solicitando uma indenização. A justificativa de Dunshee se baseia em postagens de Monteiro que o criticam, especialmente em relação à criação da empresa em Nevada.
Revelada em 2021 por meio de uma reportagem do jornalista Lucio de Castro, na Agência Sportlight, a empresa foi aberta em nome do Flamengo nos Estados Unidos, com a participação de Dunshee na sociedade, sem que o ato tivesse sido submetido à aprovação dos conselhos do clube. Na época, a justificativa do clube era que a intenção era abrir um time em Las Vegas. Contudo, como o negócio não avançou, a empresa foi fechada. Desde então, a documentação e os objetivos da criação desta empresa nunca foram totalmente esclarecidos pela antiga diretoria, gerando desconfiança e questionamentos na política interna do clube.
A Busca por Esclarecimentos
Diante da ação judicial, Monteiro solicitou à Justiça o direito à "exceção da verdade". Este mecanismo legal permite que o autor de uma declaração considerada ofensiva prove a veracidade de suas alegações para se isentar de responsabilidade. Com isso, Monteiro pretende requerer acesso aos estatutos e documentos da empresa de Nevada para comprovar suas afirmações. "De fato, no Flamengo não tivemos acesso à documentação desse episódio da empresa no estado de Nevada e sempre houve muito interesse em entender o que, de fato, aconteceu ali", explicou Monteiro.
Essa situação cria um cenário paradoxal. Uma ação que começou por uma discussão em rede social pode, por iniciativa da própria defesa de Dunshee, abrir as portas para que um assunto espinhoso e mantido longe dos holofotes por quase cinco anos seja finalmente esclarecido. "Seria irônico demais que tudo que se ocultou nesses 5 anos agora viesse à luz por causa da estratégia de defesa de Dunshee em uma reles ação indenizatória de treta de Twitter", concluiu Walter Monteiro, que agora aguarda a sentença do juiz sobre o caso e os próximos passos processuais.