Aglomeração de torcedores em jogos decisivos preocupa, e especialistas pedem campanhas de desincentivo de clubes e CBF

Dentro de duas semanas o Brasil completará um ano sem torcidas nos estádios — uma necessidade surgida no mundo todo para impedir que o esporte fosse vetor de propagação da Covid-19. Contudo, com a chegada da reta final da temporada e seus jogos decisivos, a medida se mostrou insuficiente. Cenas de torcedores aglomerados e sem máscaras se tornaram comuns nas ruas. Com o Brasil em nova alta de casos e de mortes — no dia da rodada final do Brasileirão, o país registrou o recorde de 1.582 óbitos em um dia —, episódios como estes ligaram o alerta de governos e reacenderam o debate sobre a ineficiência do poder público e a falta de consciência coletiva.

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A primeira partida da final da Copa do Brasil, entre Grêmio e Palmeiras, na Arena, foi afetada. Inicialmente às 16h de hoje, foi transferida para 21h a pedido do Governo do Rio Grande do Sul. Com 94,5% dos leitos de UTI ocupados, o estado decretou bandeira preta — estágio mais rigoroso de medidas restritivas. Serviços não essenciais estão proibidos das 20h até as 5h do dia seguinte. A ideia é que todos os jogos no estado sejam à noite para evitar aglomerações.

— No início do Campeonato Gaúcho, sem jogos decisivos, não acredito em aglomerações. Nas fases finais, pode ser uma preocupação e vamos reavaliar de acordo com a situação — afirmou o vice-governador Ranolfo Vieira Júnior.

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Durante a semana, uma reunião entre autoridades estaduais e municipais com a diretoria gremista traçou uma campanha de conscientização. Em vídeos nas redes sociais do clube, jogadores pedem aos torcedores que assistam à final em casa.

Ao menos por enquanto, o jogo de volta, em São Paulo, não foi alterado. Mas a capacidade de mobilização da final já preocupa. A pedido do Ministério Público, um evento com torcedores no Allianz Parque, durante a partida em Porto Alegre, foi cancelado.

Na final da Libertadores, palmeirenses lotaram bares do Rio Foto: Brenno Carvalho
Na final da Libertadores, palmeirenses lotaram bares do Rio Foto: Brenno Carvalho

Em geral, não há campanhas de conscientização por parte dos clubes. O máximo que se vê são postagens pontuais nas redes sociais ou termos discretos como “você em casa” perdidos em meio a textos que nada tem a ver com o assunto. Responsável pelo Campeonato Brasileiro, a CBF também não fez nenhuma ação em seus canais oficiais.

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Especialistas argumentam que as recentes aglomerações devem ser levadas em consideração na promoção de políticas de controle da Covid-19. Eles apontam a responsabilidade do poder público, da CBF e dos clubes em evitar as reuniões em bares, lugares públicos e nas imediações dos estádios.

— Essas pessoas são jovens e a tendência é ter doença leve, mas estarão levando para outras. A escolha delas implica no risco de outras morrerem — disse o infectologista Roberto Medronho, especialista em saúde pública e professor titular da UFRJ.

Para Alberto Chebabo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, não há grande risco na manutenção do futebol com as medidas sanitárias atuais. O problema está na falta de fiscalização do poder público em fazer valer as restrições impostas pelos decretos.

— Não é surpresa para ninguém. Mas não tem havido interesse do poder público em reprimir esse tipo de aglomeração — diz Chebabo.

Ambos concordam que clubes e a CBF deveriam ter um papel mais ativo na conscientização das torcidas. Cenas de multidão em aeroportos e concentrações e no entorno do estádio deveriam ser desestimuladas.

— Os clubes e a CBF têm recursos e acesso para isso. Usam argumentos de que “o problema não é nosso” e que é inevitável, mas não é. As pessoas não estão entendendo que estamos na beira do precipício e acelerando o trem — afirmou Chebabo.

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Medronho reforça que jogar a culpa na população não é produtivo. Ele lembra que a Constituição diz ser dever do estado promover a saúde do cidadão. No momento, isso quer dizer medidas impopulares de restrição. E com apoio dos clubes.

— É fundamental dizer: “Se você é realmente flamenguista, não se aglomere”. Mas ninguém faz isso.

Impacto nos índices de isolamento

As cenas registradas nas ruas mostram a necessidade desses alertas. Após a conquista da Libertadores, palmeirenses festejaram em diversos pontos de São Paulo. E uma multidão acompanhou o ônibus na chegada do elenco ao CT. Na última rodada do Brasileiro, flamenguistas fizeram festa em pontos da cidade como a Praça Varnhagen, na Tijuca, e o Baixo Gávea. Na Rocinha, centenas desfilaram numa espécie de carnaval rubro-negro.

O embarque e o desembarque do Flamengo, antes e depois do jogo decisivo, também mobilizaram os torcedores. No “AeroFla”, o que menos se viu foram máscaras. Mas ápice da aglomeração foi no entorno do Maracanã durante o jogo com o Internacional, há uma semana. Como se estivessem na arquibancada, milhares se juntaram para sacudir bandeiras e cantar.

A pedido do GLOBO, a empresa de inteligência artificial Cyberlabs levantou os índices de isolamento social de algumas regiões do Rio nos últimos dias. A metodologia considera a quantidade de pessoas nas ruas em comparação à média do dia da semana equivalente antes da pandemia. Quanto menor o número, maior a aglomeração.

Botafogo, que reúne muitos bares, registrou míseros +1,42% na última quinta. Já no domingo passado, a marca foi de -22,56% (ou seja: havia mais gente circulando por ali naquele dia do que antes da pandemia).

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Na Tijuca, o índice foi de -0,56% no dia de Flamengo x Internacional. Já na final da Libertadores, no Maracanã, em 30 de janeiro, a taxa foi de +26,48%. Para se ter ideia do impacto, uma semana antes a marca fora de +46,96%.

Apesar das imagens, as autoridades dizem fazer sua parte. Segundo a Secretaria de Ordem Pública do Rio, 25 estabelecimentos foram multados em diversos bairros por provocar aglomeração na última quinta. No domingo passado, o órgão só atuou no entorno do Maracanã, onde sete estabelecimentos foram autuados.

O foco das operações está nos estabelecimentos comerciais, mais fáceis de serem fiscalizados e multados. Quanto à população, não há um plano. E a atuação acaba sendo mais discreta.

Quando perdeu o controle dos milhares de torcedores reunidos no Maracanã, há uma semana, a Polícia Militar precisou usar bombas e gás de pimenta. Segundo a instituição, o tumulto teve início quando tentaram ultrapassar os bloqueios de acesso ao estádio. Não houve detidos.

Fonte: O Globo