A dura face da reportagem: um fim de semana com as famílias das vítimas na tragédia do Flamengo

Na noite da última sexta-feira, 14 famílias de diferentes lugares do Brasil deram entrada em um hotel da zona oeste do Rio de Janeiro. O local, procurado por turistas que querem aproveitar as praias daquela região da cidade e usado para eventos empresariais, foi escolhido pelo Flamengo com outro intuito: dar suporte aos parentes dos dez garotos mortos, dos três feridos e de um dos sobreviventes no incêndio em um alojamento do Ninho do Urubu.

Depois de uma tarde inteira no Centro de Treinamento do Flamengo, me foi dada a missão de acompanhar os familiares das vítimas da maior tragédia dos 123 anos de história do Rubro-Negro. O fim de semana que seria de folga tornou-se o maior desafio profissional que vivenciaria na curta carreira até aqui. Fevereiro, mês do meu aniversário, ficará para sempre marcado de forma trágica.

  • Mais de 60 pessoas ficaram instaladas no hotel pelo Flamengo
  • O clube usou duas salas do segundo andar - reservado para reuniões e eventos - para conversar e amparar as famílias
  • Uma ambulância, enfermeiros e médicos fizeram plantão por 24 horas no local
  • Psicólogos e assistentes sociais também permaneceram no hotel para atender familiares
  • Vans ficaram disponíveis para o transporte das famílias

Enquanto dez famílias se acomodavam em seus quartos sabendo que nunca mais encontrariam seus garotos, um sentimento oposto tomava conta de outro aposento do hotel. Pablo Ruan, de Londrina-PR e que escapou das chamas com a ajuda de um amigo, abraçava a mãe pela primeira vez após o trauma vivido na madrugada anterior.

 — Foto: Infoesporte

— Foto: Infoesporte

"Eu não vou conseguir". As palavras ditas pelo pai de um dos meninos me levaram às lágrimas no fim da noite após uma sexta-feira de fortes emoções. Ao lado, a esposa e também mãe de um dos jovens o consolou: "Vai sim, por ele". Imaginar a dor e a angústia vividas por essas famílias, que perderam jovens que ali estavam justamente pensando no futuro daqueles que amam, é uma tarefa impossível de se realizar.

Sentei-me no restaurante do hotel às 21h30 para a terceira refeição daquela sexta-feira - a primeira havia sido o café da manhã, às 7h, e a segunda alguns biscoitinhos por volta de 16h. Comi pouco não por falta de tempo, mas de apetite.

Um nó na garganta me acompanhou nesses dias.

Da minha mesa me entretive com algumas crianças, que, inocentes e alheias ao ocorrido, brincavam no fliperama enquanto os adultos se sentavam em silêncio. A falta do que dizer se sobrepôs ao barulho feito pelos pequenos. Enfim, terminei de comer e fui conversar com representantes do Flamengo em busca de algumas respostas.

Levantei-me às 6 da manhã esperando acordar de um pesadelo . Mas a realidade seguia martelando em minha cabeça a ideia de que famílias inteiras ali perto viveram a pior noite de suas vidas. O dia seria longo.

Um sábado de fortes emoções

Na manhã de sábado, familiares ainda chegavam ao hotel. Pais de Athila, natural de Lagarto, no Sergipe, foram os últimos a desembarcarem no Rio. No reencontro com o restante da família, a emoção foi grande.

Pelo hotel, circulavam histórias que emocionavam a todos, como a de uma vítima que, com a oportunidade de escapar do incêndio, teria ficado para tentar ajudar os amigos. Como definiram alguns dos sobreviventes, os meninos que viviam no alojamento do CT do Flamengo formavam uma família . Os laços dessas amizades foram compartilhados entre os familiares: "Ele vivia falando do seu filho, eram muito amigos, faziam tudo juntos".

A dor da tragédia — Foto: Ricardo Moraes/Reuters

A dor da tragédia — Foto: Ricardo Moraes/Reuters

O respeito às famílias sempre esteve em primeiro plano. É dolorido receber de um estranho frases do tipo "sinto muito" ou "imagino como esteja se sentindo" num momento tão delicado. Por outro lado, como jornalista, estava ali cumprindo uma função e coletando informações de um momento que para sempre marcará o nosso futebol. O lado profissional e o lado humano precisam caminhar juntos . Por isso, nada foi divulgado sem a permissão dos familiares e sem a confirmação do Flamengo, uma das fontes oficiais do ocorrido.

Minha principal preocupação foi o contato com essas pessoas em grande sofrimento. Tentei, em alguns momentos, levar palavras de apoio, responder dúvidas relacionadas à imprensa e, o mais importante, ouvir.

"Olha aqui no meu whatsapp, ele me mandou essa mensagem no dia do meu aniversário", "esse vídeo é do dia em que ele estava na Itália", "olha o tamanho dele nessa foto", "aqui ele está com o troféu na mão". As mensagens e as fotos atestam o carinho e sobram como lembranças daqueles que tiveram o sonho interrompido precocemente.

O VP de futebol da base, Vitor Zanelli, além de outros membros da diretoria, psicólogos e médicos fizeram uma reunião com familiares para atualizar informações na manhã do sábado. O contato frequente com as famílias e o atendimento médico eram algumas das preocupações do Flamengo.

Familiares estavam impacientes na espera pela liberação dos corpos. Havia quem não acreditasse muito no clube, e muitos evitavam o noticiário. Alguns familiares se sentiram mal e precisaram ser atendidos por médicos.

Enquanto aguardava pelo elevador, um familiar buscava ajuda do clube: "A ficha dele caiu só agora, alguém precisa ir lá falar com ele". As lágrimas insistiram em escorrer mais uma vez e, na tentativa de fugir daquelas palavras, esqueci-me do elevador e busquei as escadas.

 — Foto: Infoesporte

— Foto: Infoesporte

Já eram quase 13h quando decidi almoçar. Sentado à minha frente, o tio de uma das vítimas tinha o olhar vago . Por vários momentos o observei. Ele parecia não pensar em nada ou pensar em tudo enquanto mexia na comida sem levar o garfo à boca. Foram longos segundos até ele ser convidado a se juntar a familiares de outra vítima, um amigo do sobrinho.

Quando a confirmação da identificação de alguns corpos começou a ser divulgada na parte da tarde, o pranto tomou conta dos cantos do hotel . Algumas famílias começaram a sair e, sem olhar para trás, sabiam que as horas que ali passaram não seriam facilmente esquecidas. Tomavam o caminho de suas casas, para onde os meninos cheios de sonhos não mais voltariam.

Os pais de Rykelmo saíram do hotel acompanhados por uma equipe do Flamengo. O pedido deles, atendido pelo clube, foi visitar o CT. Queriam conhecer o lugar onde o filho foi feliz e formou uma nova família . Visitaram instalações e os campos. Imaginaram como era o dia a dia do filho. O que esperavam fazer tendo Bolívia, como ele era chamado pelos amigos, como guia.

Torcedores de Botafogo, Fluminense, Flamengo e Vasco no abraço à Gávea no último sábado — Foto: André Durão / GloboEsporte.com

Torcedores de Botafogo, Fluminense, Flamengo e Vasco no abraço à Gávea no último sábado — Foto: André Durão / GloboEsporte.com

No fim da tarde, o presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, o diretor de futebol, Carlos Noval, o VP de futebol, Marcos Braz, o médico Marcio Tannure, além de psicólogo e assistente social, se reuniram com cada família para explicar a situação da vítima e quais seriam os próximos passos. Mais uma vez, colocaram-se à disposição para realizar o que eles precisariam.

O sábado foi denso, e o domingo estava por vir . Os corpos de dois meninos ainda não haviam sido reconhecidos. O sofrimento das famílias de Jorge e Samuel se prolongava.

Cristina, mãe de Samuel, preferiu passar a noite em casa, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Voltou ao hotel pela manhã, mas não suportou. Saiu logo depois de ambulância para o hospital.

Pouco depois, o médico do Flamengo foi chamado às pressas. Desta vez, uma funcionária do hotel havia se sentido mal. "Ela absorveu toda a carga emocional nesses dias de contato com as famílias", revelou o profissional na volta.

Homenagens na entrada do Ninho do Urubu — Foto: Cahê Mota

Homenagens na entrada do Ninho do Urubu — Foto: Cahê Mota

Domingo de despedida do seu Sebastião

Muitas famílias voltaram para as suas cidades durante o domingo. No fim da tarde, chegou a notícia de que os corpos de Jorge Eduardo e Samuel Thomas haviam sido reconhecidos após parentes levarem novos exames para o IML. O fato trouxe um conforto momentâneo para as famílias. Era o ponto final. Era?

Seu Sebastião deixou o hotel com uma expressão de alívio . O tio de Samuel, antes de ir pela última vez ao IML, olhava sorrindo para o celular e veio ao meu encontro com fotos do menino nos tempos em que ele ainda defendia o Pavunense. Sebastião passou a treinar o sobrinho quando ele tinha seis anos ainda no campinho de terra, no Morro do Conceito, onde a família vive em São João de Meriti.

- Eu também jogava bola, era lateral-esquerdo. Eu conversava com ele sempre e falava como ele tinha que jogar e treinar - reforçou o que já havia falado nas últimas conversas antes de entrar no carro em direção ao IML para liberar o corpo de Samuel.

Foi a última vez que vi Sebastião. Um homem sorridente e simples, de semblante tranquilo e fala calma, que eu gostaria de ter conhecido antes, em outra situação.

Era início da noite de domingo. A família de Samuel seguiria para São João de Meriti. Familiares de Jorge permaneceriam no hotel e só seriam levados a Além Paraíba, em Minas, na segunda-feira. Era necessário terminar o dia de uma forma diferente. Foi quando avistei Suyenne Gomes e Thomas Rafael, mãe e irmão de Cauan, um dos sobreviventes, voltarem de uma visita ao garoto no hospital. Ele estava bem.

- Estou muito alegre porque ele sobreviveu, mas ao mesmo tempo fico triste por causa dos outros familiares. Não tem como ficar totalmente feliz - disse Thomas depois de mostrar um vídeo do irmão descontraído no quarto do hospital.

Entre a sexta-feira e a segunda, o Flamengo assegurou colocar as famílias em primeiro plano e ofereceu o suporte necessário na tentativa de minimizar sua dor. Mas, como resumiu um funcionário do clube, "o máximo que fizermos ainda será o mínimo".

Mãe de Samuel Thomas passa mal em hotel do Flamengo e precisa ser levada de ambulância ao hospital — Foto: Emanuelle Ribeiro / GloboEsporte.com

Mãe de Samuel Thomas passa mal em hotel do Flamengo e precisa ser levada de ambulância ao hospital — Foto: Emanuelle Ribeiro / GloboEsporte.com

Na manhã de segunda, tive meu último contato com os familiares. Detalhes desse final de semana serão carregados comigo. Uma cobertura delicada, exaustiva, mas reconfortante. Não tive a oportunidade de conhecer os meninos, mas, em muitas conversas nesses últimos dias, percebi a grandeza de todos eles. Que continuem sendo grandes e que, lá de cima, olhem por tantos que deixaram aqui em baixo.

Ao escrever este texto, fico com a sensação de que a imprevisibilidade do jornalismo esportivo nunca está circunscrita aos gramados, quadras e tatames. Atletas são seres humanos com suas histórias, famílias e sonhos. E a grande maioria, que não goza do estrelato ou do dinheiro, têm suas lutas diárias pouco conhecidas. Se é difícil acompanhar o noticiário, imagina estar do lado de cá? É um momento de respeitar a dor de tanta gente que não pensei conhecer.

E, hoje, o jornalismo e o país se unem ao luto de um Flamengo sem o rubro, que uniu torcidas pelo que há de mais originário naquilo que nos faz humanos. E essa é, sem dúvidas, uma das faces mais duras da reportagem, porque, diante da dor do outro, não dá para não torcer. Por um momento somos todos e todas Flamengo, unidos na torcida de que, pelo menos, o conforto chegue quando o silêncio é a única coisa que resta .

*Em respeito aos familiares das vítimas não foram feitas fotos no hotel.

Fonte: Globo Esporte

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